AP Photo/Evan Vucci
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Trump está louco?

Em suas formas mais moderadas, o narcisismo, o encanto consigo mesmo, é irrelevante. Mas quando se torna mais intenso e domina a atuação de quem tem poder, pode ser muito perigoso

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2017 | 05h00

Há anos estudo o poder, os que o detêm e os que o tiveram. A principal conclusão é que, ainda que a essência do poder – a capacidade de fazer com que os outros façam ou deixem de fazer algo – não tenha mudado, as maneiras de obtê-lo, usá-lo e perdê-lo sofreram profundas mudanças. Outra observação é que a personalidade dos poderosos é tão heterogênea quanto a própria humanidade. Eles podem ser solitários e gregários, valentes e covardes, geniais e medíocres. No entanto, apesar da diversidade, todos têm dois traços em comum: são carismáticos e são vaidosos.

Segundo a Real Academia Espanhola, carisma é “a capacidade especial de algumas pessoas de atrair ou fascinar”. Os líderes carismáticos inspiram grande devoção e, inevitavelmente, sua vaidade é inflada por aplausos, adulação e elogios. A vaidade extrema pode facilmente transformar-se num narcisismo que pode ser patológico. E um dos riscos profissionais mais comuns entre políticos, artistas, esportistas e empresários de sucesso é o narcisismo.

Em suas formas mais moderadas, o narcisismo, o encanto consigo mesmo, é irrelevante. Mas quando se torna mais intenso e domina a atuação de quem tem poder, pode ser muito perigoso. Alguns dos tiranos mais sanguinários da história apresentaram formas agudas de narcisismo, e grandes empresas fracassaram em razão dos delírios narcisistas do dono.

A Associação Psiquiátrica dos EUA desenvolveu critérios para diagnosticar o narcisismo patológico. Chama o problema de Distúrbio de Personalidade Narcisista (DPN) e, segundo as pesquisas, as pessoas que dele sofrem se caracterizam pela personalidade megalomaníaca, necessidade excessiva de serem admirados e falta de empatia. Também mostram uma grande arrogância, complexo de superioridade e conduta voltada para a obtenção de poder. Têm egos muito frágeis, não suportam críticas e tendem a depreciar os outros para, assim, reafirmar-se. Segundo o manual da organização de psiquiatras americanos, a maioria dos que sofrem de DPN tem estes sintomas:

1. Sentimentos megalômanos e expectativa de que se aceita sua superioridade.

2. Fixação em fantasias de poder, sucesso, inteligência e atração física.

3. Percepção de ser único, superior e fazer parte de grupos e instituições de alto nível.

4. Necessidade de ser admirado.

5. Convicção de ter o direito de ser tratado de maneira especial e ser obedecido.

6. Propensão a explorar os outros e aproveitar-se deles para obter benefícios pessoais.

7) Incapacidade de empatia com sentimentos, desejos e necessidades alheios.

8) Inveja intensa e convicção de que todos têm igualmente inveja dele.

9) Propensão a comportar-se de maneira afetada e arrogante.

Falemos agora de Donald Trump.

Não há dúvida de que o presidente apresenta muitos desses sintomas. Mas isso impede que ele ocupe um dos cargos de maior responsabilidade do planeta? Um grupo de psiquiatras e psicólogos acredita que sim. Eles mandaram uma carta a The New York Times na qual assinalam: “As palavras e ações do senhor Trump mostram uma incapacidade de tolerar pontos de vista diferentes dos seus, levando-o a reagir com raiva. Suas palavras e sua conduta sugerem profunda falta de empatia. Indivíduos assim distorcem a realidade para adaptá-la a seu estado psicológico, desqualificando fatos e os que os transmitem (jornalistas e cientistas). Num líder poderoso, esses sintomas tendem a aumentar, já que o mito da própria grandeza parecerá ter se confirmado. Acreditamos que a grave instabilidade emocional evidenciada pelos discursos e ações do senhor Trump o incapacitam para atuar sem perigo como presidente”.

A carta é sem dúvida muito controvertida. Não apenas pela posição que adota com respeito a Trump, mas também porque viola o código de ética da Associação Americana de Psiquiatria. O código estabelece que ninguém – especialmente uma personalidade pública – pode ser diagnosticado a distância. A avaliação pessoal é indispensável. Entretanto, a carta sustenta: “Esse silêncio levou ao fato de não termos podido oferecer nossa experiência a jornalistas e membros do Congresso preocupados com a situação nesses momentos tão críticos. Tememos que haja demasiado em jogo para ficarmos calados”.

Alexandra Rolde, uma das psiquiatras que assinaram a carta, disse à jornalista Catherine Caruso que seu propósito e dos colegas não foi diagnosticar Trump, mas enfatizar traços de sua personalidade que os preocupam. Alexandra não acha que se deva fazer um diagnóstico sem examinar o paciente, mas opina que seja apropriado mostrar como a saúde mental de uma pessoa pode afetar outros ou limitar sua capacidade de agir adequadamente.

Outros psiquiatras não estão de acordo. “A maioria dos que se meteram a dar diagnósticos se equivocaram ao etiquetar o presidente Trump como narcisista. Eu escrevi os critérios que definem esse distúrbio e o senhor Trump não se encaixa neles. Ele pode ser um narcisista de categoria mundial, mas isso não faz dele um doente mental, já que não sofre da angústia e da incapacidade que caracterizam um distúrbio mental. O senhor Trump cria severas angústias nos outros, mas ele mesmo não sofre delas e, mais que punido, tem sido amplamente recompensado por sua megalomania, egocentrismo e falta de empatia.”

Quem escreveu isso foi o médico psiquiatra Allen Francis, diretor do grupo de trabalho que elaborou a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais. A surpresa é que Francis vai além de sua especialidade: “Os insultos psiquiátricos são uma maneira equivocada contrabalançar os ataques de Trump à democracia. Pode-se, e deve-se, denunciar sua ignorância, incompetência, impulsividade e arroubos ditatoriais. Mas suas motivações psicológicas são óbvias demais para terem algum interesse, e analisá-las não deterá seu assalto ao poder. O antídoto contra uma distópica e obscura era trumpiana é político, não psicológico”.

Uma das conclusões de Francis é fácil de aceitar, outra, menos. A fácil é que a saúde mental do presidente é menos importante que a saúde política do país. A capacidade das instituições de resistirem às tentativas de Trump de concentrar o poder é a batalha mais importante nos EUA. Seus resultados terão consequências mundiais. A outra conclusão de Francis é que a estabilidade mental de Trump é irrelevante. Não concordo. Trump está há poucas semanas na Casa Branca e sua conduta já causa justificado alarme. Problemas e frustrações do presidente vão se agravar. E isso não favorece sua saúde mental. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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