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Visão Global; análises e comentários de especialistas

Trump explora a insatisfação

- Atualizado: 14 Fevereiro 2016 | 16h 20

Pré-candidato republicano lidera pesquisas entre os eleitores que estão frustrados com o governo, líderes políticos e outros problemas

Sua vitória decisiva nas primárias de New Hampshire levou o empresário Donald Trump, hoje uma celebridade, mais perto de se tornar o 45.º presidente dos Estados Unidos. Agora, ele desfruta de uma posição vantajosa considerável na maioria das pesquisas nacionais e estaduais no que se refere à indicação republicana, deixando para trás os outros candidatos.

A esta altura da disputa presidencial, somente o senador Ted Cruz, do Texas, parece ter maior possibilidade de superá-lo, embora cinco outros candidatos republicanos continuem concorrendo, até mesmo o ex-governador da Flórida, Jeb Bush, de início o favorito.

Até o momento, os instintos demonstrados por Trump no confronto político ofuscaram claramente os da sua mais provável adversária nas eleições de novembro, Hillary Clinton, que enfrenta o inesperado desafio do senador Bernie Sanders pela indicação democrata.

Indignação. A origem do surpreendente apelo de Trump junto ao eleitorado é a enorme insatisfação do povo americano com o governo, líderes políticos e também com muitos outros problemas. Os eleitores estão mais indignados e mais frustrados do que em qualquer outro momento da história recente dos EUA.

Por outro lado, também estão cada vez mais temerosos por sua segurança, de suas famílias, pelo futuro da economia e desiludidos com o que percebem ser uma diminuição da estatura dos EUA no cenário mundial.

O descontentamento do eleitorado explica o entusiasmo, até mesmo a adulação, pelos candidatos menos moderados, em termos de retórica, e descompromissados em ambos os partidos – não só no caso de Trump, o poliglota ideológico, mas também no de Bernie Sanders, o único socialista declarado do Congresso americano, e de Ted Cruz, o conservador mais intransigente do Senado.

São eles que clamam mais ruidosamente por mudanças radicais na política, na economia e até mesmo na cultura dos Estados Unidos. Os três declaram que o país perdeu em grande parte tudo o que o tornava uma nação especial e, se esta situação não for urgentemente sanada, será perdido para sempre. O plano de Trump é fazer com que a “América volte a ser grande”. Cruz exige “a América de volta” ao ponto em que se encontrava. Sanders quer reviver “o sonho americano”.

Embora os EUA possam se gabar de ter uma das economias mais fortes do mundo, muitos americanos têm boas razões para estar contrariados. Os ganhos das famílias de renda baixa e média estagnaram há décadas. Algumas das mais vulneráveis perderam até mesmo terreno.

Os bons empregos continuam escassos. Pela primeira vez na história dos EUA, a maioria dos pais teme que seus filhos retrocedam e acabem piores do que as gerações anteriores. Muitos jovens adultos estão totalmente endividados em razão do custo altíssimo do ensino universitário que, entretanto, não lhes garante uma carreira firme.

Os republicanos estão extremamente agitados pela ingerência cada vez maior do governo, do seu ponto de vista, e pelos altos impostos e dívidas enormes que precisam ser saldadas. Além de suas alas mais jovens, muitos republicanos também estão incomodados pelas rápidas mudanças ocorridas nos fundamentos sociais, culturais e éticos de seu país.

Sentem-se confusos e desconfortáveis com a legalização do casamento gay, com a legalização do uso recreativo da maconha e estão apreensivos com a imigração e as mudanças demográficas que estão transformando uma nação predominantemente cristã, branca e de língua inglesa, numa sociedade de múltiplas línguas, cores e culturas.

Os democratas estão particularmente mobilizados diante da desenfreada influência dos bancos e das corporações “demasiado grandes para falir”, mas estão dispostos a correr para o exterior à procura de mão de obra barata e de impostos menores. Os membros de ambos os partidos reclamam da apatia das instituições americanas, públicas e privadas, diante das necessidades dos cidadãos comuns.

Os acontecimentos globais estão levando os americanos a se preocupar mais do que nunca com a própria segurança. O atentado contra as Torres Gêmeas, em 2001, seguido pela derrota em duas guerras dispendiosas e prolongadas no Iraque e no Afeganistão, deixaram a população americana com uma sensação de debilidade, de viver uma situação de grave risco, até mesmo no próprio solo.

O surgimento de ameaças ainda mais perigosas, como o Estado Islâmico, e o número cada vez maior de atentados terroristas fizeram soar novos alarmes no mundo todo. Além disso, países potencialmente hostis, como China, Rússia e Irã, não mais parecem temer o poderio americano. Eles se tornaram mais confiantes de si, enquanto os EUA aparentemente se enfraqueceram.

Pesquisas recentes mostram que os americanos se sentem mais inseguros do que em qualquer outro momento desde o 11 de Setembro. Nenhum dos candidatos debate, reflete e reforça mais indignação e o medo dos eleitores americanos do que Donald Trump – e nenhum outro oferece as receitas mais descaradas contra os múltiplos males dos EUA.

Os diagnósticos de Trump a respeito dos problemas são em geral simplistas ou totalmente errados. Suas soluções são na maioria das vezes incoerentes e inviáveis. As eleições presidenciais deste ano, porém, poderão se caracterizar mais pelo temperamento e o estilo do que pela política, pela programática ou pelas ideologias.

O que as pessoas mais admiram em Trump é a falta de comedimento, a prepotência – até mesmo a grosseria, a suprema autoconfiança e seu histrionismo. Observe-se que seu estilo é praticamente o oposto da estratégia metódica, angustiada, professoral de Obama.

Fraquezas. Até agora, Trump demonstrou suas habilidades nesta campanha – a capacidade de formular, expressar e dirigir com precisão suas mensagens ao público, detectar e explorar as fraquezas dos adversários, atrair a atenção e entusiasmar. Ele dominou a mídia e definiu os termos do debate, enquanto os outros candidatos limitam-se a reagir a ele.

Hillary Clinton, por exemplo, ainda não encontrou a própria mensagem. Ela é a candidata da mudança ou da continuidade? Certamente, ela não espalha entusiasmo nem encontrou uma maneira de valorizar os próprios pontos fortes ou os pontos fracos de Sanders.

Ao contrário, Sanders definiu o debate do lado dos democratas, enquanto Hillary ainda busca um equilíbrio, está na defensiva. Seu começo vacilante contra um socialista declarado, pouco conhecido anteriormente, suscita questões quanto às suas perspectivas de sucesso contra a mais recente celebridade, o empreendedor temido esbanjando energia. Sanders tem uma mensagem forte que destaca as grandes desigualdades – de renda, saúde e poder – em toda a sociedade e a política americanas.

Como testemunhou em Iowa e em New Hampshire, esta mensagem ecoa vigorosamente entre muitos democratas, particularmente entre os jovens, mas provavelmente será muito limitada para tirar a indicação de Hillary, e muito menos as eleições gerais de Trump.

Os candidatos democratas têm ainda outros problemas. Talvez tenham dificuldade para segurar o apoio dos membros dos sindicatos, que costumam votar em peso nos candidatos democratas. No entanto, este ano, há muita ansiedade entre os líderes sindicais com o apelo exercido por Trump junto às suas bases, conquistadas pela retórica combativa do republicano, particularmente na questão da imigração ilegal e contra a Parceira Trans-Pacífico.

A esta altura, os democratas deveriam saber que Trump nunca se compromete completamente com qualquer uma de suas posições ou declarações. Ele está pronto para mudar de posição sempre que lhe convier e, em geral, o faz sem o menor esforço. Na realidade, em várias das questões mais importantes, ele tem manifestado posições que diferem drasticamente de suas declarações atuais.

Desde o início, a campanha presidencial americana mostrou-se cheia de surpresas. Ninguém previu que Trump ou Sanders representariam um desafio tão grande para candidatos como Hillary ou Jeb Bush.

E, certamente, teremos outros choques nos dez meses que faltam para as eleições de novembro. A lição mais surpreendente – e a mais importante para todos os candidatos – é o péssimo humor do país, a enorme indignação e frustração em todos os Estados Unidos em relação aos líderes e às instituições em vigor, com o processo político rotineiro.

Até o momento, Trump foi o que assimilou a lição mais depressa. No entanto, quem ganhar as eleições só se revelará um presidente bem-sucedido se compreender e for capaz de responder ao descontentamento manifestado pelo eleitorado americano como um todo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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