REUTERS/Ammar Awad
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Trump ignora aliados e avisa que para os EUA capital de Israel será Jerusalém

Presidente americano anunciará nesta quarta-feira gesto simbólico que muda embaixada de Tel-Aviv para cidade sagrada, decisão que pode acabar com as pretensões da Casa Branca de ser protagonista de um acordo de paz

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 21h14
Atualizado 06 Dezembro 2017 | 09h52

WASHINGTON - O presidente Donald Trump anunciará nesta quarta-feira, 6, que os EUA passarão a reconhecer Jerusalém como capital de Israel e mudarão a embaixada americana de Tel-Aviv para a cidade, que abriga lugares sagrados para judeus, muçulmanos e cristãos. A medida que tem o potencial de causar instabilidade e violência no Oriente Médio e enterrar a iniciativa da Casa Branca de negociar um acordo de paz entre Israel e Palestina. 

Contexto e possíveis consequências de Jerusalém como capital de Israel

A decisão enfrenta oposição de todos os países do Oriente Médio, com exceção de Israel, e de aliados tradicionais dos EUA na Europa. Uma das promessas de campanha de Trump, a transferência da embaixada agrada a grupos religiosos conservadores que integram sua base de apoio, mas deve causar uma onda de fúria entre muçulmanos.

Assessores do presidente disseram em conferência telefônica com jornalistas que o anúncio não mudará o atual status de Jerusalém nem afetará as fronteiras aceitas pela comunidade internacional. Essa é uma indicação de que os EUA não reconhecerão a cidade como “capital indivisível” de Israel, o que respeitaria a pretensão dos palestinos de terem Jerusalém Oriental como capital do Estado que pretendem criar. 

“O presidente deixará espaço para a continuação do processo de paz”, disse um dos assessores de Trump, que falou sob condição de não ser identificado. Segundo ele, a transferência da embaixada será um processo longo, que não deverá ser concluído antes de três ou quatro anos, no mínimo. Os assessores não revelaram se a representação diplomática será construída em Jerusalém Ocidental ou Oriental.

A mudança é prevista em lei aprovada pelo Congresso americano em 1995 que nunca chegou a ser implementada. O texto dá ao presidente o poder de adiar a decisão a cada seis meses por questões relacionadas à segurança nacional. Nos últimos 22 anos, todos os ocupantes da Casa Branca enviaram comunicado ao Congresso com esse teor. Em maio, no primeiro vencimento do prazo em seu mandato, Trump fez o mesmo. O novo período de seis meses acabou na segunda-feira, sem que o presidente enviasse a comunicação ao Congresso.

Como a transferência levará tempo para ser concluída, Trump encaminhará hoje a mensagem comunicando o adiamento. Se a lei não for modificada, ele deverá repetir o procedimento até que a nova embaixada seja aberta.

A soberania de Israel sobre Jerusalém não é reconhecida internacionalmente e todos os países mantêm suas representações em Tel-Aviv.

O rei da Jordânia, Abdullah II, disse que a decisão terá “sérias implicações para a paz e a estabilidade no Oriente Médio e vai minar os esforços do governo americano de retomar o processo de paz”. Em discurso, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, alertou os EUA sobre o potencial impacto da medida: “Sr. Trump, Jerusalém é uma linha vermelha para os muçulmanos”. Caso ela seja cruzada, Erdogan afirmou que poderá cortar laços diplomáticos com Israel.

A decisão sobre o status da cidade só deveria ser adotada depois da obtenção de um acordo de paz entre israelenses e palestinos, disse o rei Salman, da Arábia Saudita, em conversa telefônica com Trump. “Um passo tão perigoso vai provavelmente inflamar paixões de muçulmanos ao redor do mundo em razão do elevado status de Jerusalém e da Mesquita Al-Aqsa”, disse Salman, fazendo referência ao terceiro lugar mais sagrado para a religião islâmica.

Israelenses e palestinos opinam sobre a mudança da Embaixada para Jerusalém

Quando chegou à Casa Branca, Trump declarou sua intenção de retomar o processo de paz entre Israel e Palestina e nomeou seu genro, o judeu ortodoxo Jared Kushner, para coordenar as negociações. 

A transferência da embaixada para Jerusalém deverá acabar com as pretensões de Trump, afirmou Nabil Shaath, assessor do presidente palestino, Mahmoud Abbas. Segundo ele, a mudança “destruirá totalmente a chance de ele (Trump) desempenhar um papel de intermediário isento”.

Não são só os representantes do mundo árabe que temem violência em resposta à decisão. Segundo o jornal Politico, o Departamento de Estado orientou embaixadas ao redor do mundo a reforçar a segurança na preparação para o anúncio de hoje.

Na Europa, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu que o status de Jerusalém seja definido no âmbito de negociações de paz, “em particular as relativas ao estabelecimento de dois Estados, Israel e Palestina”.

Em nota, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, também alertou os EUA sobre os potenciais efeitos negativos. “A posição da Alemanha nessa questão permanece inalterada: a solução para a questão de Jerusalém só pode ser alcançada por meio de contatos diretos entre os dois lados. Qualquer coisa que exacerbe a crise é contraprodutiva.”

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