AFP PHOTO / Nicholas Kamm
AFP PHOTO / Nicholas Kamm

Trump traçou 3 linhas vermelhas que deverão ser cruzadas

Presidente estabeleceu limites agressivos para a relação dos Estados Unidos com os governos de Coreia do Norte, Irã e Paquistão

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2018 | 05h00

Em seu discurso sobre o Estado da União, o presidente Donald Trump praticamente ignorou o mundo fora dos EUA. Fez declarações duras a respeito do acordo com Irã e Guantánamo – e descreveu (corretamente) o caráter demoníaco do regime da Coreia do Norte. Mas falou muito pouco sobre a sua política externa, ocultando uma realidade mais perigosa. Na verdade, o governo, fortuitamente ou de propósito, traçou limites agressivos em três regiões diferentes do mundo, três linhas vermelhas, sem nenhuma estratégia séria no caso de elas se cruzarem.

+ Artigo: No confronto Donald Trump versus FBI, Trump será vencido

A primeira é no caso da Coreia do Norte. Trump e seus assessores afirmam que a era “da paciência estratégica” com relação a Pyongyang acabou. Descartaram qualquer possibilidade de aceitar aquele país como potência nuclear e acham que a dissuasão tradicional não funciona. O presidente prometeu especificamente que a Coreia do Norte jamais conseguirá desenvolver uma arma nuclear que possa alcançar os Estados Unidos. Entretanto, o diretor da CIA, Mike Pompeo, afirmou que Pyongyang dentro de alguns meses poderá ter essa capacidade.

Então, o que vai acontecer quando essa linha vermelha for cruzada? Qual será a resposta americana? Victor Cha, especialista que deveria ser nomeado embaixador na Coreia do Sul, explicou para o governo que não existe, na verdade, nenhuma opção militar limitada, nem mesmo um pequeno ataque, que possa derrubar o regime norte-coreano. Diante da sua análise franca, Cha foi imediatamente desconsiderado para ocupar a embaixada.

+ Trump dá aval a relatório republicano que acusa FBI de má-fé e reabre crise

Victor Cha simplesmente levantou um problema fundamental desse enfoque do governo, que delineou objetivos radicais sem saber como alcançá-los. Em resposta às novas capacidades da Coreia do Norte, Trump realmente lançará um ataque de fúria e fogo e destruirá totalmente o país?

Ele adotou posição similar com relação ao Irã. Anunciou que se retirará do acordo nuclear se o Congresso e os aliados europeus não controlarem Teerã. Os europeus deixaram claro que não acham que o acordo necessita de conserto, que o pacto está funcionando bem. Em cerca de três meses, chegaremos ao Dia D, quando Trump prometeu que vai se retirar unilateralmente do acordo se não conseguir termos mais duros com os iranianos.

Se Trump unilateralmente rescindir o acordo, os iranianos têm várias opções. Podem se retirar também e redobrar seu programa nuclear, o que significará que o governo americano terá de lidar com outra Coreia do Norte, desta vez no Oriente Médio. Ou o Irã poderá deixar os Estados Unidos de lado, continuar cumprindo o acordo e negociar com o resto do mundo.

Mais provavelmente, Teerã fará com que os Estados Unidos paguem um preço, usando sua influência para desestabilizar o Iraque, que entra agora num período eleitoral tumultuado.

+ FBI critica Trump por tentativa de divulgar relatório

A terceira situação, sobre a qual a Casa Branca agiu de modo duro sem nenhuma estratégia em vista, é a do Paquistão. O governo Trump já rotulou publicamente o país de refúgio terrorista e suspendeu a ajuda militar com base nisso. Uma decisão inteiramente compreensível, porque o Exército paquistanês de fato dá apoio a terroristas e militantes que operam no Afeganistão, atacando tropas americanas, e se refugiam na fronteira com o Paquistão. Como afirmou, em 2011, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Mike Mullen, um desses grupos terroristas “age como um verdadeiro braço da agência de espionagem do Paquistão”.

Mas estar certo não é o mesmo que ser inteligente. Muitos especialistas previam que o Paquistão reagiria à medida adotada pelos americanos de duas maneiras: primeiramente, estreitando suas relações com a China, que pode facilmente substituir a ajuda americana. Em segundo lugar, o Exército paquistanês intensificaria a violência no Afeganistão, demonstrando que tem condições de desestabilizar o governo pró-americano em Cabul, lançando o país ao caos e limitando as forças americanas que estão agora em seu 17.º ano de guerra. Foi o que aconteceu. A China imediatamente expressou seu apoio ao Paquistão após o anúncio americano e, nas últimas semanas, o Afeganistão sofreu uma série de ataques terroristas terríveis.

Thomas Schelling, prêmio Nobel, estudioso de estratégias, lembrou certa vez que duas coisas custam muito caro nos assuntos internacionais: ameaças fracassadas e promessas bem-sucedidas. Assim, ele sugeriu, é importante ser cauteloso nos dois casos. O presidente Trump pareceu compreender isso quando seu predecessor fez uma ameaça à Síria, em 2013, afirmando no Twitter: “A declaração de uma linha vermelha foi um desastre para o presidente Obama”. 

Bem, Trump simplesmente traçou três linhas vermelhas, e cada uma delas provavelmente será cruzada./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É COLUNISTA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.