AFP PHOTO / Mohamed al-Bakour
AFP PHOTO / Mohamed al-Bakour

‘Trump vê os EUA como única superpotência’

A questão é se ele agora acredita que o uso da força militar contra alguma coisa de que não gosta é algo útil

Entrevista com

Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2017 | 05h00
Atualizado 12 Abril 2017 | 05h00

O ataque dos EUA a uma base aérea síria na semana passada revela o caráter unilateralista de Donald Trump, que agiu sem consultar aliados ou o Congresso, diz Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, consultoria especializada na avaliação de riscos políticos globais. “Ele vê a América como a única superpotência e quer agir dessa maneira. Ele não quer limites a suas ações dentro de sua administração, de seu partido e de mais ninguém.” A seguir, trechos da entrevista ao Estado

Quais são as implicações do ataque contra a Síria?

Claro que prejudica muito a relação EUA-Rússia, mas as implicações imediatas não são significativas, pois o ataque foi limitado. Se isso é tudo que Trump fará, ele pode se sair bem. Mas ele disse que quer a saída de Assad e isso não acontecerá. As mortes também continuarão. A questão é qual é o próximo passo de Trump.

Qual o impacto sobre a imagem de Trump?

Isso normaliza um pouco Trump. O pronunciamento em que ele anunciou o ataque poderia ter sido feito por outro presidente, fosse Jeb Bush ou Hillary Clinton. Não soava como Trump. Mas vamos ser claros: decretos de Trump continuam a dizer que crianças sírias não são bem-vindas nos EUA. Ele está cortando ajuda externa. Nada disso mudou e não há indícios de que mudará.

O que esse bombardeio pode revelar sobre comportamento futuro dos EUA?

A questão é se Trump agora acredita que o uso da força militar contra alguma coisa de que ele não gosta, sem consultar aliados, é algo útil. Isso significa que ele poderá fazer o mesmo de novo na Síria? Que poderá atacar a Coreia do Norte? Se ele chegar a essa conclusão, teremos um ambiente muito mais perigoso. Mas os problemas na Síria são muito mais perigosos e complexos e não serão resolvidos militarmente, o que também é verdadeiro no Irã e na Coreia do Norte. São situações que demandam diplomacia criativa e uso de recompensas além de punições.

Há meses o sr. diz que Trump não é um isolacionista, mas um unilateralista. Essa ação comprova isso?

Sem dúvida. Sempre me surpreendi com pessoas que diziam que ele seria isolacionista. Tudo o que ele falava era muito beligerante. Os EUA lançaram os bombardeios e avisaram os russos com antecedência, para evitar danos colaterais, o que foi inteligente. Mas ele não consultou ninguém. Trump odeia o multilateralismo. Vê a América como a única superpotência e quer agir dessa maneira. Ele não quer limites a suas ações dentro de sua administração, de seu partido e de mais ninguém.

O ataque é um recado para a Coreia do Norte?

Sim. A decisão de realizar o bombardeio durante a cúpula com a China foi inteligente, pois os EUA querem mandar uma forte mensagem para a Coreia do Norte. Mas Pyongyang demonstrou que está disposta a correr riscos e intensificar suas ações. Kim Jong-un não é um cara que vai recuar porque Trump lançou mísseis contra uma base na Síria. 

O sr. vê possibilidade de confronto com a Rússia?

Não no curto prazo. A questão é o que acontecerá quando nenhuma das coisas que Trump quer na Síria se realizarem. Vamos ver novos ataques? Caso sim, o potencial de confrontação direta entre os EUA e Rússia é significativo. Tudo será determinado pela maneira como Trump agir a partir de agora. Essa foi a decisão fácil. As mais difíceis virão mais tarde.

 

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