Evan Vucci / AP
Evan Vucci / AP

Trump versus a presidência: uma batalha diária

Logo pela manhã, ele assiste à TV para ter ideias para as mensagens em seus tuítes

Maggie Haberman, Glenn Thrush e Peter Baker / The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

WASHINGTON – Toda manhã, às 5h30, o presidente Donald Trump acorda e liga a TV em seu quarto na Casa Branca. Passa rapidamente pela CNN, depois assiste Fox@ Friends, para se tranqüilizar e ter idéias de mensagens, às vezes olha a MSNBC porque, seus amigos suspeitam, ela o deixa empolgado o restante do dia.

Energizado, enfurecido – uma mistura de ambos – Trump agarra seu iPhone. Às vezes escreve tuítes ainda deitado em seu travesseiro, dizem alguns assessores. Com menos freqüência, vai para o Treaty Room (Salão do Tratado, o escritório particular do presidente) ou já vestido para o restante do dia, ou ainda de pijama, onde começa seus telefonemas oficiais e não oficiais.

No fim do seu primeiro ano no cargo, Trump vem reformulando o que é ser um presidente. Ele encara este que é o cargo mais alto do Estado da mesma maneira como na noite da sua surpreendente vitória sobre Hillary Clinton – um prêmio pelo qual precisa lutar para proteger a cada despertar e usa o Twitter como seu Excalibur. Apesar de todas suas bravatas, ele se considera menos um super-homem dominando o cenário mundial e mais um outsider denegrido,engajado numa luta para ser levado a sério, segundo entrevistas com 60 assessores, sócios, amigos e membros do Congresso.

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Trump ainda hoje debate a eleição do ano passado, convencido de que a investigação do conselheiro especial Robert Mueller sobre a interferência russa é uma trama para acabar com sua legitimidade. Mapas coloridos destacando os condados onde venceu estão pendurados nas paredes da Casa Branca.

Antes da posse, Trump disse aos assessores para pensarem cada dia presidencial como um episódio de uma série de TV em que ele vence seus rivais. Pessoas próximas acham que ele passa pelo menos quatro horas por dia, às vezes duas vezes mais, diante de um aparelho de TV, de vez em quando sem volume, imerso nas guerras sem limites ou controles das notícias a cabo e ansioso para revidar.

“Ele acha que há um empenho para corroer sua eleição, que essas acusações são infundadas”, disse o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul. “o problema que ele vai enfrentar é que existe uma diferença em disputar o cargo e ser presidente. Vai ter de encontrar o ponto de equilíbrio entre ser um combatente e ser um presidente”.

Incentivando e revigorando sua base alienada do sistema político, a abordagem de Trump parece errática para muitos veteranos dos dois partidos, em Washington e mais além. Alguns políticos e analistas lamentam a instabilidade e, mesmo sem conhecimento médico, não têm o menor escrúpulo em publicamente diagnosticar vários transtornos mentais no presidente.

Essa abordagem o levou à Casa Branca, é assim que Trump raciocina, de maneira que deve ser a correta. Ele é mais impopular do que qualquer outro dos seus modernos predecessores neste ponto do seu mandato – apenas 32% aprovam seu desempenho segundo a mais recente pesquisa do Pew Research Center –, mas domina o cenário político como nenhum outro.

Embora grande parte do que prometeu não tenha sido realizada, fez grande progresso com relação a seu objetivo de rejeitar normas ambientais e empresariais antes estabelecidas. Jared Kushner, seu genro e principal assessor, disse a seus sócios que Trump nunca mudará. Pelo contrário, ele acredita que Trump submeterá o cargo ao seu desejo. O que já provou ser em parte verdade.

Tempo para pensar

No jargão militar, John F. Kelly, general aposentado, comandou os fuzileiros navais que invadiram o Iraque em 2003, fazendo sua coluna avançar em meio ao fogo cruzado. Como chefe de gabinete da Casa Branca, Kelly adotou o mesmo enfoque, trabalhando 14 horas por dia para impor uma disciplina a uma caótica operação – com sucesso ambivalente. Meses antes de ele assumir o cargo, ocupado pelo seu predecessor Reince Priebus, o Salão Oval parecia sempre na hora do rush, com um fluxo constante de assessores e visitas que ali chegavam para oferecer algum conselho, a pedido ou não.

 Hoje a porta do Salão Oval na maior parte do tempo está fechada. Kelly vem tentando, calma e respeitosamente, reduzir o tempo livre que o presidente tem para seus tuítes acelerando o início do seu dia de trabalho. Priebus também tentou, com pouco sucesso, encorajar Trump a chegar entre 9 e 9h30 ao trabalho.

Trump, que tem controle total sobre o seu império empresarial, fez importantes concessões após tentar controlar tudo nos seus primeiros meses no cargo. Ele chama Kelly uma dezena de vezes por dia, quatro ou cinco vezes durante o jantar ou durante uma partida de golfe, para saber da sua agenda ou pedir alguma orientação. Segundo ele, o novo sistema dá a ele “tempo para pensar”. Os assessores da Casa Branca negam que Trump pede aprovação de Kelly, mas confirmam que ele o considera um confidente e conselheiro crucial. Kelly adotou algumas das queixas favoritas de Trump, dizendo ao presidente recentemente que concorda que alguns jornalistas estão interessados apenas em rebaixar o governo.

Às vezes Trump consegue se evadir de Kelly. No feriado de Ação de Graças, em Mar-a-Lago, ele se relacionou com os convidados da maneira como fazia antes da eleição. Alguns deram a ele clipes de notícias que jamais passariam pelo filtro de Kelly. Ligou para velhos amigos, procurando saber como viam a investigação sobre a Rússia. Retornou a Washington empolgado.

Kelly disse que vai procurar manter controle sobre o que for possível. Como aprendeu, não será muita coisa.

“Não observo muito”

Trump  estava calmo na primeira vez que seu ex-assessor de Segurança  Nacional, Michael Flynn admitiu sua culpa. Na manhã seguinte, quando visitou Manhattan para uma reunião de arrecadação de fundo, estava muito otimista. Falou sobre sua eleição e o “grande perdedor” no Senado que havia afirmado que seu projeto fiscal aumentaria o déficit público (provavelmente referia-se ao senador Bob Corker, republicano de Tennessee).

Na manhã de domingo, com os noticiários consumidos pelo caso Flynn, o presidente ficou furioso e escreveu uma série de tuítes denunciando Hillary Clinton e o FBI, tuítes que seus assessores lhe disseram ser problemáticos.  De acordo com uma pessoa presente na discussão, os assessores disseram que ele deveria parar de enviá-los.

A munição para sua guerra no Twitter é a televisão. Ninguém toca no controle remoto senão Trump e sua equipe técnica – é a regra. Durante reuniões, o aparelho de TV de 60 polegadas na sala de jantar pode estar mudo, mas Trump está sempre de olho nas manchetes. A informação que perde, checa posteriormente no que chama seu “Super TiVo”, aparelho que grava os noticiários da TV.

Ao assistir aos noticiários, ele discute as informações com quem estiver na sala, mesmo os empregados que lhe servem o almoço ou lhe trazem as dezenas de Coca Diet que consome diariamente.

Mas não gosta de ser visto como um viciado em TV, percepção que reforça as críticas de que não leva seu cargo a sério.

“Não assisto muito TV”, insistiu. “Sei que gostam de dizer, pessoas que não me conhecem – gostam de dizer que assisto à televisão. Pessoas com fontes falsas – jornalistas falsos, fontes falsas.  Mas não vejo muita TV, especialmente por causa dos documentos. Estou lendo muitos.”

Posteriormente ele se queixou de ter sido forçado a assistir à CNN nas Filipinas porque nenhum outro canal estava disponível.

“Não estou contentes com o fato de eu não beber?”

Mas a imagem de Trump sempre raivoso esconde uma complexidade mais profunda no caso de um homem que vive em ciclos de cólera e bom humor. Vários assessores afirmam que o presidente pode amaldiçoá-los pela mínima transgressão e  manter um papo amigável com a mesma pessoa minutos depois.

Só ocasionalmente ele tira sua mascara de invencibilidade. Durante uma reunião com senadores republicanos, discutiu em termos emotivos a crise das drogas e os perigos da dependência, relatando a luta de seu irmão com o álcool.

Segundo um senador e um assessor, ele então olhou para a sala e indagou: “Vocês não ficam contentes com o fato de  eu não beber?”.

Embora Trump não seja um especialista em política  - “ninguém sabia que a assistência média era tão complicada” – disse num certo momento – ele tem se mostrado mais à vontade com os detalhes de sua lei que prevê cortes de impostos. E, segundo seus assessores, está mais atento durante as reuniões diárias de informações da inteligência graças às apresentações feitas por Mike Pompeo, diretor da CIA, e tem manifestado uma maior preocupação com a situação da Coreia do Norte do que seus tuítes sugerem.

“No começo ele passava a ideia de ser um impostor. Mas ele superou isso”, disse Nancy Pelosi, democrata da Califórnia e líder da minoria na Câmara. “O maior problema, o que as pessoas têm de entender, é que ele estava totalmente despreparado para o cargo.

“Ele vence pelo cansaço”

 Em quase todas as entrevistas, os associados de Trump questionam sua capacidade e disposição para diferenciar a má informação de alguma coisa verdadeira.

Monitorar o seu consumo de informação e evitar o que Kelly chama de “lixo” fornecido a ele por outsiders – é a prioridade do chefe de gabinete e da equipe que formou.

Mesmo depois de um ano de briefings oficiais e acesso às grandes mentes do governo federal, Trump ainda desconfia de qualquer coisa que não venha de dentro da bolha em que vive.

Outros assessores lamentam o entendimento tênue que ele tem dos fatos, sua inclinação pelas teorias conspiratórias. Kelly disse a algumas pessoas que assessores como Stephen Bannon e Sebastian Gorka foram afastados, pois ofereciam informações para irritar Trump ou criar conflitos internos. Mas Trump ainda controla a própria lista de convidados. É um leitor ávido de jornais e faz marcações com comentários em caneta. A insistência de Trump em definir a própria realidade – suas alegações constantes, por exemplo, de que venceu pelo voto popular – é imutável e tem um efeito de entorpecente sobre as pessoas que trabalham com ele, disse Tony Schwartz, que escreveu seu livro The Art of Deal (A arte da negociação).

“Ele vence pelo cansaço”, disse.

Posso convidar qualquer pessoa

 Trump busca relaxar jogando golfe nos fins de semana. Mas nos dias de trabalho sua maneira de se desafogar é jantar em sua residência na Casa Branca, sempre às 18h30 ou 19h, com uma lista de convidados organizada pelo sempre vigilante Kelly.

“Posso convidar qualquer pessoa para jantar e ela virá”, disse Trump a um velho amigo quando assumiu o governo.

Nas últimas semanas seus amigos notaram alguma diferença, reconhecendo que muitos assessores e mesmo parentes podem ser afetados pela investigação de Mueller. Mas Trump parece ter  adotado uma atitude fatalista, segundo pessoas com quem conversa regularmente.

‘É a vida”,  ele tem dito sobre a investigação. Após o jantar o presidente vai para a cama para suas cinco ou seis horas de sono. E então a televisão é religada, ele pegará seu iPhone e a batalha recomeça. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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