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Tumulto político nos EUA pode ser sinal de força

- Atualizado: 25 Janeiro 2016 | 03h 13

Com a geopolítica em transformação, país precisa de um líder capaz de tomar decisões – não de figuras divertidas, como Donald Trump

As conversações no Fórum Econômico Mundial deveriam começar com a economia mundial, porém, mais cedo ou mais tarde, voltaram ao tema Donald Trump. As primárias republicanas atraem a atenção de todos. Algumas pessoas acham divertido, mas muitas outras com quem conversei estão preocupadas.

Como o CEO de uma empresa europeia afirmou: “Estamos entrando num mundo difícil. Precisamos de gente adulta capaz de mandar.”

A sensação de um “mundo difícil” é palpável. Há mais ansiedade no ar do que em qualquer outro momento desde o início da crise financeira global, em 2008. A preocupação reflete-se nas bolsas mundiais, cujas perdas representaram ao todo trilhões de dólares desde o início do ano. As pessoas ainda acreditam que o pior não acontecerá. A China não quebrará; os Estados Unidos não entrarão em recessão; a União Europeia não vai se desmembrar. Entretanto, nos últimos anos, as opiniões convencionais erraram numa série de pontos.

 
 

Compreensão. Roger Altman, ex-vice-secretário do Tesouro dos EUA, destacou que poucos especialistas previram que os preços do petróleo e das commodities despencariam ou que o crescimento declinaria na China e definharia no Brasil, na África do Sul e em muitos outros mercados emergentes. Ninguém percebeu que, mesmo que os EUA chegassem ao pleno emprego, os salários não aumentariam, a inflação permaneceria fraca, e os juros continuariam baixos. E, além disso, ninguém pôde prever o surgimento do Estado Islâmico ou de sua capacidade de inspirar ataques terroristas fora do Oriente Médio.

Altman indaga se teríamos chegado, por fim, ao momento previsto no livro de Alvin Toffler, O choque do futuro, de 1970, em que o sistema global se torna tão complexo e muda de maneira tão acelerada que ultrapassa a capacidade de analisá-lo e entendê-lo.

Em grande parte, as tendências atualmente em curso interagem entre si e atuam mais rapidamente, muito mais do que as pessoas são capazes de perceber. A queda nas bolsas preocupa empresas e consumidores que recuam e passam a gastar menos e a poupar mais. O declínio acelerado dos preços do petróleo em geral é benéfico para todos os países, salvo os principais produtores de petróleo. Contudo, a queda, até este momento tão rápida, poderá causar uma crise de crédito e uma espiral deflacionária.

Por outro lado, a inovação tecnológica não é a solução que nos permitirá alcançar a prosperidade geral. É evidente que os avanços dramáticos na área de tecnologia, principalmente em desenvolvimento de software, não se traduzem facilmente em aumentos de salários para os trabalhadores médios. Estamos vendo inclusive produtos de alta tecnologia canibalizando outros similares e vice-versa. Acreditava-se que a câmera digital seria o caminho do futuro e destruiria os filmes antigos. Hoje, as vendas de máquinas fotográficas entraram em colapso porque os celulares têm câmeras extremamente potentes mais do que adequadas para a maioria das pessoas.

Não sei aonde tudo isso nos levará. Mas, em períodos como o atual, sistemas abertos como o dos EUA são melhores do que os fechados. Os EUA muitas vezes parecem um país disfuncional, porque todos os problemas são escancarados e debatidos diariamente. Tudo – a estratégia econômica, a política monetária, a segurança interna, os métodos policiais, a infraestrutura – está aberto a críticas constantes.

Tal transparência significa que as pessoas dispõem de informações e obriga o país a olhar para seus problemas, compreendê-los e reagir. Embora o processo seja confuso, o sistema americano lança mão de uma quantidade de informações e responde. Parece disfuncional mas, na realidade, isso lhe dá uma enorme capacidade de se adaptar.

Com frequência, os sistemas fechados parecem bem melhores. Um país como a China, com um sistema de tomada de decisões rigorosamente centralizado, era universalmente invejado. As pessoas em todo o globo maravilhavam-se com a capacidade do governo de tomar decisões, planejar em vista do futuro e construir uma infraestrutura fantástica.

Quando a China estava crescendo, todos nos surpreendemos com a eficiência do sistema. Agora que o crescimento estancou, ninguém sabe ao certo por que razão, o que deu errado, de quem pode ser a culpa ou se o erro está sendo corrigido. Uma caixa preta impressiona quando as coisas vão bem. Mas quando não vão, esta mesma ausência de clareza provoca ansiedade e medo.

A questão principal em relação à economia mundial neste momento é: o que estará ocorrendo no interior da caixa preta que é a China? Afinal, o país é a segunda maior economia do planeta, o motor que tem movimentado o crescimento global nos últimos anos. Sua notável falta de clareza não diz respeito apenas à economia, mas à política e à governança.

Atualmente, a política americana mostra sinais de turbulência, raiva e rebeldia. Em tempos de rápidas mudanças, isso é um exemplo de vigor. As pessoas estão zangadas. Há uma enorme transformação ocorrendo na economia, na sociedade e no país. O fato de a política refletir tais mudanças é uma demonstração de força, não de fraqueza. Ela permite que a nação absorva, reaja, se adapte e depois siga adiante.

Pelo menos, é isso o que eu digo aos estrangeiros e a mim mesmo – com os dedos firmemente cruzados – enquanto observo a loucura dessa campanha eleitoral. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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