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Ucrânia prevê acordo de associação à UE e EUA enviam caças à Polônia

Andrei Netto - ENVIADO ESPECIAL - Agência Estado

09 Março 2014 | 19h 57

Governo interino em Kiev dá resposta a separatistas propondo maior integração com Bruxelas, enquanto protestos tomam principais cidades do país e Rússia reage; Varsóvia informa que americanos enviarão aviões e 300 soldados para exercício militar

Atualizado às 22h40

SIMFEROPOL - O governo interino da Ucrânia anunciou neste domingo que pode assinar entre 17 e 21 de março o acordo político de associação com a União Europeia. A decisão, uma resposta ao risco iminente de divisão de seu território, foi comunicada no domingo pelo Ministério das Relações Exteriores, em meio à crise causada pela invasão da Crimeia por tropas russas e pelo pedido de secessão feito pelo Parlamento da república autônoma, que será avaliado em referendo no domingo.

Em um sinal do aumento das tensões, o Ministério da Defesa da Polônia informou que o governo dos EUA vai enviar 12 caças F-16 e 300 soldados para um exercício militar conjunto com o país. Eles devem chegar à Polônia até quinta-feira. Na semana passada, os EUA enviaram quatro aviões F-15 para a Lituânia.

As datas possíveis para a assinatura do acordo com a UE não foram indicadas ao acaso pela chancelaria ucraniana. Na próxima segunda-feira, ocorrerá a reunião de ministros das Relações Exteriores da UE. Quatro dias depois, Bruxelas sediará a reunião de cúpula de chefes de Estado e de governo do bloco.

A suspensão das negociações com a UE, decisão tomada pelo presidente deposto Viktor Yanukovich em novembro, detonou os protestos na Praça da Independência, em Kiev.

Diplomacia. No plano diplomático, líderes se falaram por teleconferências neste domingo. Uma delas reuniu a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, e o presidente russo, Vladimir Putin. A premiê afirmou que o referendo convocado pelo Parlamento da Crimeia "é ilegal". "Mantê-lo viola a Constituição da Ucrânia e o direito internacional", disse.

Segundo a presidência russa, Putin discordou, reiterando que a autoridade dos parlamentarespró-Rússia da Crimeia é "legítima". Moscou também anunciou a liberação de uma linha de crédito de 1,1 bilhão de rublos, ou € 790 milhões, para as autoridades locais.

Uma segunda teleconferência foi realizada no fim de semana entre os presidentes dos EUA, Barack Obama, e da França, François Hollande, com Cameron e o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi. Segundo o Palácio do Eliseu, por "falta de progressos" na resolução da crise, o grupo cogita novas sanções "que afetariam sensivelmente as relações entre a comunidade internacional e a Rússia".

Protestos. Enquanto isso, os protestos continuam na Ucrânia. No domingo, em todo o país, milhares de pessoas se reuniram em Kiev, Donetsk, Simferopol, Sebastopol, Odessa e Louhansk em manifestações pró-Europa e pró-Rússia.

Em Simferopol, capital da Crimeia, duas passeatas com objetivos opostos tomaram o centro da cidade. Da primeira, participou Iryna Lupashko, estudante de Geografia de 21 anos. "Pessoas da minha idade sempre viveram na Ucrânia. Eu sou ucraniana, a Crimeia é a minha terra natal e é aqui que eu quero viver, não na Rússia", afirmou ao Estado.

A esse grupo, se contrapunha o pró-Rússia, que se concentrou na Praça Lenin e entoava cantos de louvor à União Soviética. "Somos russos, nossa cultura é russa, é lá que estão os nossos corações. O futuro da Crimeia está na Rússia", argumentou Natasha Mezentseva, advogada de 35 anos.

Mas se em Simferopol as manifestações foram pacíficas, em Sebastopol não. Na cidade portuária que concentra bases militares russas, houve choques entre militantes e a polícia teve de intervir. Em Luhansk, apoiadores pró-Rússia tomaram um prédio público e exigiram a realização de um referendo sobre a divisão da Ucrânia também em sua região.

Em resposta, o primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arseni Yatseniuk, afirmou que nem a Crimeia, nem outras região se dividirão. "Esta é a nossa terra. Que a Rússia e seu presidente o saibam", afirmou em discurso, garantindo que o governo fará "tudo para resolver a crise pelos meios políticos e diplomáticos".