ludovic Marin/AFP
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Um bom fim de ano

Macron é amável, solícito e atento, mas nas análises fundamentais é inflexível

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2017 | 05h00

Emmanuel Macron está no comando da França há quase sete meses. Ao ingressar na vida política, depois na disputa para o Palácio do Eliseu, “ignorando” energicamente todas as regras do jogo político, ele conseguiu sua primeira façanha ao pulverizar todos seus adversários na eleição presidencial. 

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Jovem, desconhecido, sereno, seguro de si, arguto e brilhante, Macron ocupou a presidência como um ÓVNI. Ninguém sabia se devia admirá-lo ou não. Mas todos percebiam que ele era um jovem (40 anos) hábil e “amado pelos deuses” – e evidentemente superior a seus predecessores (Sarkozy e Hollande). Mas vaidoso a ponto de se tornar ridículo. “Serei um presidente jupiteriano”, proclamou, sem rir. 

Mas chegou o verão. Normalmente, após alguns meses no cargo, um novo presidente começa a perder força. No caso de Macron, o teste das primeiras semanas foi particularmente cruel: partidários, ministros e deputados se afastaram, um pouco de todo lado, mas com mais frequência no âmbito da sociedade civil, não da política. Muitas vozes discordantes. O próprio Macron era imprevisível. 

A sanção das pesquisas se fez presente: sua popularidade começou a cair. No fim do verão, a queda foi vertiginosa. O milagre não avançava. Estava em “pane seca”. Macron, que entrou no cenário político com gestos de “dançarino”, repentinamente tinha pés de chumbo. Antes, tudo o que tocava se transformava em ouro, agora, em chumbo. 

Especialistas explicavam que um presidente fragilizado a esse ponto após três meses de mandato não conseguiria evitar o declínio e desmoronaria completamente. Ora, mais uma vez, ele desmentiu as ciências políticas. O outono e o início do inverno europeu, longe de obscurecer o presidente, o tornaram radiante. Os institutos de pesquisa ficaram estupefatos. Não acreditavam nos dados. Em um único mês, a popularidade de Macron subiu 7 pontos. Hoje está acima dos 50%. É verdade que dois acontecimentos provocaram um enorme movimento de solidariedade, patriotismo e orgulho na França: a morte de um escritor francês imensamente apreciado e amado pelos leitores mais cultos, Jean d’Ormesson; e, em seguida, a morte de Johnny Hallyday, cantor idolatrado por todas as gerações de franceses. 

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Macron soube acompanhar com talento e emoção essa espécie de “orgasmo fúnebre” que a sociedade francesa experimentou pelas duas mortes. Teve uma atuação perfeita, não recuando mesmo em proclamar que Johnny Hallyday era um “herói da França”! Este é um traço do talento político do presidente: o golpe de vista, a rapidez, a audácia, a maleabilidade. 

Num contexto mais sério, na Arábia Saudita ocorreu um fato crucial no início de dezembro: o surgimento repentino de um novo homem forte no país, o príncipe Mohammed bin Salman. Por acaso, Macron estava em Dubai. Outro chefe de Estado teria enviado um telegrama de felicitações ao novo dirigente. Ele embarcou rapidamente no seu avião e desceu em Riad para encontrar o novo dirigente saudita no seu ninho. Uma maneira de a França se reintroduzir na cena oriental de onde está ausente há alguns anos. Uma bela jogada. Golpe de vista e audácia. 

Mas outro elemento contribuiu para a popularidade do presidente. Os países estrangeiros, em sua quase totalidade, não escondiam sua admiração por esse jovem desconhecido, sedutor, erudito e bom orador. No entanto, era aguardado com ceticismo nos círculos dos “príncipes deste mundo”. Mas ele soube controlar os mais tenazes. Não exclui ninguém e dialoga mesmo com pessoas cuja política o desagrada. É sempre amável, solícito, atento, mas, nas análises fundamentais, é inflexível. Diz o que tem a dizer. É amigo de Donald Trump, mas critica ferozmente e publicamente algumas iniciativas do presidente americano, por exemplo, sobre o clima ou o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. 

Essa estima que Macron soube conquistar rapidamente dos dirigentes estrangeiros explica de um lado sua popularidade. Todo francês está secretamente orgulhoso com o fato de seu presidente, em lugar de ser desprezado, ou ignorado, nos países estrangeiros, como ocorreu com Sarkozy ou Hollande, é ouvido e, às vezes, admirado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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