Tsvangirayi Mukwazhi/AP
Tsvangirayi Mukwazhi/AP

Um golpe na ascensão da primeira-dama

Intervenção do Exército do Zimbábue frustra planos de Mugabe de passar o poder para sua mulher, Grace

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2017 | 05h00

Às 4 horas de ontem, horário local, os generais do Zimbábue foram à TV dizer que haviam assumido o controle do país. Tiros foram ouvidos na vizinhança do bairro onde mora a família de Robert Mugabe, o tirano de 93 anos que é o único líder que a maioria dos zimbabuanos conheceu e governa o país desde sua independência, em 1980.

Apresentando-se na televisão estatal nas primeiras horas da manhã de ontem, o general Sibusiso Moyo disse que a ação não era “uma tomada do governo pelos militares”, mas sim um ato temporário para evitar conflitos.

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Os conspiradores atacaram, depois de semanas de turbulência e intrigas sobre a sucessão de Mugabe, um presidente cuja saúde e capacidade estão fragilizadas. No início do mês, Mugabe depôs Emmerson Mnangagwa, seu vice-presidente, leal aliado e suposto sucessor, na tentativa de abrir caminho para que sua mulher, Grace, o substituísse.

Se tudo tivesse seguido o planejado, ele provavelmente a teria nomeado sua vice-presidente em um congresso do partido em dezembro. Isso, por sua vez, teria permitido que ela ocupasse seu cargo, caso ele renunciasse ou morresse na presidência.

No entanto, a suposta ascensão da senhora Mugabe, ex-datilógrafa do presidente e uma ávida e extravagante compradora, desgostou até os anciãos mais cínicos da União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF), o partido no poder. Muitos dos seus figurões lutaram na guerra civil contra o domínio da minoria branca na então Rodésia e encaram a senhora Mugabe, de 52 anos, como uma intrusa ávida de poder. Eles tratam com o mesmo desdém a sua facção “G40” (“Geração 40”), um grupo relativamente jovem de ministros do partido.

Por um tempo, a senhora Mugabe parecia estar em alta. Mas ela não conseguiu levar em conta o quão era desprezada dentro do partido, particularmente porque entrou em conflito com duas de suas facções mais importantes – os “securocratas” (comandantes das Forças Armadas do Zimbábue) e antigos combatentes da guerra civil – em sua tentativa de eliminar rivais para a presidência. Grace alienou o primeiro grupo quando orquestrou a saída, em 2014, de Joice Mujuru de seu cargo de vice-presidente. Mujuru era uma antiga guerrilheira (seu nome de guerra pode ser traduzido como “sangue derramado”) e seu falecido marido era um ex-comandante do Exército.

Grace Mugabe conquistou mais inimigos ainda quando assumiu um papel de liderança na tentativa de forçar a saída de Mnangagwa, ex-chefe de longa data dos serviços de segurança. “A cobra deve ser atingida na cabeça”, declarou a mulher de Mugabe em uma reunião poucos dias atrás.

Na segunda-feira, o chefe das forças de defesa, o general Constantino Chiwenga, deu uma entrevista coletiva na qual fez uma ameaça velada à senhora Mugabe e a sua facção. Ele advertiu o Zanu-PF contra o expurgo de membros “do comando de libertação” e disse que o Exército não hesitaria em intervir.

Apenas dois dias depois, isso foi feito, com a ocupação da emissora estatal e do Parlamento, prisão dos principais membros do G40 e da liga da juventude do partido. Parece não ter havido derramamento de sangue em sua maior parte, embora a casa de Ignatius Chombo, o ministro das Finanças, que está entre os detidos, apresente marcas de bala. Falou-se que dois de seus guardas foram mortos. Tiros também foram ouvidos em outros pontos da capital.

Apesar de incidentes esporádicos, Harare parece estar firmemente sob o controle do Exército. Os obstáculos que a polícia colocou nas estradas que levam à cidade foram substituídos por bloqueios controlados por soldados. Pede-se às pessoas a caminho do aeroporto que mostrem seus documentos de identidade, no que parece ser uma tentativa de evitar a fuga daqueles que escolhidos para a prisão pelos líderes do golpe.

Muitos no Zimbábue estão agora acompanhando atentamente o retorno de Mnangagwa, que deve acabar assumindo o comando. Muitos líderes na região (e talvez outros, bem mais distantes), provavelmente, concordarão com uma transferência de poder rápida e relativamente sem derramamento de sangue. Eles encaram Mnangagwa como pragmático e ressaltam que ele falou sobre a necessidade de o Zimbábue se reconciliar com o Ocidente, reformar sua economia e oferecer uma compensação aos fazendeiros brancos expulsos de suas terras por Mugabe.

Contudo, aceitar isso pode ser um erro. O histórico de Mnangagwa é tão odioso quanto o de Mugabe. Ele desempenhou um papel decisivo na Operação Gukurahundi, na década de 80, quando o Exército de Mugabe travou uma guerra étnica com os ndebeles, tribo minoritária do sul do país, na qual dezenas de milhares de pessoas foram mortas. 

Mnangagwa tem pouco amor pela democracia. Sob o seu comando, os serviços de segurança espancaram membros da oposição inúmeras vezes e manipularam eleições. Poucos zimbabuanos apreciam a ideia de que o Exército substitua um tirano banhado de sangue por outro. “É um pequeno país hediondo”, lamentou um importante líder político da oposição, apenas algumas horas antes da tomada da cidade. Após 37 anos de governo de Mugabe, os cidadãos do país merecem a possibilidade de escolher seus líderes de forma livre e justa. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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