Alex Brandon/AP Photo
Alex Brandon/AP Photo

Um mês de Trump

Antes mesmo da cerimônia de posse, o republicano oficializou sua participação na disputa em 2020 

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2017 | 05h00

O governo de Donald Trump completa um mês nesta segunda-feira. O ex-apresentador do reality show O Aprendiz — que costumava bradar aos participantes acuados: “Você está demitido!” — chega ao fim destas quatro semanas à frente da Casa Branca sob ameaça de ser, ele próprio, descartado. Trump iniciou o mandato com nomeações questionáveis, uma avalanche de ordens executivas polêmicas, crises diplomáticas constrangedoras, trapalhadas sobre temas sensíveis da política externa, embates com juízes e a queda de um assessor de alto escalão.

O pedido de demissão do assessor de Segurança Nacional, Michael Flynn, após revelação pelo jornal Washington Post sobre contato dele com autoridades russas, antes de tomar posse, provocou não apenas a primeira baixa do governo, menos de três semanas após seu início, como especulações sobre a possibilidade de abertura de um processo de impeachment contra o presidente. Nessas conversas, Flynn teria discutido as novas sanções à Rússia, violando lei que proíbe a cidadãos americanos negociar com países em disputa com os EUA.

 

Vazamentos posteriores de registros de ligações interceptadas pelos serviços de Inteligência apontaram que outros assessores de Trump e integrantes de sua campanha estiveram em constante comunicação com funcionários dos serviços de Inteligência russos durante todo o ano anterior à eleição e a campanha presidencial.

As ligações teriam sido interceptadas na investigação sobre a invasão de hackers ligados ao Kremlin aos computadores do comitê democrata. Segundo o New York Times, um dos assessores envolvidos nas ligações com os russos é Paul Manafort, que fez parte do comando da campanha de Trump e trabalhou como consultor político sobre Ucrânia. 

Trump reagiu às denúncias via Twitter. Acusou os próprios agentes de Inteligência de serem antiamericanos, mais uma das muitas situações delicadas provocadas pelo magnata.

 

Seu primeiro mês na Casa Branca envolveu a nomeação de um executivo do mercado de fast-food para a secretaria do Trabalho e sua retirada após ele admitir que empregara imigrante ilegal; mentiras travestidas de “fatos alternativos” ditas publicamente por assessores diretos; o uso de canais oficiais para criticar uma loja de departamentos que baniu das prateleiras produtos da marca de Ivanka Trump, sua filha, e outros conflitos de interesses mais graves envolvendo os negócios do presidente; a exposição de documentos privados da Casa Branca sobre o lançamento de um míssel pela Coreia do Norte, discutidos com assessores na área pública de um resort de golfe.

 

Trump provocou crises diplomáticas constrangedoras com antigos aliados, como China, depois apaziguada em ligação ao presidente Xi Jinping; retirou os EUA das negociações da Parceria Transpacífico (TPP); ordenou a construção imediata de um muro na fronteira com México e ameaçou enviar tropas ao país para lidar com os “bad hombres”, de acordo com transcrição parcial de um telefonema ao presidente mexicano Peña Nieto vazada à Associated Press.

Também disse, em encontro com premiê israelense, Benjamin Netanyahu, estar disposto a desistir da solução de dois estados, contrariando a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, e depois de divulgar nota contrária à expansão de assentamentos israelenses em territórios palestinos ocupados, deixando em aberto sua real posição sobre Oriente Médio. 

Internamente, tomou medidas iniciais para enfraquecer o Obamacare, baniu a ajuda financeira a instituições que fazem ou promovem abortos, restabeleceu a maioria conservadora na Suprema Corte, com a nomeação de Neil Gorsuch – que, mais tarde, descreveu os ataques do presidente contra o judiciário como “desmoralizantes”. 

O bloqueio na Justiça da ordem executiva que bania a entrada de sírios nos EUA por tempo indeterminado e suspendia por 90 dias o acesso de pessoas de outros sete países muçulmanos foi uma derrota relevante para um governo que está apenas no início. 

Trump tem testado a democracia e os valores americanos como talvez nenhum presidente antes. Por enquanto, com o Congresso dominado por republicanos, o impeachment é apenas especulação e seu efeito se limitou a aquecer o mercado das casas de jogos de azar de todo o mundo, como britânica Ladbrokes, que lançaram apostas sobre Trump terminar ou não o mandato.

Trump às vezes parece esforçar-se para não chegar até o fim. Mas, segundo a PBS, já entregou à Comissão Eleitoral Federal os papeis necessários para tentar a reeleição. Fez isso no primeiro dia no governo, em 20 de janeiro. Antes mesmo da cerimônia de posse, oficializou sua participação na disputa em 2020. 

Mais conteúdo sobre:
Estados Unidos Donald Trump

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.