REUTERS/Ritvik Carvalho
REUTERS/Ritvik Carvalho

Van atropela fiéis diante de mesquita em Londres; autoridades falam em atentado terrorista

Polícia prendeu um suspeito de 47 anos cuja identidade ainda não foi revelada; segundo a Scotland Yard, uma pessoa morreu e ao menos 10 ficaram feridas em Finsbury Park

O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 21h31
Atualizado 19 Junho 2017 | 13h23

LONDRES - A polícia de Londres trata como atentado terrorista o atropelamento de fiéis em frente a uma mesquita na madrugada desta segunda-feira (0h20 no horário local, 20h20 em Brasília), 19, na região do Finsbury Park, ao norte da capital britânica. Uma pessoa morreu e 10 ficaram feridas, segundo a Scotland Yard. Um homem suspeito de ter conduzido a van em direção aos pedestres, na Avenida Seven Sisters, foi preso. Todas as vítimas fazem parte da comunidade muçulmana.

"Uma pessoa foi presa. O caso está sendo tratado como um ataque terrorista", afirmou o coordenador de contraterrorismo da Scotland Yard, Neil Basu. Ele também afirmou que ainda é cedo para determinar a motivação do ato.

O suspeito é um homem de 47 anos cuja identidade ainda não foi divulgada. "Um homem de 47 anos foi detido por tentativa de assassinato e transferido a uma delegacia do sul de Londres, onde permanece sob custódia. Além disso, foi detido pela comissão, preparação e instigação ao terrorismo incluindo assassinato e tentativa de assassinato", explicou a polícia em um comunicado.

A polícia informou também que está fazendo buscas em uma residência em Cardiff, em Gales, mas não informou se este é o domicílio do agressor. O comunicado corrige a idade do suspeito, que inicialmente dizia-se ter 48 anos.

Algumas testemunhas afirmaram que o suposto agressor gritou que iria "matar todos os muçulmanos", antes de ser rendido pelas pessoas que estavam próximas ao templo. 

A primeira-ministra britânica, Theresa May, anunciou que participará de uma reunião de emergência na manhã desta segunda-feira para analisar o caso, e disse que a polícia trata o incidente como possível "ataque terrorista". Ela qualificou o episódio de "terrível" e expressou sua solidariedade às vítimas e a suas famílias.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse que o crime foi um "ataque contra todos os valores de tolerância, liberdade e respeito". Ele garantiu que policiais já estavam reforçando a segurança de comunidades, em especial aquelas que aderem ao Ramadã, o mês de jejum sagrado para os muçulmanos.

Khan pediu aos londrinos que mantenham a "calma" e permaneçam "vigilantes" enquanto se esclarece o incidente. "Ainda não sabemos de todos os detalhes, mas está claro que este foi um ataque deliberado contra londrinos inocentes, muitos deles terminando as orações durante o mês sagrado do Ramadã", disse.

O Conselho Muçulmano Britânico (MCB, na sigla em inglês) afirmou em sua conta no Twitter que se tratou de "um violento ato de islamofobia". O secretário-geral da instituição, Harun Khan, disse à imprensa local que a comunidade muçulmana teve de suportar nas últimas semanas e meses muitas manifestações de islamofobia.

Khan pediu às autoridades britânicas um reforço urgente da segurança nas mesquitas do Reino Unido. "As comunidades muçulmanas pediram durante anos mais medidas para combater o aumento dos delitos por ódio e mais medidas devem ser tomadas agora para enfrentar não só este incidente, senão o importante e preocupante aumento da islamofobia", destacou.

A polícia foi acionada à 0h20 e as ruas próximas ao Finsbury Park foram fechadas. Segundo a Scotland Yard, oito pessoas feridas foram levadas a três hospitais da capital e outras duas pessoas foram tratadas no local em razão de ferimentos leves.

Os pedestres atropelados eram fiéis que estavam saindo da Mesquita Finsbury Park após a última oração no mês sagrado do Ramadã. Segundo relatos à rádio BBC, uma van se aproximou devagar da mesquita e, em seguida, acelerou propositalmente. Testemunhas disseram que havia três pessoas dentro da van, duas conseguiram fugir e uma foi dominada pelos pedestres. De acordo com as placas do veículo, ele seria de Gales e teria sido alugado.

Mohammed Kozbar, imã da mesquita, manifestou-se pelo Twitter. “Nossos pensamentos e orações estão com aqueles que ficaram feridos ou foram afetados por esse ataque covarde na região de Finsbury Park”.

Histórico

Em 2005, o epicentro do jihadismo em Londres ficava no distrito de Finsbury Park, mais precisamente na mesquita de Finsbury Park, à época controlada pelo imã extremista Abu Hamza al-Masri, condenado à prisão perpétua nos EUA após ser extraditado por envolvimento com a Al-Qaeda.

Al-Masri foi, ao lado do advogado Anjem Choudary, fundador do grupo jihadista Al-Muhajiroun – “Os Emigrantes” –, uma das personalidades mais controvertidas do Reino Unido por pregar abertamente a guerra santa e o terrorismo.

Al-Masri se tornou imã da mesquista de Finsbury Park em 1997, quando ela ganhou a reputação de um centro de islamismo radical em Londres. Ele fazia praticamente todos os sermões. No primeiro aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001, ele foi um dos organizadores de uma palestra na mesquita que elogiava a ação dos sequestradores.

Cinco anos depois, soube-se, durante o julgamento dos homens posteriormente condenados pelos atentados fracassados em 21 de julho de 2005 em Londres, que vários dos autores haviam frequentado a mesquita de Abu Hamza.

Medo

Esse atropelamento revive o sentimento de medo na capital britânica, que viveu dois recentes ataques com o uso de veículos. No dia 22 de março, um britânico de 52 anos jogou um carro contra pedestres na Ponte de Westminster, matando quatro pessoas. Em seguida, o homem esfaqueou um policial - que também morreu - e foi morto pela polícia.

No dia 3 de junho, em um ataque terrorista, uma van atropelou diversas pessoas na Ponte de Londres e, em seguida, três homens desceram e esfaquearam pedestres perto do Mercado Borough e num restaurante na Rua Stoney. Os três terroristas foram mortos pela polícia logo em seguida. Pelo menos oito pessoas foram mortas no atentado e outras 48 ficaram feridas.

O ataque, ocorrido dias antes das eleições legislativas no Reino Unido, levou à perda de maioria absoluta no Parlamento do Partido Conservador de Theresa May.            

Estudos de diferentes universidades e centros de pesquisas na Europa e EUA revelam que ataques terroristas têm impacto em votações. Na base de todos os estudos está a capacidade de o terrorismo causar pânico em um grande número de pessoas, principalmente em centros urbanos. O impacto, segundo psicólogos, vai além dos que foram alvos do ataque e pode ser registrado também numa comunidade inteira que se sente ameaçada. É essa insegurança que levaria a uma atitude que fugiria da lógica partidária.

Em um estudo de 2016 do departamento de psicologia política da Universidade de Maryland, pesquisadores mostraram que o impacto seria mais complexo do que a mera mudança de voto, mas os eleitores estariam mais dispostos a adotar posições mais extremistas. No estudo, foi constatado ainda que, ao sofrer um ataque, uma comunidade estaria mais propensa a aceitar regras não democráticas, em especial contra minorias vistas como ameaça. /AFP, REUTERS, EFE e WASHINGTON POST

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