Um mundo de desafios para o próximo governo

A Praça Tahrir estava em grande parte vazia na quinta-feira. O cheiro de lixo apodrecendo estava no ar. Bandeiras amarrotadas, latas de refrigerantes vazias e espigas de milho velhas dos egípcios que haviam comemorado a deposição do seu presidente jaziam esmagadas e espalhadas pelo chão.

CENÁRIO: Abigail Hauslohner / W. POST , É CHEFE DA SUCURSAL DO W. POST NO CAIRO, CENÁRIO: Abigail Hauslohner / W. POST , É CHEFE DA SUCURSAL DO W. POST NO CAIRO, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2013 | 02h07

Os egípcios restantes falavam de esperanças de um presidente "honesto" para substituir o deposto Mohamed Morsi. Diziam-se otimistas de que os militares, impelidos por uma sublevação de milhões, haviam dado ao Egito um novo começo - uma chance de finalmente corrigir o rumo da revolução do país após dois anos e meio de descaminhos.

Mas enquanto a poeira assentava na Tahrir, uma complexa bateria de desafios permanecia - primeiro para os militares, que mais uma vez assumiram a responsabilidade da condução do país, e depois, de quem tiver coragem suficiente para assumir o cargo que se mostrou tão desastroso para Morsi.

A economia do Egito está em frangalhos. Quase 25% dos trabalhadores estão desempregados e aproximadamente a metade da população vive com menos de US$ 2 por dia. O país deve bilhões de dólares, suas reservas em divisas estrangeiras estão quase exauridas. Os preços estão disparando e a escassez espreita.

Não haverá ajustes fáceis. Muitos egípcios se voltaram contra Morsi, que é apoiado pela Irmandade Muçulmana, em razão de sua condução fraca da economia. Mas Morsi também herdou o legado de um regime autoritário que durante décadas havia apodrecido por dentro: burocracia inchada, sistema de subsídios caro e ineficiente e camadas sobre camadas de corrupção.

"Fosse a Irmandade Muçulmana ou não, quem governasse o Egito realmente teria as mãos cheias", disse Joshua Stacher, cientista político e especialista em Egito da Kent State University em Ohio. Economistas dizem que qualquer solução exigirá sacrifícios consideráveis. "Sair deste estágio para um estágio de crescimento econômico requererá medidas impopulares", disse Amirah el-Haddad, professor de economia na American University no Cairo.

O próximo líder do Egito poderá ser atacado por muitos dos mesmos problemas que selaram o destino do último. Um dia após a queda de Morsi, um juiz virtualmente desconhecido assumiu a presidência interina. Mas poucos pareciam ansiosos para assumir um posto que será disputado em eleições que os militares prometeram, mas ainda não programaram.

"Não conheço ninguém em sã consciência", disse o chanceler egípcio, Mohamed Kamel Amr, provocando o riso de seus assessores. "Esperem, esperem - estou brincando com vocês", acrescentou. "Não ponham isso." A economia não será o único problema que desafiará o próximo governo do Egito. A Constituição, ratificada no governo de Morsi, foi anulada, significando que essa nação altamente polarizada terá de começar do zero para desenvolver um conjunto de princípios e leis ordinárias. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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