REUTERS/John Sommers II
REUTERS/John Sommers II

Um pedaço dos EUA hostil às armas

Massachusetts é o Estado americano com menor número de mortos a bala, fato que especialistas ligam à mais restritiva legislação de comércio

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2017 | 05h00

WASHINGTON - A morte a tiros de seu amigo John Chase Wood, em 1981, mudou a visão do cirurgião pediatra Michael Hirsh sobre armas e impulsionou seu ativismo. Há 17 anos ele vive em Worcester, cidade de 180 mil habitantes que registrou apenas quatro homicídios de janeiro a setembro, nenhum deles com armas de fogo.

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O índice é um dos mais baixos de Massachusetts, Estado que tem uma das mais rigorosas legislações sobre armas dos EUA e o menor número de mortes por tiros do país. Na semana passada, a Assembleia Legislativa local foi a primeira a proibir a venda de “bumper stocks”, o acessório que acelera a velocidade de disparos, usado pelo atirador do massacre de Las Vegas.

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A venda e o porte de fuzis semiautomáticos de estilo militar é proibida em Massachusetts desde 2004, quando acabou o veto federal de 10 anos que vigorou em todo o país. Esse foi o tipo de arma utilizada nos massacres em uma igreja de Sutherland Springs, há uma semana, e em Las Vegas, em 1.º de outubro, que deixaram um total de 85 mortos.

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As duas cidades ficam em Estados que possuem legislações mais liberais sobre armas e um índice de mortes por tiros superior ao da maioria. No Texas, houve 11,66 mortes por tiros para cada grupo de 100 mil habitantes em 2015. Em Nevada, o índice foi de 15,43, segundo levantamento do Violence Policy Center. Massachusetts registrou 3,13 casos.

“Se reduzimos o número de armas, reduzimos as mortes”, disse Hirsh, que iniciou campanha de recompra de armas em 2002. Desde então, 3.200 foram retiradas de Worcester. “É uma gota d’água em um oceano, mas isso estimula o debate na comunidade.” 

A presença de armas em uma casa aumenta a probabilidade de acidentes, suicídios e casos de violência doméstica. Estudo divulgado em 2015 mostrou que, em média, 110 crianças de 5 a 14 anos morrem atingidas por tiros anualmente nos EUA, onde a probabilidade de isso ocorrer é 11 vezes maior do que em outros países desenvolvidos.

Ranking

O levantamento do Violence Policy Center mostra que os cinco Estados com venda de armas menos regulada apresentam os maiores indicadores de mortes por tiros, que incluem homicídio, suicídio e disparos acidentais – Alasca, Louisiana, Montana, Alabama e Mississippi. Na outra ponta, estão os cinco com as leis mais rigorosas: Massachusetts, Havaí, Nova York, Rhode Island e Connecticut. 

Dono de uma loja de armas em Massachusetts, Mike Weisser observou que a principal diferença entre os dois grupos é o número de armas nas mãos da população civil. No Havaí, apenas 12,5% das famílias têm armas em casa – a menor proporção do país. Massachusetts vem em segundo lugar, com 14,3%. Em Montana, o porcentual é de 67,5%. No Alasca, 56,4%. “Nós temos armas demais”, disse Weisser, que escreve uma coluna semanal no Huffington Post

Os EUA têm 4,4% da população mundial e 42% das armas em poder de civis. São quase 300 milhões, para uma população de 323 milhões. Weisser possui centenas de armas, é membro da Associação Nacional do Rifle – o maior lobby da indústria do setor –, mas afirmou que é favorável ao veto de fuzis semiautomáticos em Massachusetts. 

Ele tem dúvidas sobre sua eficácia em Estados que já têm um grande número de armas. “Precisamos de um programa de educação de jovens semelhante ao que tivemos com cigarro”, defendeu. “Massachusetts é a prova de que leis sobre controle de armas funcionam”, afirmou John Rosenthal, fundador da entidade Stop Handgun Violence. Dono de uma espingarda, ele observou que é possível ter rigor e manter o acesso a armas, desde que elas não sejam fuzis em estilo militar. 

O último episódio com múltiplas vítimas em Massachusetts ocorreu no ano 2000, quando o funcionário de uma empresa de computação usou três armas para matar sete de seus colegas de trabalho. Além de vetar a venda de fuzis semiautomáticos, o Estado proíbe a comercialização de cartuchos de munição com mais de 10 balas, exige a renovação da licença para porte de armas a cada seis anos e estabelece padrões rigorosos de segurança para seu armazenamento, entre os quais a obrigatoriedade de uso de travas. 

 

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