EMMANUEL DUNAND/AFP/Getty Images
EMMANUEL DUNAND/AFP/Getty Images

Um plano para levar millennials ao Exército

Em meio a controvérsia, Bélgica estuda permitir a novos recrutas voltar todo dia para suas camas

Milan Schreuer / The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2018 | 06h30

BRUXELAS - Nos Exércitos de todo o mundo, o treinamento básico é mais do que apenas um curso de preparo físico, organização militar e habilidades com armas. Ele exerce um papel psicológico crucial, tirando os recrutas despreparados da vida civil, colocando-os em barracas, rompendo suas noções de identidade e moldando-os, às vezes brutalmente, em uma unidade coesa de soldados.

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Isso em breve poderá ser significativamente menos brutal na Bélgica, onde o Exército analisa planos de permitir que os recrutas durmam em casa nos dias de semana, no tempo que durar o treinamento. Eles já têm o direito de voltar para casa durante o final de semana.

Autoridades do governo dizem que a mudança é necessária para tornar mais atraente para a geração do milênio um Exército que vai ficando grisalho - a idade média nas forças armadas belgas é 44 anos, mais de uma década mais velha do que na França, Alemanha ou Grã-Bretanha.

“A sociedade está em constante evolução, os sonhos e expectativas dos jovens estão evoluindo e, assim, o Exército tem que evoluir com ela”, disse Alex Claesen, porta-voz dos militares belgas. Ele acrescentou que a ideia faz parte de propostas mais amplas para atender melhor “desejos e capacitação” dos recrutas.

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Muitos veteranos e especialistas em defesa, porém, estão perplexos, argumentando que a política poderia minar a coesão da tropa e estabelecer um precedente perigoso para outros Exércitos ocidentais. Danny Lams, um ex-paraquedista holandês e presidente de uma organização de veteranos, condenou a ideia. “Se você permitir que os recrutas voltem para casa durante a semana, os militares logo pedirão uma casa móvel se forem enviados para o front”, acrescentou.

A Bélgica seria o primeiro país da história militar ocidental moderna a adotar tal medida, de acordo com especialistas da Agência Europeia de Defesa.

O serviço militar durante um ano foi obrigatório na Bélgica até 1994 para os homens que completassem 18 anos ou terminassem seus estudos. Desde então, o número de pessoas nas Forças Armadas do país diminuiu gradualmente. De 40 mil, passou a cerca de 28,5 mil ativas. A Bélgica tem agora cerca de 2,6 soldados por mil civis, menos do que muitos dos seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

“O Exército está certo em tentar atrair mais jovens, já que muitos funcionários mais antigos vão se aposentar nos próximos cinco anos”, afirma Roger Housen, coronel reformado das Forças armadas belgas. 

Orçamento

A exigência de morar no quartel, diz ele, não foi o principal fator que afastou os jovens. Mais importante, analisa Housen, foi o efeito dos cortes no orçamento de defesa belga nas últimas décadas. Cerca de 20% a 25% dos recrutas optaram por encerrar seus vínculos mais cedo, revelam as estatísticas oficiais dos militares, mas apenas 16% dos que saem dizem que o fazem por “razões de família”.

“Todo Exército treina para ir à guerra e não tem como ir dormir em casa quando se vai para a guerra”, pondera Vir Maram, de 35 anos, um cabo da reserva da Legião Estrangeira Francesa que serviu vários turnos sob o comando de Exércitos ocidentais e da Otan, no Afeganistão, no Iraque e no Mali, e estuda segurança internacional em Bruxelas. 

“Na Legião Estrangeira, ficávamos no quartel durante os cinco primeiros anos. E o que virá em seguida, o Exército poderá entrar em greve? Você quer sindicatos no Exército?”, diz Maram, em meio a gargalhadas. “Como eu odeio o século 21!” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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