'Uma explosão, um tremor e o alerta: a base está sob ataque'

Depoimento: Adriana Carranca

O Estado de S.Paulo

16 Abril 2012 | 03h01

A reportagem do Estado fazia entrevistas no Centro de Treinamento Militar de Cabul (CTMC) quando o primeiro foguete foi lançado nas imediações do prédio - o foguete atingira a base da Força de Assistência de Segurança Internacional (Isaf, na sigla em inglês), na frente de onde estávamos, separados pela Avenida Jalalabad.

Era possível ver a tensão nos olhos dos cinco militares presentes na sala, mas ainda não se sabia o que estava acontecendo quando o major que nos acompanhava recebeu um telefonema: insurgentes haviam invadido prédios no centro da cidade e nas proximidades do palácio presidencial e do Parlamento. Cabul estava sob ataque. Todos saíram para o pátio.

Segundos depois, uma nova explosão, muito mais próxima, atingiu o muro do CTMC e pudemos ver a fumaça preta tomar o céu. O alvo era uma área residencial para famílias de militares afegãos, colada à academia. A sirene soou em toda a base confirmando o alerta: "Base sob ataque. Base sob ataque", repetia o alerta. "Protejam-se em uma área fechada e coberta. Não é permitido permanecer nas áreas livres. Foguetes podem atingir as instalações. Base sob ataque." Soldados tomaram o telhado, os terraços e as janelas.

Fomos levados para uma sala no primeiro andar, onde estava o comando da base. Protegida por cinco militares que guardavam o terraço ao lado da sala onde fomos colocados era possível avistar o esqueleto de um prédio de três andares, ainda em construção, de onde os atiradores lançavam os foguetes. E vimos o momento em que outra explosão atingiu uma área aberta a 50 metros de onde estávamos, fazendo o prédio estremecer. Soldados turcos da Otan tomaram a Avenida Jalalabad com tanques e cercaram o prédio; pelo menos cinco helicópteros da aliança atlântica sobrevoavam o local.

Os soldados disparavam do tanque e dos helicópteros contra o prédio. De longe víamos a fumaça, os tiros não cessavam, os insurgentes respondiam com mais foguetes em nossa direção. "Sua vida nunca está garantida no Afeganistão", disse o tradutor que acompanhava a reportagem, olhos arregalados de medo. Às 14h48 uma quarta explosão fez o prédio estremecer mais uma vez e fomos retirados de perto das janelas.

Ouvimos mais tiros e a sirene das ambulâncias e carros de resgate que deixavam a base. Os ataques prosseguiram por três horas ininterruptas e ao menos sete foguetes atingiram as imediações - testemunhamos três deles caírem na base da Isaf. Eram 16h28 quando o major recebeu a mensagem de que a área estava sob controle e podíamos deixar a base. Fomos escoltados por quatro soldados e um veículo militar para fora da área, ainda cercada por tanques e soldados, até o bairro residencial de Karte-Seh. Centenas de militares, armados até os dentes, estavam espalhados pelas ruas e faziam buscas em cada carro ou cidadão que passava na rua. No caminho, recebemos novo alerta: "espiões da inteligência afegã ainda fazem busca de homens-bomba que estariam infiltrados em diferentes pontos da cidade. Não deixem seus postos".

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