Louai Beshara/AFP
Louai Beshara/AFP

Uma mensagem para os rivais

Ataque à Síria manda forte recado ao mundo, principalmente aos governos de China, Rússia e Coreia do Norte

O Estado de S.Paulo

08 Abril 2017 | 05h00
Atualizado 08 Abril 2017 | 05h00

A decisão do presidente Donald Trump de atacar a Síria manda uma forte mensagem ao mundo – que pode ser lida de modo muito diferente na Rússia, na Coreia do Norte e na China.

Para a Rússia, ela deve pôr em banho-maria as expectativas nascidas na campanha presidencial de 2016 de que Trump buscaria laços mais estreitos com o presidente Vladimir Putin, aliado do líder sírio, Bashar Assad. Para a Coreia do Norte, é uma advertência de que os EUA estão prontos para agir unilateralmente. E, para a China, cujo líder, Xi Jinping, havia jantado com Trump antes de os mísseis serem lançados, é um forte indício de que o novo presidente americano é imprevisível.

O bombardeio dos EUA também mostrou um presidente que pode mudar radicalmente de política conforme mudem os eventos mundiais. Em 2013, Trump fustigou seu antecessor, Barack Obama, porque este pensou em ações militares contra a Síria após um ataque sírio com gás matar mais de mil pessoas perto de Damasco. Na ocasião, Trump tuitou: “Não ataque a Síria, conserte os EUA”. “Isso nos põe de volta na busca da restauração da credibilidade americana”, disse Andrew Tabler, pesquisador de políticas para o Oriente Médio do Washington Institute. 

Há uma advertência a Putin de que os EUA não vão mais tolerar os estreitos laços da Rússia com Assad. A Rússia enviou forças e armas à Síria para ajudar Assad na guerra contra os rebeldes. Num indício de quão pouca confiança há entre EUA e Rússia, o secretário de Estado, Rex Tillerson, disse que Washington não consultou Moscou antes do ataque. Em vez disso, usaram um canal militar destinado a abortar conflitos para informar a Rússia de que ocorreria um ataque.

Tillerson, que deve se reunir com Putin em Moscou na semana que vem, não deixou dúvidas de como Washington vê o relacionamento do líder russo com Assad. Ele disse que a Rússia tem parte da responsabilidade pelo uso de armas químicas pela Síria e considerou Moscou “ou cúmplice ou incompetente”.

Paralelamente à mensagem à Rússia, há no ataque americano uma advertência implícita ao líder norte-coreano, Kim Jong-un: os EUA estão acompanhando de perto a tentativa de seu regime de obter mísseis nucleares. O aviso implícito reforça uma observação de Trump ao Financial Times, publicada em 2 de abril, de que seu governo poderia agir por conta própria para impedir a Coreia do Norte de desenvolver armas nucleares caso a China não fizesse nada nesse sentido.

Após duas décadas de tentativas fracassadas para neutralizar o programa de armas nucleares de Pyongyang, os EUA estão preocupados com que o regime de Kim esteja procurando construir um míssil capaz de lançar uma bomba nuclear na América do Norte. Kim já lançou dezenas de projéteis e fez três testes nucleares desde que assumiu o poder com a morte do pai, em 2011. Em janeiro, ele anunciou que seu país estava no estágio final para testar um míssil balístico intercontinental.

A China vem apoiando a Coreia do Norte desde a guerra que dividiu a Península Coreana nos anos 1950, em parte para impedir que haja um aliado dos EUA em sua fronteira. O ataque de Trump à Síria é um modo não muito sutil de dizer a Pequim que precisa adotar uma nova abordagem sobre o regime de Kim.

“Muitos estrategistas chineses acreditam que os EUA podem fazer um ataque preventivo contra as instalações nucleares da Coreia do Norte”, disse Shang Baohui, diretor do Centro de Estudos para Ásia e Pacífico da Universidade Lingnan, de Hong Kong. “Assim, há a possibilidade de que o ataque à Síria venha a motivar Xi a fazer mais para ajudar os EUA sobre a Coreia do Norte. A China acha que é possível uma guerra na Península Coreana, algo que quer evitar a qualquer preço.”

A visita de Xi a Trump na Flórida deveria ser uma oportunidade para os dois líderes analisarem temas espinhosos, especialmente comerciais. Em vez disso, o encontro foi ofuscado pelo bombardeio à Síria.

“Os chineses não vão gostar porque o fato de os EUA lançarem uma ação militar unilateral no momento em que o presidente chinês participava do jantar dá a impressão de que ele, de algum modo, pode ter aprovado a ação”, diz Dennis Wilder, ex-diretor para assuntos asiáticos do Conselho de Segurança Nacional do presidente George W. Bush.

Os chineses são totalmente contrários à ideia de derrubar Assad e não vão querer parecer cúmplices, acrescenta. “Em público, acredito que Xi procurará ignorar o caso, comportando-se como se nada houvesse acontecido”, afirma Wilder. “Reservadamente, os chineses vão manifestar repúdio à ação dos EUA.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

SÃO DO CENTRO PARA UMA NOVA SEGURANÇA AMERICANA

 

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