AP Photo/Evan Vucci
AP Photo/Evan Vucci

Uma presidência perseguida pela verdade 

Donald Trump não consegue explicar porque demitiu o diretor do FBI, James Comey; constantes mudanças na versão dos fatos realçam a extensão do seu erro de avaliação

The Economist, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 05h00

Donald Trump foi incompetente ou agiu com más intenções? James Comey participava de um evento em Los Angeles, quando viu em algumas telas de TV a notícia de que Trump o havia demitido do cargo de diretor do FBI. Inicialmente, achou que se tratava de uma brincadeira.

O episódio certamente será explorado pelos futuros historiadores do 45.º presidente dos EUA, uma vez que aponta para um enigma central do governo Trump, cuja resposta pode determinar o futuro institucional do país ou indicar algo bem mais banal. Estamos diante de um governo caótico, que não faz jus ao lugar que ocupa na venerável tradição democrática americana, mas, ainda assim, é mais ridículo que nefasto? 

Ou será que Trump – que acaba de se tornar o primeiro presidente, desde Richard Nixon, a demitir o homem que conduzia uma investigação formal sobre pessoas de seu entorno, e talvez sobre ele próprio – de fato constitui uma ameaça à democracia americana? Os democratas, obviamente, suspeitam o pior. 

Mesmo antes da demissão de Comey, já exigiam que os líderes republicanos no Congresso lançassem uma investigação especial sobre o alvo das apurações do FBI: as tentativas que a Rússia teria feito de favorecer Trump na eleição presidencial do ano passado. 

Por ora, as diligências revelaram proximidade bastante peculiar com os russos por parte de dois ex-auxiliares de Trump: Roger Stone, um libertário provocador, e Paul Manafort, que chefiou a campanha eleitoral do presidente. Também se dizia que Comey havia solicitado mais recursos para aprofundar as investigações. 

Portanto, a demissão “levanta a suspeita de que a Casa Branca esteja descaradamente interferindo numa investigação criminal”, diz Adam Schiff, congressista democrata e membro de uma comissão da Câmara dos Representantes que também apura a ligação da campanha de Trump com os russos.

Alguns senadores republicanos, como Richard Burr (que comanda uma terceira investigação sobre a interferência dos russos na eleição), John McCain e Ben Sasse, parecem concordar com isso. Não é fácil encontrar justificativas para a demissão de Comey – que atualmente não tem filiação partidária, mas era republicano ao ser indicado por Barack Obama – em meio a uma investigação tão importante, acreditam eles. A menos que Trump tenha algo a esconder do FBI, poderiam acrescentar.

Se o presidente resolver pôr um de seus asseclas, como Rudy Giuliani ou Chris Christie, no lugar de Comey, essa resistência aumentará. Não será fácil aprovar nomes desse quilate no Senado. A alternativa seria indicar um substituto à altura do cargo – caso em que Trump correria o risco de ver o novo diretor do órgão retomar as investigações com ânimo redobrado.

Concedendo ao presidente o benefício da dúvida, parece plausível imaginar que Trump não houvesse se dado conta do enorme impacto que teria a demissão de Comey. Aparentemente imune às normas que constrangiam a maioria de seus antecessores – incluindo Nixon, que se esforçava muito mais para ocultar seus desvios éticos –, Trump amplia cada vez mais os limites da definição segundo a qual a política é a arte de escapar incólume das encrencas. Além disso, como Comey, que exercera apenas quatro dos dez anos de seu mandato, era detestado pelos democratas, o presidente pode ter achado que sua demissão não enfrentaria grande oposição.

Suspeitas. A impopularidade de Comey junto à esquerda vinha de sua decisão de informar ao Congresso, 11 dias antes da eleição de novembro, sobre a reabertura das investigações a respeito da conta de e-mail particular utilizada por Hillary Clinton no período em que foi secretária de Estado – escândalo que já havia sido para lá de apurado e acabou se mostrando uma tempestade em copo d’água. Tempos depois, soube-se que Comey não viu necessidade de pôr os congressistas igualmente à par das investigações de contraespionagem de que eram alvo alguns dos membros da equipe de campanha de Trump.

A atitude do ex-diretor do FBI pode ter custado a Hillary a eleição. A liderança que naquela altura ela tinha nas pesquisas, de 5 pontos porcentuais, caiu imediatamente para 2 pontos – margem de votos que a democrata teve a mais do que Trump no cômputo geral da eleição, mas que, graças à aritmética do colégio eleitoral, não foi suficiente para impedir que o republicano ficasse com a Casa Branca. 

As pouco convincentes justificativas que Comey apresentou desde então só serviram para realçar a extensão do seu erro de avaliação. E ele conseguiu causar irritação adicional, mais recentemente, ao afirmar que, apesar de ter a consciência tranquila, sente-se “ligeiramente nauseado” com a ideia de que pode ter influenciado o resultado da eleição.

Trump diz que demitiu Comey em parte em razão desse erro. Isso é difícil de acreditar. O presidente havia elogiado a coragem de Comey quando este resolveu investigar Hillary (embora depois o tenha criticado por não denunciar formalmente a democrata). A interpretação alternativa menos preocupante é a de que Trump se cansou de ter no comando do FBI um sujeito cuja independência parecia incomodá-lo cada vez mais, até mesmo, mas não apenas, no que diz respeito à persistência com que Comey tocava as investigações sobre a interferência russa.

Do contrário, o jeito é dar razão aos que desconfiam profundamente de Trump e acreditam que o presidente dos EUA tem medo do que as apurações do FBI possam revelar. A carta de demissão que Trump enviou a Comey – que foi pessoalmente deixada na mesa do diretor do FBI por seu ex-guarda-costas pessoal – pouco contribui para desfazer essa impressão. 

“Embora eu seja imensamente grato ao senhor por ter me informado, em três ocasiões distintas, que não sou objeto de investigação, ainda assim vejo-me obrigado a concordar com a avaliação do Departamento de Justiça de que o senhor não apresenta condições de dirigir eficazmente o FBI”, escreveu o presidente. É difícil não ler aí um pedido de socorro. / TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Mais conteúdo sobre:
Estados Unidos Donald Trump James Comey

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.