REUTERS/Vincent Kessler
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União Europeia deixa porta aberta para Reino Unido recuar do Brexit

Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, diz que continente estará de corações abertos para os britânicos caso decisão de deixar o bloco regional seja revertida; defensores da saída são contra realização de novo referendo após as negociações

O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2018 | 11h37

ESTRASBURGO, FRANÇA - O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, sinalizou nesta terça-feira, 16, em Estrasburgo, que as portas do bloco continuam abertas para os britânicos, indicando, com isso, que o Brexit poderia ser revertido.

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A declaração foi feita no Parlamento Europeu, ao comentar o processo de saída do bloco, que deve estar concluído em março de 2019. Tusk recordou os deputados europeus reunidos em sessão plenária de que a realidade do Brexit se aproxima, "com todas as suas consequências negativas".

"Se o governo britânico se apegar a sua decisão de ir embora, o Brexit se transformará em uma realidade com todas as consequências negativas (...), a menos que haja uma mudança de opinião por parte dos nossos colegas britânicos", disse Tusk à Eurocâmara.

"Nós, no continente, ainda não mudamos de ideia. Nossos corações ainda estão abertos para vocês", garantiu o dirigente, que coordena os trabalhos dos presidentes europeus em um debate sobre a cúpula de líderes celebrada em dezembro.

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O polonês não hesitou em citar o ministro britânico encarregado do Brexit. "Não foi o próprio David Davis que disse que se uma democracia não pode mudar de opinião, não é uma democracia?!", ressaltou.

"Nossos corações continuam abertos", concluiu, fazendo referência à expressão inglesa "change of heart", que significa mudar de opinião.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, reiterou, por sua vez, que "a porta da UE continua aberta" e disse esperar que a mensagem de Tusk "seja clara em Londres".

Segundo referendo

Em um referendo em junho de 2016, os britânicos decidiram abandonar o bloco europeu. Na última semana, porém, ganhou força a ideia de uma segunda consulta ao fim das negociações de divórcio em curso entre Londres e Bruxelas.

Ferrenho defensor do Brexit, o político britânico Nigel Farage sugeriu, na quinta-feira, a possibilidade de realizar um segundo referendo sobre o tema, antes da saída definitiva.

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Sua ideia é a de silenciar definitivamente aqueles que se opõem à saída da UE. "Para ser claro, não quero um segundo referendo, mas temo que o Parlamento imponha um ao país", disse ele em um artigo no site do "Daily Telegraph".

Os liberais-democratas e outras forças pró-europeias no Reino Unido pediram repetidamente um segundo referendo, argumentando que os eleitores britânicos não compreenderam todas as implicações do processo em sua votação de 23 de junho de 2016. Naquele dia, uma pequena maioria de 52% dos britânicos votaram a favor da saída da UE.

Na semana passada, o porta-voz de Theresa May disse que a primeira-ministra descarta a ideia de uma nova consulta popular.

Em entrevista ao jornal "The Guardian", o ministro britânico das Relações Exteriores, Boris Johnson, afirmou que não está "convencido de que a opinião pública quer outro referendo sobre o Brexit".

"Acabamos de fazer um, e acho que foi muito bom, mas foi algo que causou muita dor e introspecção", apontou. O ministro britânico também comentou que não acredita que a decisão de deixar o bloco europeu possa ser revertida, pois, segundo ele, "algo muito profundo" aconteceu no país.

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"Creio que, se houvesse outro referendo - e opino que não deveria haver -, o resultado seria mais ou menos o mesmo, ou um resultado mais voltado para a saída ", declarou o ministro ao jornal "The Guardian".

O eurodeputado Guy Verhofstadt, defensor da UE, não perdeu a oportunidade nesta terça de zombar das recentes declarações de Farage, que recentemente se encontrou com o negociador da UE para o Brexit, Michel Barnier.

"Desde que Farage voltou desta reunião com Barnier, está confuso. Não sei o que o colocaram em seu chá, ou café, porque, saindo da reunião, ele apoiou um segundo referendo", ironizou Verhofstadt.

"Estamos nos aproximando da parte mais difícil das negociações e precisamos formalizar o acordo de retirada o mais rápido possível", disse ele, mais seriamente.

Donald Tusk também insistiu em seu mantra já afirmado várias vezes: "o trabalho mais difícil está diante de nós, e o tempo é limitado". "O que precisamos hoje é mais clareza sobre a visão britânica", frisou.

Europeus e britânicos acordaram no final de 2017 um esboço dos termos de sua separação. Agora, devem definir um período de transição pós-Brexit, antes que as discussões possam começar sobre seu futuro relacionamento comercial. / AFP, EFE e REUTERS

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