Vazamento no Golfo: o novo 11/9 dos EUA

Desastre ambiental no Golfo do México é chance perdida de Obama para unir o país em torno das fontes renováveis

Thomas L. Friedman, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

A forma como o presidente americano, Barack Obama, está lidando com o vazamento de petróleo no Golfo do México tem sido desapontadora.

Digo isso não por concordar com a crítica desonesta dos conservadores, segundo a qual o vazamento de petróleo é de alguma maneira o Katrina de Obama, que estaria demonstrando a mesma incompetência verificada em George W. Bush na resposta ao furacão, em 2005. Ao contrário, a equipe de Obama tem feito até o momento um bom trabalho na coordenação das iniciativas de limpeza.

Não, o vazamento de petróleo não é o Katrina de Obama, mas o seu 11 de Setembro - e é desapontador vê-lo repetir o mesmo erro de George W. Bush nos célebre atentado contra as Torres Gêmeas.

O 11 de setembro de 2001 foi um daqueles raros acontecimentos sísmicos que criam a possibilidade de energizar o país para realizar algo realmente importante e duradouro, algo extremamente difícil de concretizar-se em tempos normais.

O maior fracasso de Bush não foi o Iraque, o Afeganistão ou o Katrina, mas sua falta de imaginação após o 11 de Setembro, para mobilizar o apoio a uma iniciativa verdadeiramente monumental para a construção nacional americana. Sugeri um "imposto patriótico" de US$ 0,30 por litro de gasolina, que poderia ter simultaneamente reduzido nosso déficit, financiado pesquisas científicas elementares, reduzido nossa dependência em relação ao petróleo importado dos mesmos países cujos cidadãos realizaram os ataques do 11 de Setembro, fortalecido o dólar, estimulado a eficiência energética e a adoção de fontes renováveis, e desacelerado a mudança climática. O magnata texano do petróleo teve, então, o seu momento comparável à visita do ex-presidente Richard Nixon à China - e estragou tudo.

Se tivéssemos optado por este rumo na manhã daquele 12 de setembro - quando o preço da gasolina era em média US$ 0,45 por litro - a maioria dos americanos teria aprovado a medida. Em vez disso, Bush pediu a alguns de nós que fôssemos à guerra e o restante, às compras. Com isso, o preço da gasolina dobrou e a maior parte do aumento vai para países hostis aos nossos valores, enquanto a China torna-se rapidamente a líder mundial em carros elétricos, energia eólica e solar, e ferrovias de alta velocidade. Excelente trabalho.

Timidez. Infelizmente, Obama parece decidido a desperdiçar seu 11 de Setembro ambiental com uma falta de imaginação digna de Bush. Até o momento, a política de Obama tem sido "pensar pequeno e carregar um grande porrete". Ele tem razão em responsabilizar os executivos das empresas do petróleo. Mas o presidente não está apresentando uma grande estratégia que nos cure do vício em petróleo. Os senadores John Kerry e Joe Lieberman apresentaram sua nova proposta de legislação energética, apoiada pelo presidente de maneira tímida. Por que tanta timidez? Porque a proposta Kerry-Lieberman adota taxas sobre o carbono de importância vital e a Casa Branca teme que isso seja explorado pelos republicanos nas próximas eleições. O medo é o de que o Partido Republicano grite "imposto" do carbono cada vez que um democrata manifestar seu apoio à proposta e Obama, depois de exigir dos democratas um voto difícil na reforma do sistema de saúde, acha que não pode pedir a eles que enfrentem algo parecido tão cedo.

Não acredito nisso. Na sequência desse histórico vazamento de petróleo, a medida correta - uma proposta de lei para ajudar o país a livrar-se do vício em petróleo - é também a política correta. O povo está à frente dos políticos. E o mesmo pode ser dito do Exército americano. Há muitos conservadores que aceitariam um imposto sobre as emissões de carbono ou sobre o preço da gasolina se isso fosse compensado por um corte nos impostos retidos na fonte ou nos impostos corporativos, para que pudéssemos criar novos empregos e ao mesmo tempo manter o ar mais limpo. Se os republicanos rotularem os democratas de "taxadores da gasolina", então os democratas deverão rotulá-los de "conservadores da Opep" ou "amigos da British Petroleum (BP)".

Por que Obama está agindo de maneira tão defensiva? Quanto petróleo precisa vazar para o golfo, quanta vida silvestre precisa morrer, quantas mesquitas radicais precisam ser erguidas com nossas compras de gasolina para produzir mais terroristas como o da Times Square antes que seja criado um clima político suficientemente "seguro" para que o presidente diga que vai acabar com nosso vício em petróleo? Onde está a "lei Obama para acabar com o vício em petróleo"? Por que todas as iniciativas precisam emergir da Câmara e do Senado? Qual é a visão dele? Quais são seus limites? Não sei. Mas sei que, na ausência de um preço fixo para o carbono no longo prazo, nenhum dos importantes investimentos do presidente na pesquisa e desenvolvimento de fontes energéticas limpas conseguirá evoluir algum dia.

Obama reuniu uma equipe excelente que pode ajudá-lo a defender a necessidade de tais medida. Mas seus especialistas foram terrivelmente subutilizados pela Casa Branca. Sei de espécies ameaçadas que são mais conhecidas pelo público do que os membros dessa equipe.

Obama " é o nosso líder", destacou Tim Shriver, presidente das Paraolimpíadas. "Ser um líder significa dizer qual é nosso trabalho, o que precisamos fazer para conferir a esse momento um potencial transformador." Por favor, não nos diga que nosso papel é simplesmente odiar a BP ou fazer compras no Mississippi. Sabemos qual é o problema e os americanos estão prontos para ser recrutados na busca por uma solução. É claro que não poderemos eliminar da noite para o dia a exploração do petróleo e nossa dependência em relação a ele, mas não podemos começar a fazê-lo? Sr. presidente, seus assessores estão enganados: os americanos estão ansiosos por sua liderança neste caso. O sr. pretende canalizar essa boa vontade para algo que fortaleça o país - a "lei Obama para acabar com o vício em petróleo" - ou vai desperdiçar seu 11 de Setembro também? / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA E ANALISTA POLÍTICO

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