Venezuela compra US$ 440 milhões em petróleo para enviá-lo subsidiado a Cuba

Documentos mostram pela primeira vez que chavismo é obrigado a importar produto para abastecer aliados, em vez de fornecê-lo das próprias reservas; operação aumenta dívida do país, que vive escassez de moeda forte para importar comida e remédios

Marianna Parraga, Jeanne Liendo, REUTERS, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2018 | 05h00

CARACAS - Enquanto a população da Venezuela enfrenta escassez de comida e remédios, a petrolífera estatal PDVSA comprou US$ 440 milhões em petróleo, entre janeiro de 2017 e maio deste ano, para enviá-lo subsidiado a Cuba. Segundo relatórios da empresa, aos quais a agência Reuters teve acesso, é a primeira vez que documentos mostram que o chavismo teve de importar o produto para abastecer um aliado regional, em vez de fornecê-lo das próprias reservas. 

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O petróleo que a PDVSA adquiriu para Cuba veio dos Urais, na Rússia, uma variedade adequada para refinarias cubanas construídas com equipamentos da era soviética. A PDVSA comprou o petróleo bruto de firmas chinesas, russas e suíças. 

Segundo os documentos, a PDVSA pagou até US$ 12 por barril, mas não deve ver a cor do dinheiro, porque a Venezuela sempre aceitou receber em bens e serviços em troca do produto subsidiado, conforme um acordo firmado pelos presidentes Hugo Chávez e Fidel Castro, em 2000.

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O carregamento representa cerca de 30% do total de importações de Cuba, mas aumenta ainda mais as já elevadas dívidas da Venezuela com as empresas estatais russas e chinesas que, juntas, cederam ao governo chavista mais de US$ 60 bilhões no último ano. A compra de petróleo para um aliado regional também evidencia a queda na produção das refinarias venezuelanas, que deixa o país cada vez mais dependente das importações de combustível para atender ao consumo. 

Os dados da PDVSA analisados pela Reuters mostram que a Venezuela comprou, em 2017, cerca de 180 mil barris por dia de petróleo da PetroChina, Rosneft, Lukoil, Reliance Industries e outros fornecedores, 17% a mais que em 2016. As importações totalizaram US $ 4 bilhões, de acordo com os documentos. 

No ano passado, o total de compras da indústria de petróleo, incluindo equipamentos e serviços, consumiu 45% do total das importações da Venezuela – ante 13%, em 2011, segundo dados da Ecoanalitica, uma organização de pesquisa econômica com sede em Caracas. As importações de energia totalizaram US$ 5,4 bilhões de um total de US $ 11,9 bilhões.

As importações ocorreram quando a produção de petróleo da Venezuela, no primeiro trimestre, atingiu seu nível mais baixo dos últimos 33 anos – uma queda de 28% em 12 meses. As refinarias da Venezuela estão operando com um terço da capacidade e muitos trabalhadores estão se demitindo.

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Apoio político. As entregas subsidiadas servem para manter o apoio político de Cuba, um dos poucos aliados que ainda restam à Venezuela, segundo diplomatas, políticos e executivos da PDVSA. “Maduro está dando tudo o que pode, pois o apoio desses países, especialmente de Cuba, é todo o apoio político que ele tem”, disse um ex-funcionário do governo venezuelano, que pediu para não ser identificado.

O regime chavista está sob crescente pressão internacional, principalmente dos Estados Unidos, da União Europeia e do Canadá, que já decretaram sanções econômicas à Venezuela pelo que consideram ser tentativas de Maduro de consolidar uma ditadura no país. 

À medida que a Venezuela gasta com as importações de petróleo, importa menos os produtos essenciais que seus cidadãos precisam desesperadamente. Os gastos do governo venezuelano com importações não petrolíferas caíram de quase US$ 46 bilhões, em 2011, para US$ 6 bilhões, em 2017, segundo dados do Banco Central da Venezuela e da Ecoanalitica. A PDVSA, o governo da Venezuela e o governo de Cuba foram procurados, mas não se pronunciaram sobre as informações publicadas pela Reuters. 

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