Claret Serrano / Arquivo Pessoal
Claret Serrano / Arquivo Pessoal

Venezuelanas vão para a Colômbia para ter filhos

Na Venezuela, hospitais não têm remédios e não há leite nem fraldas

Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2018 | 05h00

A escassez de medicamentos na Venezuela em razão da crise econômica chegou às gestantes e também àquelas que tentam ter filhos. Claret Serrano, de 26 anos, tentou ser mãe novamente durante três anos. Moradora de Miranda, a 85 km de Caracas, ela foi ao médico, fez exames. Não havia nada que a impedisse de engravidar. Segundo a venezuelana, o que a prejudicava era o estresse de viver em um país em crise. O casal e a filha de 7 anos chegaram à Colômbia em fevereiro de 2017 e, após três meses, ela engravidou.

Claret acredita que a situação, que se deteriorava no país a cada ano, e a falta de comida a afetaram psicológica e emocionalmente, a ponto de não conseguir engravidar. “A vida na Venezuela era difícil: não havia fraldas, leite, remédios, o plano de saúde que eu tinha não cobria um parto e, além disso, eu trabalhava como assistente administrativa para uma instituição pública do governo opositor”, explica. “Muitas coisas me bloquearam.”

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Diariamente havia a preocupação de conseguir algo para comer, lembrar que não se pode ficar doente, que não há remédios, que a cada dia sobe o preço de um alimento, e amanhã de outro. Quando a família chegou à Colômbia, um dos destinos mais procurados pelos venezuelanos que fogem da crise, a situação mudou. “Foi como se tivesse ligado o interruptor. Sabia que teria de trabalhar e começar do zero, mas também sabia que conseguiria dinheiro ao menos para comer e ficar um pouco mais estável do que no país onde nasci e cresci.”

Com a gravidez, no entanto, o casal passou a enfrentar outros problemas. Por não ter nenhum conhecido na região, Claret temia deixar a filha mais velha sob os cuidados de um estranho enquanto trabalhava. Diante disso, resolveu viajar até a Venezuela para que a menina fosse morar com a avó no país. “Essa foi a solução, pois na Colômbia precisava levá-la ao trabalho quando ia fazer limpeza, trabalhar em padarias e restaurantes e, como estava grávida, isso era mais um complicador.”

A viagem até a Venezuela durou 3 dias e meio, por terra. Ao chegar ao país, matriculou a filha de 7 anos em uma escola e logo descobriu que sua gravidez era de risco. Por causa dos problemas causados no começo da gravidez, ficou na Venezuela por três meses, morando com a mãe e a filha. Nesse período, não conseguiu se alimentar como deveria e perdeu 3 kg. “Nós não podíamos comprar frutas e verduras, além de não ter os remédios do pré-natal”, conta. Segundo ela, às vezes, não havia comida nenhuma, nem dinheiro para comprá-la. “Lembro claramente da minha mãe dizendo para mim: ‘toma água, toma água’, mas é muito difícil deitar com a barriga vazia, você não consegue dormir, seu estômago pede por algo”, lamenta Claret.

Diante disso, ela resolveu voltar para a Colômbia e ficar com o marido, e a filha ficou na Venezuela. “Eu sei que ela não está bem alimentada, porque o poder aquisitivo cai a cada dia, mas eu trabalho como doméstica em uma casa de família e daí que me mantenho, faço comida e mando dinheiro para a minha filha”. O marido, antes locutor de rádio e apresentador de um programa próprio na Venezuela, atualmente trabalha em um posto de gasolina na Colômbia. Para 2018, a família está esperançosa. “Quero conseguir ajudar minha família e trazê-los para a Colômbia, para que possa ver minha filha outra vez.”

Segundo o Ministério da Saúde e Proteção Social da Colômbia, de março a outubro de 2017, 454 mulheres venezuelanas deram à luz na Colômbia. O governo colombiano só passou a incluir a nacionalidade da gestante nos registros a partir de março de 2017.

25 anos em três malas. Dois meses após o casamento, Valeria Escobar também decidiu que era hora de deixar a Venezuela. Nessa epóca, em 2015, a situação no país começava a se complicar, por isso o casal, que trabalhava em uma rádio opositora na capital, Caracas, decidiu se mudar. Como o sogro havia nascido na Colômbia, o marido de Valeria se naturalizou colombiano e ela conseguiu visto de cônjuge para que pudessem imigrar.

Duas semanas antes da viagem, a jornalista descobriu que estava grávida. “Isso se tornou a maior razão pela qual eu quis sair da Venezuela”, explica Valeria. “Nos dava pânico pensar que a criança poderia nascer em um lugar sem condições de saúde, sem insumos, remédios, equipe.”

Matías nasceu em 2016, com boas condições de saúde e com tratamento médico adequado na Colômbia. Mas o casal ainda não conseguiu se estabelecer no país. “Tem sido difícil começar do zero, ser um imigrante. Até hoje não conseguimos um trabalho fixo, e aos poucos vamos conhecendo a cultura, aspectos econômicos e de mobilidade, tudo que é novo para uma pessoa que acaba de chegar”, afirma. No começo, chegaram a morar na casa de uns conhecidos, antes de conseguirem um lugar só para o casal.

Durante todo esse período, eles não visitaram mais a Venezuela. Valeria diz ficar angustiada só de pensar em levar o filho para lá, onde não há fraldas, remédios e outros produtos de cuidado pessoal. Mas a razão principal é que não conseguiram dinheiro suficiente para os custos de uma viagem. “Em dois anos e meio, ainda não podemos dizer que estamos estáveis aqui”, conta.

Quando chegou à Colômbia, no que chama de “primeira onda” de imigrantes, Valeria ressalta que o processo foi simples, não havia muitos migrantes. Atualmente, entretanto, é muito fácil achar um venezuelano em Bogotá. “Antes era um ou outro, hoje vemos no transporte público, nas ruas, empresas, em todas as partes”, explica. “Muitas pessoas vêm com mais perguntas do que respostas, com muita necessidade. Há muitos venezuelanos em situação grave de miséria, sem ter o que comer e onde dormir, alguns até mesmo vivem como moradores de rua.”

A jornalista acredita que o difícil da migração venezuelana é que eles se sentem obrigados a sair do país. Mas ela diz que mantém o otimismo e a vontade de um dia poder voltar à Venezuela. “É difícil colocar 25 anos da sua vida em três malas”, lamenta.

 

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