Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Venezuelanos no Brasil ganham apoio dos EUA 

Diplomatas americanos monitoram em Roraima entrada de refugiados e organizam ajuda a quem foge de crise chavista 

Pablo Pereira, Enviado Especial / Pacaraima, Roraima , O Estado de S.Paulo

11 Junho 2017 | 05h00

Representantes dos Estados Unidos no Brasil estão apoiando os refugiados venezuelanos que entram pela fronteira de Roraima, principalmente pela cidade de Pacaraima, a cerca de 200 quilômetros de Boa Vista, na divisa com a Venezuela.

Após um encontro com autoridades brasileiras e a ONG religiosa Fraternidade Federação Humanitária Internacional na semana passada, diplomatas da Embaixada dos EUA visitaram locais de concentração de refugiados no Estado e se reuniram com líderes de organizações que dão suporte a fugidos da crise política e econômica na Venezuela.

“Muita gente está oferecendo apoio”, disse Freyo Viana, presidente da Associação Venezuelanos no Brasil e militante do Nuvipa (Nueva Visión Para Mi País), grupo que critica a política de repressão do regime do presidente Nicolás Maduro, mas se diz desvinculado “do governo e da oposição”. Na quinta-feira, eles também receberam os americanos.

Segundo um dos diplomatas dos EUA, as informações sobre os refugiados venezuelanos são preocupantes. “Estamos verificando as informações passadas pela Acnur (agência da ONU para refugiados)”, respondeu durante visita noturna ao refúgio de Boa Vista. 

O local dá abrigo a quase 300 venezuelanos, a maioria da etnia warao, 80 dos quais são crianças. De acordo com a Superintendência da Polícia Federal em Roraima, somente neste ano, entre janeiro e 30 de maio, já entraram no País por Pacaraima cerca de 28,8 mil venezuelanos e 11 mil retornaram a seu país.

Dos que permaneceram, muitos trabalham em Boa Vista e Manaus, que fica a cerca de 700 quilômetros da capital de Roraima. A média diária de atendimentos na fronteira, de acordo com os dados da PF, está em cerca de 100 casos de solicitação de entrada.

Fuga. Em Pacaraima, onde os americanos estiveram na quarta-feira, os refugiados se aglomeram perto da estação rodoviária da cidade, à beira da Rodovia 174, a 15 quilômetros da vizinha Santa Helena de Uiarén, a primeira cidade em terras venezuelanas. A brasileira Pacaraima tem cerca de 11 mil habitantes.

O grupo de 200 indígenas warao permanece acampado sob marquises e nas calçadas. Mas há também muitos trabalhadores que buscam emprego no Brasil e, com pouco dinheiro, se acomodam como podem na região à espera de transporte para Boa Vista.

 O diplomata dos EUA ouviu também relatos das dificuldades enfrentadas pelos venezuelanos que não são da etnia warao. Eles são cerca de 80 homens que recorrem ao abrigo, do bairro Pintolândia, ao lado da Praça Germano Sampaio, em busca de comida e lugar para dormir.

Durante o dia, saem às ruas para fazer bicos de capina e outros serviços gerais, como pintura, recebendo diárias que variam de R$ 20 e R$ 100, dependendo da tarefa. À noite, as luzes no abrigo se apagam por volta de 21 horas. Pelo menos dois casamentos entre homens não indígenas e mulheres warao já ocorreram.

Atendimentos. O jovem Brian Sanches, de 23 anos, casou-se com Romélia Warao, de 18 anos. E José Francisco Blando, de 43 anos, que chegou no ano passado ao local, também se casou no abrigo. A mulher dele, também indígena, acabou de dar à luz a um filho do casal. “Irmã Clara, como está minha mulher?”, perguntou ele, na última terça-feira, ao voltar de uma obra nos arredores do abrigo. “Ela está bem e o bebê vai ficar mais uns dias no hospital, mas isso é normal”, respondeu a religiosa.

Segundo o chefe da Defesa Civil, coronel Doriedson Ribeiro, os homens venezuelanos que não são indígenas devem permanecer no abrigo o mínimo possível. Ele explicou que o local atende a 289 pessoas, sendo 77 crianças. “Estamos trabalhando nisso desde novembro do ano passado e já fizemos 113.554 atendimentos”, afirmou.

O forte dos atendimentos se concentra em alimentação: 111.185 até aquela data. “Há ainda um forte impacto sobre o sistemas de saúde e educação de Boa Vista. A cidade não estava preparada para aguentar, além da preocupação com a segurança pública”, disse o militar.

Pela manhã, há distribuição de café, pão e frutas, nem sempre em bom estado para consumo porque são doações de sobras de mercados. Todo dia, novas famílias chegam. O clima no local se complica principalmente à noite, na hora da distribuição do jantar. A cozinha é administrada pelas mulheres indígena. “Aí, acontecem conflitos”, explicou a irmã Clara, da Fraternidade, que passa o dia administrando as desavenças entre os grupos, mas que à noite não fica no local.

 Segundo o ajudante de pedreiro Luis Beltrán Rojas, de 34 anos, emigrar para o Brasil foi a única saída encontrada para a crise no seu país. Ele viajou de Cariaco, uma pequena cidade já na beira do mar do Caribe, em busca de trabalho. Empurrando uma bicicleta, com capacete de operário, ele chegou ao abrigo perto do meio-dia de segunda-feira com outros dois colegas de serviço. Foram procurar o almoço, servido com a ajuda da ONG.

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Exército preparará abrigo para refugiados

O comandante da corporação aguarda somente o sinal verde da Casa Civil do Palácio do Planalto para uma despesa prevista de R$ 800 mil na preparação de um terreno e um barracão em Pacaraima, onde deve funcionar o centro de triagem e abrigo provisório

Pablo Pereira, Enviado Especial / Pacaraima, Roraima , O Estado de S.Paulo

11 Junho 2017 | 05h00

Pelo menos 35 barracas de lona, com capacidade para abrigar até 10 pessoas cada, estão estocadas no quartel do Exército em Pacaraima, a 212 quilômetros de Boa Vista, aguardando a liberação de recursos para montagem em refúgio provisório de apoio a venezuelanos que chegam ao Brasil.

Outras 40 barracas da Defesa Civil aguardam transporte em um quartel do Exército em Boa Vista. “Temos condições de montar o abrigo provisório em 30 ou 40 dias”, afirmou na quarta-feira o general Gustavo Dutra, comandante do Exército em Roraima. As barracas têm 4,50 metros por 6,5 metros.

O comandante da corporação aguarda somente o sinal verde da Casa Civil do Palácio do Planalto para uma despesa prevista de R$ 800 mil na preparação de um terreno e um barracão em Pacaraima, onde deve funcionar o centro de triagem e abrigo provisório.

Segundo o secretário de Obras de Pacaraima, Arlindo Fontelles, o terreno preparado pelo Exército era usado para um depósito de carros do Departamento Estadual de Trânsito. Para lá, segundo Fontelles, devem ser levados os indígenas que atualmente vivem nas ruas. De acordo com o Corpo de Bombeiros, a área deve abrigar futuramente uma estação da corporação. 

“Não queremos voltar para a Venezuela”, afirmou na semana passada um dos líderes indígenas da etnia warao. “E não queremos sair pra Boa Vista, nem para Manaus”, acrescentou. “Queremos ficar aqui, trabalhar aqui”, afirmou o chefe do grupo, que lidera uma dezena de pessoas, muitas delas crianças.

Ajudados por moradores da região e entidades religiosas de assistência, eles dormem numa esquina, onde também cozinham em fogareiros feitos na calçada. “Chegamos em janeiro. Estamos vivendo de doações e do nosso trabalho por aí”, diz o homem no local por onde já passaram cerca de 300 pessoas recém-chegadas da Venezuela.

A crise de refugiados se agrava desde o ano passado, quando os indígenas começaram a chegar à fronteira reclamando da falta de alimentos que recebiam do governo do presidente Nicolás Maduro. Centenas de warao perambulam pela região do lado venezuelano e nos últimos meses passaram a solo brasileiro.

“A gente ajuda com o que pode”, disse uma moradora da rua, que se mostrou incomodada com a presença dos venezuelanos nos arredores. “Eles estão aí e parece que vão ficar por mais tempo ainda”, reclamou uma comerciante vizinha, dona de um bar na mesma rua. 

Não somente os indígenas estão cruzando a fronteira em busca de ajuda. Há também os não indígenas, chamados pelos warao de “criollos”. “Estou esperando pela documentação”, disse o venezuelano Efren Jonathan Quintana, um “criollo” que deixou El Tigre, em Anzoátegui, a 450 quilômetros de Caracas, para tentar a vida em Pacaraima, a mais de 870 quilômetros.

Ele está alojado com a família sob um palco para festas municipais na cidade. O terreno, de cerca de 100 metros por 30, aproximadamente, é um dos dois locais que podem ser usados para a construção dos abrigos.

Efren pede a quem chega ao lugar ajuda para encaminhar para exames a mulher, de 18 anos, grávida de 8 meses. Eles foram atendidos por médicos no Brasil, mas devem fazer os exames da gestação em Santa Elena, do lado venezuelano. “Não temos dinheiro para os exames”, explica o rapaz.

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A vida dos venezuelanos em Roraima

Projeto do governador José Serra permite a consumidores e empresas restituir parte do imposto mediante apresentação de nota fiscal

Márcia De Chiara, O Estadao de S.Paulo

08 Outubro 2007 | 00h00

Foi aprovado na quarta-feira, pela maioria dos deputados da Assembléia Legislativa de São Paulo, o projeto de lei que permite aos consumidores e empresas a reaverem parte do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) mediante a exigência de nota fiscal, tradicional ou eletrônica, na compra de produtos ou serviços no Estado de São Paulo. Segundo o projeto do governador José Serra, 30% do imposto recolhido pelo estabelecimento será devolvido aos clientes proporcionalmente ao valor da compra efetuada. A previsão é de a lei passe a vigorar a partir de setembro, segundo o secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Mauro Ricardo Costa. Depois de aprovada na Assembléia Legislativa, a lei será sancionada pelo governador e passa a valer após a publicação no Diário Oficial. A lei prevê que o dinheiro poderá ser devolvido a empresas ou consumidores na forma de crédito abatido do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) do ano seguinte, crédito em caderneta de poupança, crédito em conta corrente, cartão de crédito e até transferido para outro cidadão ou empresa. Segundo Costa, a meta é reduzir a sonegação em 30%. Ele diz que a implantação será gradual e por setores da economia, começando pelos restaurantes. Após a entrada em vigor, deverão ser integradas cerca de 100 mil empresas a cada mês. Um dos pontos polêmicos da lei é o fato de serviços como operações de fornecimento de energia elétrica, gás canalizado e serviços de comunicação ficarem de fora desse benefício tributário. ''''O projeto é muito bom, mas deixou de fora exatamente serviços nos quais as alíquotas de ICMS são elevadas'''', afirma Ana Cláudia Queiroz, coordenadora da área tributária da Maluly Jr. Advogados. Ela observa que, no caso da energia elétrica e nos serviços de comunicação, o ICMS é de 25%. Nos serviços de gás canalizado, a alíquota é de 12%.O secretario observa que os serviços ficaram de fora porque não há inadimplência nesse setor. No projeto estão excluídas as transações com automóveis, bebidas, combustíveis, entre outros produtos, que são tributados na indústria. A tributarista destaca também a falta clareza nos critérios que serão utilizados para o cálculo do crédito do imposto. ''''Como a legislação não é clara, é possível estabelecer uma relação de que o crédito será maior se o estabelecimento recolher um valor maior de ICMS no mês de referência.'''' Com isso, observa a tributarista, poderão ser favorecidas as grandes empresas em detrimento das micro e pequenas. O secretário rebate a crítica e argumenta que as pequenas e microempresas serão beneficiadas porque ao comprarem produtos dos atacadistas terão a possibilidade de reaver parte do imposto. Outro ponto que cria controvérsias, é o fato de ser vedado o aproveitamento do crédito tributário por contribuintes que estejam inadimplentes com Estado. ''''Jamais é possível dar benefício tributário para que está inadimplente com o fisco'''', diz Costa. Para a tributarista, o Estado tem meios próprios para cobrar as dívidas. COMO FUNCIONA O que é: o governo do Estado de São Paulo criou um programa para estimular a exigência de nota fiscal na compra de mercadorias, bens e serviços de transporte interestadual e intermunicipal Benefícios: comprador, consumidor ou empresa que exigir a nota fiscal eletrônica ou manual receberá de volta parte do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A devolução será de 30% do ICMS recolhido pelo estabelecimento, dividido entre os consumidores proporcionalmente ao valor da compra Para onde vai o dinheiro: o crédito, com validade de cinco anos, poderá ser usado para reduzir o valor do débito do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) do exercício seguinte; poderá ser transferido para outra pessoa física ou jurídica; poderá ser depositado em conta corrente ou poupança; ou ainda creditado em cartão de crédito Como vai funcionar: em cada transação, o comprador (consumidor ou empresa) solicita a nota fiscal eletrônica ou manual e informa o seu Cadastro de Pessoa Física (CPF) ou de Pessoa Jurídica (CNPJ). O vendedor registra os dados do comprador e emite a nota fiscal. Em até 10 dias, os dados são transmitidos à Secretaria da Fazenda. Após o recolhimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços pelo fornecedor, será creditado ao comprador, de forma automática, a parcela do imposto proporcional ao valor da compra O que fica de fora: automóveis, bebidas, combustíveis, entre outros produtos que estão sujeitos ao regime de substituição tributária, isto é, produtos tributados na indústria Quando começa: o projeto de lei foi aprovado na quarta-feira na Assembléia Legislativa e agora vai para a sanção do governador José Serra

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Classe média venezuelana engrossa fluxo crescente de refugiados no Brasil

Profissionais graduados em universidades na Venezuela, militares e até mesmo funcionários públicos servem mesas, atendem em caixas de supermercado e fazem unhas para sobreviver em Boa Vista após fugir da crise econômica em seu país

Pablo Pereira, Enviado Especial / Pacaraima, Roraima , O Estado de S.Paulo

12 Junho 2017 | 05h00

O fluxo de cidadãos venezuelanos que atravessam a fronteira de Roraima fugindo da crise política e econômica não está transferindo para o Brasil somente mão de obra sem qualificação, como os operários que fazem bicos em Boa Vista ou indígenas warao, etnia de cultura diferenciada e cultura nômade da Venezuela. 

Parte do contingente é de profissionais graduados em universidades venezuelanas ou em cursos técnicos, trabalhadores e profissionais liberais qualificados que podem ser encontrados trabalhando no comércio e serviços na capital de Roraima, primeira parada dos refugiados.

“Está muito difícil a situação na Venezuela”, afirmou na quinta-feira o bioquímico Rhodell Pérez Albornoz, de 40 anos, que optou por deixar seu país há cinco meses e trabalha como garçom em Boa Vista. Com a mulher, Gheyser, de 33 anos, médica especializada em medicina do trabalho e ultrassonografia, Rhodell trabalha à noite em um bar da cidade, junto de pelo menos outros sete compatriotas que também tentam sobreviver com a documentação de refugiados.

“Mas está muito difícil também aqui”, disse ele na quinta-feira, na entrada do prédio da Polícia Federal de Roraima, onde foi renovar os documentos de refúgio. Com um filho de 14 anos para criar, o casal está vivendo somente com a renda de Gheyser. Ela é formada na Universidade Rómulo Gallegos, de San Juan de Los Morros, Estado de Guárico, e veio para o Brasil atraída pelo Programa Mais Médicos. “Esperava ter uma oportunidade”, disse a médica, que trabalhou em uma clínica privada na Venezuela até decidir abandonar o país para tentar a sorte no Brasil. 

Hoje, Gheyser é caixa de supermercado em Boa Vista e está arcando com o sustento da família porque o marido está com pelo menos dois meses de salários atrasados no bar onde serve bebidas e espetinhos de carnes. “Somente com aluguel e as taxas de moradia, vão R$ 700, explica Rhodell. Ao relembrar das dificuldades em seu país e também da situação que enfrenta em Boa Vista, Gheyser decidiu encerrar a entrevista. “Não quero mais falar sobre isso. Não resolve nada”, disse ao marido.

Rhodell desculpou-se e explicou que a mulher está cansada e nervosa. “Gostaríamos de ir para outra cidade, onde houvesse mais oportunidades de trabalho, mas as passagens estão muito caras”, relata o rapaz. Ele explica que a situação na Venezuela está se agravando a cada dia.

Para a engenheira de Tecnologia da Informação Gabriela Tenório, de 26 anos, a vida em Boa Vista já foi melhor para os refugiados. Até a semana passada, ela trabalhava à noite como garçonete, mas também teve os salários atrasados. “Está difícil para o dono do restaurante também”, explicou Gabriela.

Na noite de quarta-feira, ela contou que deixou o bar e está trabalhando de manicure “fazendo unhas”. Formada pela Universidade de Santiago Mariño, de Maturin, ela conta que adora sua profissão, sonha em trabalhar com linguagem de programação e pensa em migrar ainda mais para o sul do Brasil. O namorado de Gabriela, também venezuelano, técnico em TI, já tem contatos para conseguir vaga em Florianópolis, para onde o casal planeja se mudar logo que conseguir os recursos para a viagem.

Na manhã de sexta-feira, Freyo Viana, presidente da Associação Venezuelanos no Brasil, que funciona na periferia de Boa Vista, contou que o cadastro dele já contava com pelo menos 542 venezuelanos de diversas profissões. “Temos médicos, engenheiros, contadores e advogados, além de pedreiros e pintores”, disse.

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Migrantes venezuelanos dizem que são alvo de xenofobia no Brasil

Mesmo com dificuldades de relacionamento, fluxo de entrada de venezuelanos permanece elevado em Roraima

Pablo Pereira, Enviado Especial / Pacaraima, Roraima , O Estado de S.Paulo

12 Junho 2017 | 05h00

Fugir do desabastecimento e da perseguição política na Venezuela, enfrentar a vida longe de casa e suportar leis e regras de uma sociedade com outro modo de vida e outro idioma. Esse dramático movimento de migração das centenas de refugiados que estão, todos os dias, passando a fronteira de Roraima, agora começa a ficar mais difícil de enfrentar.

“Está havendo muita rejeição aos venezuelanos agora”, afirmou o bioquímico Rhodell Albornoz, que trabalha em Boa Vista como garçom. “Isso é xenofobia”, emendou Jesús Gutiérrez, de 29 anos, jornalista por formação e bartender por opção. “Eu me formei na universidade para dar um presente para minha mãe, mas o que eu gosto de fazer é ser bartender”, disse. “Fazia isso na Venezuela”, explicou. Ele afirmou que a rejeição aos refugiados aumentou nos últimos meses em Boa Vista. “Estamos sendo humilhados, rejeitados. E sofremos com isso, pois os brasileiros sempre foram bem tratados na Venezuela”, disse.

Mesmo com as dificuldades de relacionamento se ampliando, como reconheceu um comerciante da cidade que pediu anonimato e servidores estaduais que tentam auxiliar na busca de emprego, o fluxo de entrada permanece forte. 

Recém-chegado ao abrigo de apoio aos imigrantes do bairro de Pintolândia, periferia de Boa Vista, o ex-primeiro sargento da Armada (Marinha da Venezuela) Ronny Jaimes, de 31 anos, criticou o governo venezuelano, que, segundo ele, força os cidadãos a abandonar suas casas em busca de outra vida. 

Após trabalhar como soldador de “grandes motores” de embarcações, ter viajado de navio por diversos países em 11 anos de trabalho na Armada, ele deixou tudo para trás. Com família ainda em Valência, decidiu atravessar a fronteira em busca de reais. Com um câmbio na casa dos 1.700 bolívares por R$ 1, conta com uma oportunidade para mandar dinheiro para a família.

Na sexta-feira, diante da Polícia Federal de Boa Vista, o motorista de caminhão Libardo Cano Cortez, de 52 anos, era outro recém-chegado. Disse que fazia 3 dias que estava na cidade, acompanhado pela mulher, Mari Cruz Montillo Ríos, de 27 anos. Ela trabalhava como cuidadora de idosos. Ao ver um supermercado de Boa Vista, ficou espantada, contou o marido. 

“Aqui, se você tem dinheiro, você pode comprar. Na Venezuela, não”, disse ela. Abrigado na casa de uma família de conhecidos brasileiros, o motorista conta que há um ano está sem trabalho. “Por anos, viajei o país inteiro”, conta. “Mas agora está tudo parado”. 

Disposto a encarar o Brasil, Libardo ajusta as calças frouxas e justifica que está mais “delgado” (magro, em espanhol). E mostra fotos de meses atrás quando estava mais pesado. “Isso é preocupação, falta de oportunidade de trabalho”, disse, ao lado da mulher. Mari Cruz, emendou: “Isso é de comer uma vez ao dia”, afirmou. “Triste, difícil”, completou Libardo. 

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