Via militar não funcionará na Ucrânia

Interesse estratégico russo no país vizinho impede sucesso das intenções de armar Exército de Kiev contra insurgentes

JOHN J. MEARSHEIMER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2015 | 02h01

A crise da Ucrânia já se arrasta há mais de um ano e a Rússia está vencendo. Os separatistas no leste ucraniano ampliaram seu espaço e o presidente russo, Vladimir Putin, não mostra nenhum sinal de recuo diante das sanções econômicas ocidentais.

Assim, não surpreende que um número cada vez maior de pessoas nos Estados Unidos insista para armar a Ucrânia. Um estudo recente de um grupo de três especialistas americanos defende o envio de armamento avançado para Kiev e o indicado ao posto de Secretário da Defesa, Ashton B. Carter, afirmou na semana passada à Comissão de Serviços Armados do Senado "estar muito inclinado a seguir essa direção".

Estão errados. Seguir esse caminho será um enorme erro dos Estados Unidos, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da própria Ucrânia. Enviar armas a Kiev não salvará seu Exército e provocará uma escalada dos combates. Essa medida é particularmente perigosa porque a Rússia detém milhares de armas nucleares e está procurando defender um interesse estratégico vital.

Sem dúvida, o poder de fogo do Exército da Ucrânia é muito inferior ao dos separatistas, que têm soldados e armas russas a seu lado. Como a balança pende decisivamente a favor de Moscou, Washington teria de enviar uma enorme quantidade de armas para o Exército ucraniano ter alguma chance.

O conflito, no entanto, não terminará aí. A Rússia contra-atacará com mais força, retirando qualquer benefício temporário que Kiev possa ter com as armas americanas. Os autores do estudo reconhecem essa possibilidade, observando que "mesmo com um fortíssimo apoio do Ocidente, o Exército ucraniano não conseguirá derrotar um ataque resoluto do Exército russo". Em resumo, os Estados Unidos não conseguirão vencer uma corrida armamentista com os russos pela Ucrânia, nem assegurar uma derrota da Rússia no campo de batalha.

Desgaste. Os que propõem armar a Ucrânia têm uma segunda linha de argumento. A chave para o sucesso, afirmam, não é defender o país da Rússia militarmente, mas aumentar os custos da guerra a ponto de Putin sucumbir. A aflição supostamente compeliria Moscou a retirar tropas e permitir que a Ucrânia integre a União Europeia, a Otan e se torne um aliado do Ocidente.

Essa estratégia também não deve funcionar, independente da punição aplicada pelo Ocidente. O que os defensores da medida não entendem é que, para os líderes russos, interesses estratégicos fundamentais estão em risco na Ucrânia. Eles não cederão, mesmo que isso implique custos.

As grandes potências reagem duramente quando rivais distantes projetam seu poder militar na sua vizinhança, sem falar em tentar transformar em aliado um país com o qual faz fronteira. Por isso é que os Estados Unidos têm a Doutrina Monroe e nenhum líder americano jamais tolerará que Canadá ou México formem uma aliança militar liderada por outra potência.

A Rússia não é uma exceção nesse caso. Foi por isso que Putin não deu o braço a torcer diante das sanções e não deverá fazer concessões mesmo que os custos na Ucrânia aumentem.

A possibilidade de Putin recorrer a ameaças nucleares parecem remotas, mas, se o objetivo de armar a Ucrânia é aumentar os custos da interferência russa e eventualmente colocar Moscou numa situação crítica, a possibilidade de os russos usarem armas nucleares não pode ser descartada.

Nossa compreensão dos mecanismo de uma escalada em crises e guerras é limitada, na melhor das hipóteses, apesar de sabermos que os riscos são consideráveis. Tentar encurralar uma Rússia possuidora de armas nucleares é brincar com fogo.

Os que defendem o envio de armas para a Ucrânia reconhecem o problema e é por isso que enfatizam que devemos fornecer a Kiev armas "defensivas", não "ofensivas". Infelizmente, não existe nenhuma distinção útil entre estas categorias: todas as armas podem ser usadas para ataque e defesa. O Ocidente tem de saber, porém, que Moscou não irá considerar as armas americanas "defensivas", pois Washington está determinada a reverter o status quo no leste da Ucrânia.

A única maneira de solucionar a crise é pela via diplomática, não militar. A chanceler alemã, Angela Merkel, reconheceu isso ao afirmar que a Alemanha não enviará armas para Kiev. O problema, contudo, é que ela não sabe como pôr fim à crise. Merkel e outros líderes europeus ainda trabalham na ilusão de que a Ucrânia poderá sair da órbita de influência da Rússia e se incorporar ao Ocidente.

Soluções. Para salvar a Ucrânia e restabelecer uma relação eficaz com Moscou, o Ocidente deveria fazer da Ucrânia um estado-tampão neutro entre Rússia e Otan - similar à Áustria durante a Guerra Fria. Para isso, deveria explicitamente abolir os planos de expansão da União Europeia e da Otan e enfatizar que seu objetivo é uma Ucrânia não alinhada que não ameace a Rússia. Os Estados Unidos e seus aliados deveriam também trabalhar com Putin para resgatar a economia ucraniana, meta que claramente é do interesse de todos.

É fundamental que a Rússia colabore para o fim dos combates no leste da Ucrânia e que Kiev retome o controle dessa região, mas as províncias de Donetsk e Luhansk devem ter uma substancial autonomia e a proteção dos direitos da língua russa deve ser prioridade. A Crimeia, vítima da tentativa do Ocidente de levar a Otan e a UE para a porta de entrada da Rússia, com certeza foi perdida para sempre. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*John J. Measheimer é professor de Ciências Políticas na Universidade e Chicago

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.