Viciados invadem as ruas com medo de overdose

Usuários de opioides consomem cada vez mais drogas em locais públicos para facilitar socorro e evitar doses fatais

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / MARTINSBURG, EUA

26 Novembro 2017 | 05h00

Nos últimos nove meses, Brian Costello começou a ver um número crescente de pessoas sofrendo overdose de heroína e opioides em lugares públicos de Martinsburg: estacionamentos, banheiros de restaurantes, corredores de lojas de conveniência e postos de gasolina. Na segunda-feira, duas pessoas ficaram inconscientes em um carro que parou em um semáforo.

Chefe do Serviço de Emergência de Ambulâncias do Condado de Berkeley, onde fica Martinsburg, Costello atribuiu a mudança a uma estratégia de sobrevivência dos viciados diante do aumento da presença de fentanil na heroína que chega à região. Opioide sintético, ele é 50 a 100 vezes mais potente que a morfina e é responsável pela elevação do número de mortes por overdoses. 

“Se consumir uma dose de heroína com muito fentanil, o usuário terá mais chance de sobreviver se estiver em um lugar público e não sozinho em casa. Alguém vai encontrá-lo e chamar a emergência”, disse Costello. O antídoto para overdoses de opioide é o medicamento Narcan, que interrompe a ação da droga e provoca o rápido despertar. 

A necessidade de várias doses de Narcan para resgatar pacientes é outro sintoma da expansão da presença de fentanil no mercado. Steve Orr usou a droga por quase 18 anos e só teve sua primeira overdose em janeiro. Foram necessárias três aplicações de Narcan para trazê-lo de volta. “Eles estão colocando fentanil na heroína.”

Steven Tomasik começou a usar a droga quando tinha 16 anos e passou 5 de seus 29 anos preso por tráfico. A última de suas três passagens pela prisão terminou em fevereiro. Desde então, ele se mantém longe do opioide graças ao apoio de sua irmã, Stephanie Stout, que cumpriu pena de 2 anos por arrombar uma casa para sustentar sua dependência de heroína.

Stephanie foi libertada em agosto de 2015, ficou sóbria por oito meses, e teve uma recaída. Mãe de três adolescentes, ela decidiu procurar ajuda e encontrou um porto seguro no centro de recuperação do Condado de Berkeley, em Martinsburg.

O dia 5 de junho de 2016 foi a última data em que Stephanie consumiu drogas. Agora, ela atua como coach dos que procuram a organização na esperança de conseguir tratamento. “Isso não existia antes. Era muito difícil conseguir ajuda aqui”, disse ela, referindo-se ao centro aberto ano passado.

Segundo Steven, mortes por overdose eram raras. “Agora há essas coisas novas que colocam na droga, o que é ruim”, diz ele, que nunca sofreu overdose. O número de emergências varia de acordo com a qualidade dos carregamentos. Sem saber o que está na droga, muitos usuários não estão preparados para a potência do fentanil e acabam consumindo doses fatais.

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