EFE/Eric San Juan
EFE/Eric San Juan

Vietnamita tirado do país durante a guerra reencontra mãe biológica após mais de 40 anos

Vance McElhinney foi um dos 99 bebês enviados ao Reino Unido em abril de 1975 na chamada operação 'baby lift', que levou 3 mil crianças vietnamitas, em sua maioria órfãs, para EUA e Europa; agora, ele vive 4 meses por ano no país para se aproximar da família

O Estado de S.Paulo

04 Abril 2018 | 11h21

QUY NHON, VIETNÃ - Mais de quatro décadas depois de ser enviado do Vietnã para a Irlanda do Norte enquanto ainda era bebê para escapar da guerra, Vance McElhinney voltou ao seu país de origem e reencontrou sua mãe biológica, com quem decidiu viver parte do ano.

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"Sempre tive essa pergunta rondando minha cabeça: quem eram meus pais biológicos? Mas foi só há três anos que me atrevi a dar esse passo e viajar ao Vietnã", disse McElhinney em um café de Quy Nhon, cidade costeira do centro do país, onde está temporariamente instalado desde janeiro.

McElhinney, nascido em julho de 1974, foi um dos 99 bebês enviados ao Reino Unido em abril de 1975 na chamada operação "baby lift", que levou outras 3 mil crianças vietnamitas, em sua maioria órfãs, para Estados Unidos e Europa.

"Minha mãe biológica estava ferida por um tiro e precisou receber transfusões de sangue, cabendo aos meus tios cuidarem de mim. Eles foram aconselhados a me enviar para um orfanato católico em Saigon (atualmente, Ho Chi Minh) por questão de segurança e de lá fui enviado semanas depois para o Reino Unido sem que minha mãe soubesse. Ela disse que esperava pelo meu retorno desde então", contou.

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Adotado pelos McElhinney, uma família protestante dos arredores de Belfast, ele teve uma infância "razoavelmente feliz", apesar dos insultos que recebia por seus traços asiáticos. Depois, passou por anos difíceis durante o conflito do Ulster.

Ele se lembra que quando criança foi entrevistado em algumas ocasiões por jornais e emissoras de TV, algo que lhe foi útil há dois anos, quando iniciou sua busca por seus pais biológicos e a emissora pública britânica BBC se ofereceu para apoiá-lo e gravar um documentário sobre sua história.

"Isso me permitiu contar com uma equipe de investigação que ajudou a encontrar o orfanato onde fiquei e a agradecer quem cuidou de mim. Mas não tínhamos informação da minha família", explicou.

Meses depois, quando história também foi publicada pela imprensa do Vietnã, ele passou a receber mensagens de pessoas que diziam ser seus parentes. "Foram umas 30 mensagens quando eu estava em Belfast, mas uma me chamou a atenção: uma mulher dizia que sua tia estava convencida que eu era seu filho perdido e precisava me ver o quanto antes", relembrou McElhinney.

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Quando voltou ao Vietnã, ele se encontrou com a mulher que passou a chorar assim que o viu. "Era uma situação rara. Eu estava muito cético e ela insistia, por meio de uma intérprete, para que eu ficasse em sua casa e passássemos algum tempo juntos porque eu era seu filho."

McElhinney enviou para uma empresa do Canadá amostras do seu cabelo e do cabelo da misteriosa mulher e, alguma semanas depois, recebeu a confirmação de que Le Thi Anh era, realmente, sua mãe.

"Quando me disseram eu não estava preparado, não pensava que esse momento fosse chegar, apesar de ela estar convencida. Foi uma mistura de sentimentos. Por um lado, alegria, mas também responsabilidade de saber que tenho uma mãe viúva no Vietnã, que vive na pobreza com uma pensão de US$ 20 por mês e sou seu único filho", explicou.

McElhinney não voltou imediatamente ao Vietnã porque cuidava sua mãe adotiva, que estava doente, em seus últimos meses de vida. Ele só viajou para seu país natal depois que ela morreu, em dezembro.

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Apesar de alguns dos outros bebês retirados do país na operação "baby lift" já terem retornado ao Vietnã nos últimos anos para reencontrar suas origens, McElhinney foi além ao decidir se instalar no país durante parte do ano para cuidar da mãe biológica.

Em Quy Nhon ele é chamado de Chau, nome que teve durante seus primeiros meses de vida. "As pessoas acham que vivo um conto de fadas, mas a situação não é fácil. Sinto que tenho uma responsabilidade com minha mãe, mas quase não conseguimos nos comunicar porque ela não fala inglês e eu não falo vietnamita", confessa. "Eu gosto do Vietnã, sinto uma conexão especial com o país, mas as vezes me sinto muito isolado aqui."

Durante sua viagens ao país, McElhinney conheceu uma mulher vietnamita com a qual planeja se casar em dezembro. Seu plano é viver com ela durante 8 meses por ano no Reino Unido, onde ganha a vida como cozinheiro e nos outro quatro ficar no Vietnã para estreitar seus vínculos com a família biológica.

"Ela (a mãe) é muito afetuosa e quer que eu fique sempre por perto, que segure sua mão quando estamos juntos. Mas eu sempre fui muito independente e é difícil para mim me sentir perto dela. Estive em seu ventre por nove meses, mas cresci muito distante", finaliza. / EFE

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