Ko Sasaki The New York Times
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Você comeria arroz de Fukushima?

Japão tenta convencer outros países de que alimentos da região são seguros

Ricardo Grinbaum, Fukushima, Japão, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 06h00

Você comeria arroz produzido em Fukushima? O Japão quer convencer os países que ergueram barreiras aos alimentos produzidos na província de que não há mais problemas. O acidente ocorreu depois que um tsunami invadiu as instalações da usina, em 11 de março de 2011, destruiu os geradores de energia usados para resfriar o combustível nuclear e provocou a explosão de três reatores. Uma nuvem de poeira radioativa escapou para a região vizinha e água contaminada vazou para o Pacífico.

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Nos últimos anos, o vazamento radioativo foi contido, o governo raspou o solo usado para a produção de arroz e lavou cada pé de pera e pêssego da região. Agora, os produtores rurais e pescadores travam uma batalha para provar que os alimentos são saudáveis.

Mais de 40 países adotaram algum tipo de barreira contra produtos de Fukushima depois do acidente. De lá para cá, 24 já removeram as restrições, segundo o Ministério de Negócios Exteriores do Japão. Em novembro, a União Europeia decidiu aliviar as barreiras, mas países vizinhos como Coreia do Sul, China, Taiwan e Cingapura mantêm as restrições, principalmente aos frutos do mar. 

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O Brasil adota restrições desde a época do acidente, com exigência para que cada alimento apresente análise laboratorial sobre a presença dos elementos radioativos césio 134 e césio 137. Segundo a Anvisa, a política pode ser revista “com base em dados atualizados de monitoramento dos níveis de radionuclídeos nos alimentos provenientes de Fukushima a serem apresentados pelas autoridades japonesas”.

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O governo japonês está em campanha para provar que os efeitos do acidente ficaram para trás. No fim do ano, levou um grupo de jornalistas de cinco países, incluindo o Estado, para uma visita aos produtores e laboratórios de testes de alimentos de Fukushima.

Na cidade de Motomiya, a 60 quilômetros da usina, os produtores estão ansiosos para provar que superaram o acidente. “Os fazendeiros continuam a produzir, mas precisam de mercado, temos de convencer o mundo de que nossa produção é segura”, diz Endou Katsou, chefe do posto de fiscalização de arroz na cidade.

Para tranquilizar os consumidores, toda saca de arroz produzida na região de Fukushima passa por equipamentos que medem a radiação – 10 milhões de sacos de arroz são inspecionados por ano. Segundo autoridades, desde 2015 não foi encontrada nenhuma amostra com radiação acima de 100 Bq por quilo (padrão de segurança japonês). Cada saco de arroz tem um código de barras para que sua origem possa ser rastreada pelos consumidores, incluindo o registro do teste de radiação.

Desde o acidente, foram realizados mais de 1,73 milhão de testes de alimentos, segundo o governo. No entanto, nem os próprios japoneses têm confiança. Pesquisas mostram que 13% dos consumidores têm medo de comprar comida e um terço não sabe que os alimentos da província são monitorados.

A situação mais complicada é a dos pescadores. É impossível descontaminar o mar como se fez nas plantações de arroz. Na época do acidente, vazaram 520 toneladas de água contaminada por seis dias. Para evitar novos vazamentos radioativos, foi construída uma parede de gelo ao redor de usina. 

Não há mais registros de radiação na água. Mas os peixes que foram contaminados continuaram circulando. A pesca foi praticamente proibida na região. Recentemente, os pescadores voltaram à atividade, mas com um tom de cautela. Ali não se fala que a pesca voltou, mas que está em fase “experimental”. 

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Na cidade de Soma, os pescadores estão voltando à ativa, mas não saem todos os dias para o mar. Em abril, retomaram a venda dos peixes por leilão. Quando chegam ao porto, deixam a mercadoria em bandejas, para que comerciantes façam suas ofertas em pedaços de papel. Quem pagar mais leva, embora o peixe ainda não esteja pronto para consumo. Antes disso, técnicos da cooperativa dos pescadores retiram peixes das bandejas e levam para um laboratório. Ali, são cortados e colocados em uma máquina de chumbo, onde se faz a medição da radiação. Se for detectado algum problema, eles são recolhidos.

“Aqui era uma ótima região para a pesca, porque atrai peixes de corrente quente, do sul, e fria, do norte”, diz Fujita Tsuneo, diretor da estação experimental de pesca em Soma. “Agora, nossa pesca se limita a 8% do que era antes do acidente.” Segundo ele, a geração de peixes contaminada pelo acidente ficou velha, morreu, e os filhotes não apresentam sinais de radiação. Das 100 espécies banidas para pesca em 2011, 11 continuam proibidas.

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A Agência de Reconstrução de Fukushima diz que, nos últimos anos, nenhuma amostra de arroz, vegetais, frutas ou pescados excedeu os limites de radiação estabelecidos pelo Japão, hoje mais rigorosos que os internacionais. As exceções foram cogumelos selvagens (0,26% das amostras) e peixes de rios (0,69%) das áreas de florestas onde é restrita a produção de alimentos.

A Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO) fez análises com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e referendou os controles. “A comida de Fukushima é segura, mas continuaremos monitorando para certificar que continue assim”, disse a FAO, em nota ao Estado. O esforço, porém, não foi suficiente para apagar o estigma do nome de Fukushima. 

 

 

 

 

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