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Ketevan Kardava/ Georgian Public / AP

ENTREVISTA: Samla da Rosa, jornalista brasileira que sobreviveu ao atentado no metrô

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Bruxelas

‘Você vê que não morreu, mas vem o medo de outra bomba’

Empresária que vive na Bélgica conta ao ‘Estado’ como sobreviveu à manhã em que Bruxelas foi abalada por ataques

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Andrei Netto, enviado especial / Bruxelas

26 Março 2016 | 20h00

BRUXELAS - Coube a uma jornalista brasileira conceder um dos primeiros e mais impressionantes depoimentos em primeira pessoa sobre os atentados de Bruxelas. Na terça-feira, Samla da Rosa, empresária radicada na capital belga há 19 anos, tomou o metrô a caminho de um evento com a presença do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, com início marcado para as 8h30. Às 7h52, um atentado havia atingido um terminal do Aeroporto de Zaventem.

Por telefone, Samla explicou a amigos e filhos que estava bem e que iria ao trabalho. Pouco depois das 9h o vagão em que estava foi sacudido pelo barulho surdo de uma explosão no carro de trás. Pouco machucada, mas muito abalada, a jornalista falou ao Estado em duas oportunidades, ainda na terça e depois na quinta-feira. "Eu não consigo comemorar. Sinto uma tristeza muito profunda, uma marca. Estou bem, mas tem gente que está sofrendo muito. Não só as pessoas que estão desfiguradas, mas as que sofrem as dores das queimaduras", diz Samla, que não tem dúvidas: "Estamos vivendo uma guerra".

Você disse que está sentindo a necessidade de falar, de reportar o que viu. Por quê?

Pois é. Porque temos vários reflexos que vamos tendo conforme o tempo vai passando. O primeiro reflexo que tive no momento em que ouvi o barulho foi de proteção. Todo mundo se protegeu do que estava acontecendo. Aí você vê que não morreu, mas vem um medo, um pânico de que estoure outra bomba e que aconteça com a gente também. Tinha acontecido no vagão de trás, mas no meio do tumulto não tínhamos a noção de onde tinha acontecido. Logo depois nós nos abraçamos, na solidariedade da dor. Aí veio o reflexo de pedir calma às pessoas que estavam chorando ou estavam com dor. Aí alguém falou: "A gente vai ter de sair daqui, ou vamos morrer asfixiados". A fumaça era muito forte, não tinha luz, que havia sido cortada imediatamente. As portas do nosso vagão estavam bloqueadas, porque o trem chegou a partir da estação. Como eu estava sentada na frente, quando o trem freou eu fui jogada contra a parede da frente. Alguém abriu a janela que dava para pular para a plataforma, e um a um foi pulando para a plataforma.

Eram os últimos vagões?

Eu estava no segundo e parece que foi o terceiro que explodiu. Quando eu alcancei a plataforma, foi que a gente compreendeu a extensão do drama. Havia vários feridos, vários queimados, gente desfigurada. O próprio condutor do trem estava ferido, mas falava no rádio. Eu o ouvi dizendo para evacuar o trem e dizendo: "Foi uma chacina", uma carnage, em francês. "Agora vou tentar levar as pessoas para fora." A gente não conseguia ver nada. A fumaça era muito forte e ele usou uma lanterna para tentar nos levar para fora da estação.

Foi ele quem guiou os passageiros para fora da estação?

Sim, foi ele quem guiou. Fomos subindo pelas escaldas rolantes. Essa é uma estação muito profunda. São dois patamares para poder chegar até a calçada. 

Você disse que, quando você saiu viu uma imagem que jamais esqueceu. Qual foi?

Foi um braço que estava caído na calçada. Eu fiquei sentada ali por alguns instantes e via esse braço ali, caído, ainda vestido. Não sei por que, não sei de quem era, não vi essa pessoa. Os mais afetados foram levados imediatamente pela ambulância. Eu não sofri nada e fui separada desse grupo. Eu tossia muito, estava muito suja da fuligem. Recebi uma toalha molhada para colocar no rosto e a paramédica nos pediu para não tomar muita água. O primeiro socorro foi de pessoas que passavam pelas ruas, na Rue Art-Loi. As pessoas correram para nos dar garrafas de água. Logo os paramédicos chegaram e nos disseram para não beber muito. Pouco a pouco, os menos feridos foram se dispersando e ficaram os mais feridos, que passaram a ser atendidos pelos médicos.

Você prestou algum depoimento antes de sair?

Não, não prestei depoimento. Ninguém fez uma lista. As pessoas foram se dispersando automaticamente. A polícia estava ocupada. Sua preocupação foi bloquear o trânsito e isolar a área, enquanto os médicos estavam ocupados em atender os feridos, as pessoas deitadas na rua. Alguns estavam muito queimados nos rostos. Eu me lembro disso.

Você voltou para casa?

Um tempo depois eu saí andando e fui para casa.

Quando pegou o metrô, você já sabia que o atentado ao aeroporto havia acontecido? Como você tinha se sentido em relação a esse primeiro atentado?

Sim, já sabia. Eu estava andando em direção ao metrô com algumas pessoas me telefonando, alguns amigos, meu filho. Eu estou indo para o Brasil na semana que vem. Então meus filhos, que não moram mais comigo, me ligaram. Eu disse que estava bem, que estava em Bruxelas, mas bem, e que estava indo para um evento. Então entrei no metrô, e o metrô explodiu. Foi uma coisa louca.

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