Votação evidencia divisão geográfica e social argentina

O resultado das eleições argentinas permite constatar que a geografia política argentina se dividiu em duas partes. O norte, o sul argentino e as camadas mais populosas e populosas dos subúrbios de Buenos Aires e Rosário se tingiram de azul, cor característica da Frente para a Vitória, coalizão do governo.

Carlos F. De Angelis*, O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2015 | 03h00

Cidades maiores, como Buenos Aires, Córdoba, Mendoza, Paraná, incluindo Rosario e San Miguel de Tucumán, e zonas mais prósperas da região central da Grande Buenos Aires, e o interior da província se tornaram amarelas, cor característica do Proposta Republica (PRO), de Mauricio Macri.

Os setores urbanos, mais favorecidos em termos educacionais, com trabalhos no setor formal privado, acesso a bens e serviços de classe mundial, votam diferentemente dos setores suburbanos, cuja renda e acesso aos serviços dependem da gestão estatal, são subempregados ou com trabalhos instáveis e muito vulneráveis às flutuações dos mercados globalizados.

Numa época em que as diferenças de classes pareciam enterradas na história, duas correntes políticas apelam para bases sociais diferentes. O kirchnerismo, resultado do emaranhado político-cultural que foi o peronismo, procura atrair os setores mais pobres da sociedade. O “macrismo”, fruto de uma nova realidade emergente e nascido de uma nova elite política vinculada às transformações verificadas na Argentina a partir do final dos anos 80, mobiliza nas suas bases setores da classe alta e média alta. Como pode a Argentina, país de classe média, ver-se presa a tal divisão? A tensão social tende a diminuir com a saída de Cristina do poder, mas essa outra fratura está exposta.

Os setores medianos do país historicamente se identificaram com a União Cívica Radical (UCR). O radicalismo lhes ofereceu o valor popular, vinculado a seu início revolucionário e uma visão republicana e ordenada que faltou ao peronismo desde sua origem. A implosão da UCR deixou órfãs amplas camadas da população. O PRO vem atualizar essa opção. A dinâmica dessa sociedade fragmentada explica muitos comportamentos eleitorais. As bases de hoje são reflexos de estruturas sociais e culturais que funcionam com lógicas muito díspares e essa diferença é a chave para compreender como propostas, promessas e escândalos afetam de maneira desigual quem vota nos dois grupos políticos. 

A estabilidade, a previsibilidade e a não mudança que Scioli estabeleceu como base do seu discurso têm reflexo nos setores mais humildes que saíram da marginalidade e não aceitam retornar a ela. Por isso, Scioli contou com uma base estável, que não tem dúvidas na hora de votar. Esse fenômeno foi observado pelo macrismo e integrado em seu discurso, a ponto de o candidato do PRO propor uma renda universal para praticamente todos os que vivem em solo argentino.

Também os escândalos e denúncias de corrupção mais recentes tiveram impacto de forma diferente sobre os distintos estratos sociais. Está bastante claro que as múltiplas denúncias que tiveram como alvo funcionários do kirchnerismo não afetaram sua base eleitoral. Nos últimos dias, houve denúncias sobre espionagem contra políticos, jornalistas e personagens do mundo do espetáculo, levantadas por duas deputadas do PRO.

Os setores da classe média, sobretudo aqueles que se qualificam como progressistas, têm sido a grande dúvida durante toda a campanha eleitoral. Muitos podem ter mudado seu voto a poucas horas das eleições. Alguns examinaram a proposta de Margarita Stolbizer (candidata de esquerda moderada) por um momento para depois se concentrar em Macri ou Sergio Massa.

Massa ofereceu em princípio uma proposta sensata para a economia, mas a ideia de pôr o Exército patrulhando as ruas dos bairros mais pobres assustou parte dessa camada da população. A estratégia pareceu mais orientada no sentido de seduzir setores mais à direita do que à classe média, habitualmente próxima à centro-esquerda. 

Macri, por outro lado, foi mudando seu discurso segundo as dúvidas de setores da classe média que não consideram tão mal que YPF, Aerolíneas Argentinas ou a previdência social sejam órgãos estatais. Ele mudou o discurso mesmo contra a opinião das bases mais liberais que o acompanham.

Scioli também buscou atrair a classe média. A decisão pouco comum de apresentar seu gabinete teve como objetivo principal mostrar aos eleitores que vai se manter autônomo em relação a Cristina. Sua proposta de aumentar o piso do imposto de renda também foi uma tentativa de convencer esses eleitores de que levará em conta seus interesses. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* CARLOS F. DE ANGELIS É SOCIÓLOGO, ANALISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE BUENOS AIRES

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