Votação na França

A França foi às urnas no domingo. Eleições regionais, é verdade, mas que tiveram um significado nacional. Primeiro resultado: desde a manhã de ontem, a mentira corre solta. Todo mundo parecia satisfeito. Todo mundo estava contente. Todo mundo ganhou ou, em todo caso, ninguém perdeu. Vamos tentar recolocar a verdade de pé.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 Março 2015 | 02h03

Eis os resultados em grossas pinceladas. Três partidos dividiram o bolo: a União para um Movimento Popular (UMP, a direita razoável, do ex-presidente Nicolas Sarkozy) com 29% dos votos; a Frente Nacional (FN, de ultradireita, de Marine Le Pen) com 25% dos votos; o Partido Socialista (do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls) com 21,5% dos votos.

Os piores mentirosos são os socialistas. Em vez de confessar que sofreram um profundo retrocesso em relação às últimas eleições presidenciais, em 2012, que elegeram Hollande, eles explicam em todas as rádios que passaram no teste de meio de mandato presidencial. A verdade é mais cinza. O que ocorreu na eleição foi que o Partido Socialista foi menos mal do que se esperava. Previa-se uma catástrofe para Hollande e seus amigos, mas o desastre não chegou a tanto.

Pensava-se que os socialistas não receberiam mais do que 16% ou 17% dos votos. Eles conseguiram 21%. Milagre! Um pouco como um estudante que se felicitasse por estar em penúltimo lugar da turma, não em último.

O UMP está satisfeito - e com razão. Atravessou anos difíceis com disputas entre seus figurões (Sarkozy contra Juppé contra Fillon), casos obscuros. E ficou na frente com 29% dos votos. No entanto, onde o partido de Sarkozy mente é quando ele finge que a "direita da direita", isto é, a ultradireita de Marine Le Pen, errou o alvo. Isso é falso. É bem verdade que as sondagens previam que a Frente Nacional chegaria à frente com 30% dos votos. Ora, ela colheu apenas 25% e ficou em segundo lugar. No entanto, essa leve diferença não deve ocultar a realidade: Marine Le Pen e seus ultras realizaram uma façanha.

A Frente Nacional, que há 40 anos era uma formação marginal, veste, pela primeira vez, os trajes rutilantes de um grande partido nacional. Irrompe no centro do cenário político na mesma condição que os dois grandes partidos tradicionais: a direita republicana (UMP) e os socialistas.

Novo período. Se quisermos designar um vencedor, é preciso dizer, quer seja agradável ou não, que foi a Frente Nacional. Ao mesmo tempo, uma transformação fundamental da tradição política se realiza: enquanto durante 60 anos a França foi governada pelo "bipartidarismo", os socialistas e a direita se sucediam no comando, eis que o país entra em uma nova era: a do tripartidarismo. Três grandes sensibilidades disputam o poder: a direita, a esquerda e a ultradireita.

Também aí se detecta a mentira do Partido Socialista: o simples fato de haver três partidos dominantes, em vez de dois, é um revés para os socialistas, sobretudo porque dois desses três (o UMP e a FN) são partidos de direita. É fato que a FN tem tentações fascistas, detesta a Comunidade Europeia, o que a diferença da UMP de Sarkozy. Mas isso não a impede de ser um partido de direita.

Outra fragilidade do Partido Socialista, atualmente no comando do Estado, é a política de Hollande cada vez mais indulgente com o "mercado", com o "capital" e com a "terceira via" próxima da inventada pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e desaprovada ferozmente por uma parte das fileiras socialistas, por aqueles chamados de "frondeurs" (rebeldes), os que denunciam a tentação "direitista" de Hollande, sua complacência com o capital e com os patrões.

Conclusão desse passeio pelo imbróglio das estatísticas: as recentes eleições francesas tiveram um vencedor: a direita em seu conjunto. E um vencido: o Partido Socialista. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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