EFE/Nathalie Sayago
EFE/Nathalie Sayago

Plebiscito simbólico mobiliza mais de 7 milhões contra mudança constitucional na Venezuela

Consulta popular da oposição tem forte participação, apesar de ser extraoficial e não ter o poder de barrar eleição para Constituinte marcada pelo governo para o dia 30; uma eleitora foi assassinada a tiros e três ficaram feridas em ataque de motociclistas

O Estado de S.Paulo

16 Julho 2017 | 15h22
Atualizado 17 Julho 2017 | 08h34

CARACAS - Mais de 7 milhões de venezuelanos votaram no domingo 16 em um referendo não oficial realizado pela oposição para pressionar o presidente Nicolás Maduro e repudiar seu plano de alterar a Constituição do país, informaram monitores. O plebiscito simbólico teve como objetivo atacar a legitimidade do líder chavista em meio a meses de protestos contra o governo que já deixaram 96 mortos.

Resultados da consulta popular mostram que 98,4% dos participantes (6.387.854 pessoas) dos 7,2 milhões que votaram rejeitam a formação da Assembleia Nacional Constituinte.

“Hoje, a Venezuela ficou de pé com dignidade para dizer que a liberdade não retrocede, e a democracia não é negociável”, disse o líder da oposição, Julio Borges.  "Com os votos, Maduro está matematicamente revogado a partir de hoje." Ele disse ainda que o "povo superou todos os obstáculos, não somente o de haver menos lugares para votar, mas também superou o medo, violência, as ameaças do governo aos funcionários públicos, às pessoas que recebem programas sociais". 

Os venezuelanos enfrentaram horas de fila para votar contra o plano chavista de mudar a Constituição. Apesar de ser uma consulta extraoficial, sem poder legal de barrar a Constituinte convocada pelo governo para o dia 30, o alto índice de comparecimento – que chegou a causar a falta de cédulas – será usada para pressionar Maduro. Uma eleitora foi morta a tiros, em um ataque de motociclistas que ainda feriu três mulheres.

A cédula do plebiscito continha três consultas. O eleitor foi questionado se é contra a formação de uma Assembleia Constituinte em duas semanas, se Maduro deve chamar eleições livres e se funcionários públicos e militares devem defender a Constituição. 

A estratégia é expor a oposição da maioria da população à tentativa de Maduro de alterar a Carta aprovada em 1999 por seu mentor, Hugo Chávez, morto em 2013. Reunidos na Mesa da Unidade Democrática (MUD), os antichavistas trabalham agora pelo boicote à iniciativa do governo. 

A oposição decidiu não apresentar candidatos na eleição que decidirá a composição da Constituinte. Já o chavismo colocou na lista nomes populares entre os governistas, como a primeira-dama Cilia Flores, a ex-chanceler Delcy Rodríguez e o deputado Diosdado Cabello, uma referência na linha-dura do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Maduro, segundo a oposição, usará a nova Carta para tirar de vez os poderes do Congresso, cuja maioria é opositora desde dezembro de 2015. O governo também deu sinais de que pretende afastar a procuradora-geral, Luisa Ortega Díaz, chavista dissidente. 

O número de votantes no plebiscito - pouco abaixo dos 7,7 milhões de venezuelanos que compareceram às últimas eleições legislativas, em 2015 - fez com que algumas ruas de Caracas chegassem a ficar bloqueadas. “E já caiu! E já caiu, este governo já caiu”, cantavam opositores na capital, enquanto motoristas seguiam o ritmo com buzinaços. 

A votação teve um grave episódio de violência. Xiomara Scott, de 61 anos, foi morta com um tiro no abdômen perto de um centro de votação no bairro de Catia, região populosa no oeste de Caracas. Motociclistas dispararam contra ela e três mulheres em meio a centenas de eleitores em fila. Houve pânico e parte da população se refugiou em uma igreja. Com esse caso, chegaram a 96 as mortes ligadas direta ou indiretamente aos protestos contra o governo, que começaram em abril.

“Não havia ocorrido nada grave, nenhuma tragédia a lamentar, mas Maduro e seu regime viram a grande participação no plebiscito”, disse a ex-deputada María Corina Machado, ao responsabilizar grupos ligados ao governo pelo crime.

Maduro fez uma declaração ao final da votação. “Eu lhes digo, não se transformem em loucos. Faço um chamado para que voltem à paz, à Constituição, para que se sentem e conversem.” Depois de a oposição ter marcado o plebiscito, o chavismo convocou também para ontem uma simulação da eleição para a Constituinte. Milhares de chavistas, em geral com peças de roupas vermelhas, foram a esses centros de votação para mostrar apoio ao governo.

 “Felicito o povo, devemos ter consciência de que as diferenças que temos no país devemos resolver em paz, com votos e não com balas”, completou Maduro. A militante chavista Nikkar Alonzo orientava apoiadores do governo. “O que você tem de fazer é buscar nove militantes ativos na revolução, ou que sejam simpatizantes nossos. Quem somos? O povo, o povo de Chávez, o que segue o legado de nosso comandante”, pregava. 

Em casa. O líder opositor venezuelano Leopoldo López participou do plebiscito de sua casa, onde é mantido preso desde o dia 8, após ser transferido de uma prisão. "Sim, desconheço a proposta da Constituinte de Nicolás Maduro", expressou López, em costas, em um vídeo postado no Twitter, enquanto ele marcava as opções na cédula. "Sim, demando às Forças Armadas e a todos os funcionários públicos a defender a Constituição. Sim, sou a favor da renovação dos poderes públicos e da realização de eleições livres. 

Google. Diosdado Cabello, um dos homens mais influentes do chavismo, disse que o Google integra uma campanha midiática contra a "revolução bolivariana" e seu líder, o presidente Maduro. "O Google não aceita uma só campanha para a revolução bolivariana e mete em qualquer página a propaganda da oposição."/ REUTERS, EFE e AFP

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