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Zika e política externa

O Brasil voltou às manchetes internacionais esta semana. Não pelos motivos de quando venceu a disputa para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, mas como "ground zero" de uma pandemia para a qual alertou Organização Mundial de Saúde (OMS). Quando chegaram a CNN, BBC e outras redes estrangeiras, no entanto, imagens de mães angustiadas e seus bebês recém-nascidos, deformados pela microcefalia, já eram dolorosamente familiares a nós, brasileiros. Por que o mundo só olhou para isso agora?

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Adriana Carranca

30 Janeiro 2016 | 02h02

A OMS diz que busca lições no combate ao ebola para reagir à nova ameaça e aí pode estar a resposta. Como se deu com a epidemia que matou milhares no oeste africano, o zika vírus só se tornou de interesse global quando bateu às portas de EUA e Europa.

Entre o Brasil que decolava em 2009, na capa da Economist, e o Cristo Redentor em queda em 2013, o Aedes aegypti, transmissor do zika, infectou 3,2 milhões de pessoas e matou 1.021 com dengue. Enquanto a comunidade internacional estava distraída com o Brasil do futuro, o mosquito criou resistência, adaptou-se ao ambiente local e passou a se reproduzir não só em água limpa, mas no esgoto do Brasil de sempre.

Entre 2014 e 2015, somaram-se 2,2 milhões de casos e 1,3 mil mortes, com aumento recorde de 180,9% de infectados e 82,5% de vítimas fatais, segundo o Ministério da Saúde. Em maio, a explosão de casos de microcefalia levou à sua associação com o zika.

Até dezembro, o vírus chegara a Colômbia, Bolívia, Equador, Guiana, Paraguai, Suriname e Venezuela. No dia 11, o primeiro caso foi confirmado nos EUA, seguido por Europa. Só então, oito meses após ser identificado no Brasil e quando o país já tinha quatro mil casos de microcefalia, a OMS soou o alarme.

"Zika é uma doença da pobreza, similar a outras doenças tropicais negligenciadas, como dengue e chikungunya", escreveu no Guardian a pesquisadora Clare Wenham, da London School of Economics, que estuda a relação entre saúde global e política externa. Vírus não escolhem suas vítimas, mas "o fardo recai desproporcionalmente sobre as populações pobres" porque é nos bairros de maior aglomeração e sem sistema sanitário que o pernilongo encontra ambiente ideal para se reproduzir e espalhar a doença mais rapidamente.

Amy Y. Vittor, professora de medicina da Universidade da Flórida, mencionou ao New York Times o surto de dengue em 2005 na fronteira EUA-México - do lado mexicano, o risco era oito vezes maior do que na vizinha Brownsville, no Texas, embora ambas componham uma mancha urbana contínua.

Em março, um prestigiado grupo de cientistas enviou carta ao G7 pedindo a manutenção de fundos para controle e eliminação de 17 doenças. A vacina contra dengue avançou, mas isso quando já infectava 400 milhões ao ano. Bactérias, vírus e parasitas afetam saúde e economia de 1,9 bilhão de pessoas na América Latina, na África e na Ásia.

Além de alocar investimentos à pesquisa, os países do G7 - os mais desenvolvidos e, à exceção da Itália, os menos corruptos, segundo a Transparência Internacional - poderiam pressionar mais seus parceiros comerciais, como o Brasil, a atacar a corrupção que rouba dinheiro da saúde. Os R$ 1,87 bilhões anunciados pelo governo para combater o Aedes este ano são menos de um terço dos R$ 6,2 bilhões desviados dos cofres da Petrobrás - e sabemos não se tratar de caso isolado nem limitado à esfera federal ou partido, mas um problema epidêmico como o zika.

Essas doenças afetam profundamente a economia das famílias e comunidades atingidas, o que perpetua o ciclo de pobreza e, em última instância, compromete a economia mundial. Maior migração, provocada por pobreza, mudanças climáticas e guerras, favorecem as pandemias. Nesse cenário, só há solução se for para todos. Mas esta é uma lição que a comunidade internacional resiste em aprender.

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