Brett Gundlock para The New York Times
Brett Gundlock para The New York Times

Analistas temem que eleição mexicana seja vítima da influência russa

Além das diversas fake news que fluem rapidamente, as campanhas dos candidatos trocam acusações de supostas contratações de agitadores online, os chamados trolls

Kirk Semple e Marina Franco, The New York Times

13 Maio 2018 | 10h00

CIDADE DO MÉXICO - A mensagem que circulou nas mídias sociais no início deste ano - dizendo que a maioria dos mexicanos, se quisesse votar nas eleições presidenciais, teria de se registrar novamente dentro de alguns dias  - desencadeou certo pânico no Facebook, no Twitter e em outras plataformas.

O negócio é que não era verdade.

A fonte permanece obscura. A mensagem pode ter sido uma tentativa de minar o sistema ou talvez apenas um esforço de serviço público mal informado. Mas a raiva e a incerteza geradas por ela abriram um confronto precoce na batalha pela desinformação na disputada temporada eleitoral deste ano.

“O que os candidatos fazem nas mídias sociais será decisivo”, disse Carlos Merlo, sócio-gerente da Victory Lab, uma empresa de marketing dedicada à divulgação de conteúdos virais, dizendo que eles devem responder mais rápido do que nunca à desinformação.

Há muita coisa em jogo na votação de 1º de julho: mais de 3,4 mil cargos eletivos nos níveis local, estadual e federal, mais do que em qualquer outra eleição na história mexicana. O maior prêmio é a presidência, com cinco candidatos na disputa para suceder o presidente Enrique Peña Nieto, por um mandato de seis anos.

As fake news [notícias falsas] vêm fluindo rapidamente, e as campanhas trocaram acusações de terem contratado agitadores online, os chamados trolls, e usado programas automatizados, conhecidos como bots, para inundar as plataformas das mídias sociais com mensagens cuja intenção é enganar e manipular os eleitores.

E, enquanto investigadores nos Estados Unidos tentam entender a extensão dos esforços russos para influenciar a eleição presidencial de 2016, a ameaça de interferência russa também pairou sobre a corrida eleitoral mexicana.

Em um discurso em dezembro, o tenente-general H. R. McMaster, então conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos, disse que havia “sinais iniciais” de que o governo russo estava tentando influenciar a eleição mexicana, mas não forneceu nenhum detalhe.

Autoridades mexicanas disseram que não encontraram provas de interferência russa, nem receberam qualquer evidência de suas contrapartes americanas. As autoridades russas negaram participação em tal atividade.

Mas Enrique Andrade, do Instituto Nacional Eleitoral do México, disse que a agência está a postos contra qualquer interferência. “Achamos que é uma possibilidade e estamos nos preparando para que isso não afete o processo”, disse ele.

Alguns analistas acreditam que a Rússia ainda pode tentar perturbar a região, intensificando a polarização política no México antes da votação. E dizem também que os russos podem ver Andrés Manuel López Obrador, favorito nas pesquisas e mais antagônico em relação aos Estados Unidos, como um veículo útil para esse objetivo.

O estrategista digital Manuel Cossío Ramos afirma ter encontrado impressões digitais russas no tráfego de mídia social a respeito da eleição, em grande parte sobre López Obrador. Cossío não é afiliado a nenhuma campanha presidencial, mas disse não ser fã de López Obrador.

Usando uma ferramenta de análise chamada NetBase, Cossío disse ter descoberto que, no mês de abril, 4,8 milhões de menções a López Obrador haviam sido publicadas nas mídias sociais e em sites de notícias por usuários de fora do México. Segundo ele, cerca de 63% estavam associadas a usuários da Rússia e 20% da Ucrânia.

As pesquisas por dois outros candidatos importantes, Ricardo Anaya e José Antonio Meade, revelaram que a maior parte da atividade estrangeira vinha dos Estados Unidos, com apenas 4% vindo da Rússia, disse Cossío.

Mas outros consultores digitais disseram que não encontraram provas de envolvimento russo nas atividades relacionadas à eleição nas mídias sociais, e as descobertas de Cossío não puderam ser verificadas de maneira independente.

Representantes da campanha de López Obrador classificaram suas conclusões como tendenciosas.

López Obrador respondeu às acusações com sarcasmo, postando um vídeo no Twitter que o mostrava em um porto em Veracruz, esperando por um submarino russo que iria lhe trazer “ouro de Moscou”.

As notícias falsas que circularam no México incluem uma afirmação de que o papa Francisco criticou a ideologia política de López Obrador. (Ele não o fez, de acordo com o Verificado 2018, um grupo de checagem de fatos.)

Iván Santiesteban, desenvolvedor de internet mexicano, concluiu que cerca de 20 mil bots foram utilizados nos 45 dias anteriores à eleição de 2012, para gerar conversas online favoráveis a Peña Nieto.

Desde então, o público online quase dobrou, de 40,9 milhões de usuários de internet no México em 2012 para cerca de 71,3 milhões, de acordo com os dados mais recentes do censo. Ao mesmo tempo, as campanhas se tornaram mais adeptas das estratégias online.

“A partir daqui, a batalha será travada nas redes sociais”, disse Javier Murillo, fundador e presidente da Metrics, uma consultoria de tecnologia digital do México.

Usando algoritmos patenteados, Murillo disse ter descoberto que bots e trolls geraram até 27% das postagens eleitorais de Facebook e Twitter no México, durante um período de trinta dias nos últimos meses.

Os consultores digitais que trabalham para as campanhas dos três principais candidatos à presidência - Lopez Obrador, Anaya e Meade - negaram que estejam utilizando esses métodos ou divulgando notícias falsas.

As autoridades mexicanas chegaram a acordos com o Facebook, o Twitter e o Google sobre maneiras de combater notícias falsas e de difundir informações verdadeiras. O Facebook, como parte de seu acordo, colocou anúncios em jornais mexicanos nesta primavera, dando orientações sobre como detectar notícias falsas.

As autoridades eleitorais estão particularmente preocupadas com os rumores que parecem prejudicar a integridade do sistema. A mensagem sobre o registro de eleitores este ano foi sua maior preocupação até agora, disse Andrade, do Instituto Nacional Eleitoral.“Mas vale repetir: estamos apenas começando o processo eleitoral”, advertiu ele.

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