Tara Todras-Whitehill para The New York Times
Tara Todras-Whitehill para The New York Times

Base de drones dos Estados Unidos vira nova força militar na África

Forças especiais do exército treinam tropas nigerinas para combater ameaças extremistas

Eric Schmitt, The New York Times

11 Maio 2018 | 10h15

BASE AÉREA 201, Níger - Erguendo-se do cerrado africano, a base de drones quase pronta representa a mais nova linha de frente da guerra global dos Estados Unidos.

Centenas de operários estão trabalhando em ritmo frenético para concluir um campo de pouso de 110 milhões de dólares que, uma vez terminado, nos próximos meses, será usado para perseguir ou atacar extremistas no oeste e no norte da África. Perto da pista, os Boinas Verdes do exército americano treinam forças nigerinas para realizar ataques antiterroristas ou prevenir emboscadas do inimigo - como a que matou quatro soldados americanos perto da fronteira com o Mali, em outubro.

Essas missões refletem um desdobramento militar americano em lugares remotos, como o Iêmen, a Somália e o oeste da África. Somente no Níger, o número de soldados dos Estados Unidos duplicou nos últimos anos, para cerca de 800 - e não para realizar missões de combate unilaterais, mas sim para combater a Al Qaeda, o Estado Islâmico e grupos associados, fazendo uso da chamada “guerra por procuração” e de ataques com drones.

“A base e os voos mais frequentes nos darão muito mais consciência situacional e inteligência em uma região que tem sido centro de atividades ilícitas e extremistas”, disse P. W. Singer, estrategista da New America, um centro de pesquisa de Washington, que publicou inúmeros trabalhos sobre drones. 

“Mas também nos envolverá ainda mais em operações e conflitos dos quais poucos americanos estão cientes”.

Em março, foi revelado que os Estados Unidos realizaram quatro ataques aéreos na Líbia entre setembro e janeiro. Logo depois, os militares reconheceram que Boinas Verdes trabalhando ao lado de forças nigerinas mataram onze militantes do Estado Islâmico em um tiroteio em dezembro.

Essa batalha - juntamente com pelo menos dez outros ataques, até então não relatados, às tropas americanas na África Ocidental entre 2015 e 2017 - chamou atenção para o fato de que a emboscada mortal no Níger não foi um episódio isolado. As forças nigerinas e seus conselheiros americanos estão preparando outras operações importantes para eliminar os militantes, dizem as autoridades militares.

Durante um recente exercício de contraterrorismo que mobilizou militares de 20 países africanos e ocidentais no Níger, muitas autoridades expressaram preocupações com a possibilidade de um impulso americano para se retirar de seus compromissos na África Ocidental. “Ainda é importante ter o apoio dos Estados Unidos para ajudar a treinar meus homens, para ajudar com nossas deficiências”, disse o coronel Moussa Salaou Barmou, comandante das forças de Operações Especiais do Níger.

A construção de uma nova base nesse país remoto e sem litoral abre o mais recente capítulo da história das operações de drones dos Estados Unidos em todo o mundo. O número de ataques americanos contra militantes islâmicos no ano passado triplicou no Iêmen e dobrou na Somália em relação ao ano anterior.

Enquanto autoridades dos Estados Unidos e do Níger veem as operações de drones como uma forma de aumentar a segurança, outras temem um impacto potencialmente desestabilizador. “Eliminar os líderes militares jihadistas por meio de operações de drones pode desorganizar temporariamente os grupos insurgentes", disse Jean-Hervé Jezequel, vice-diretor do Grupo de Crise Internacional da África Ocidental, em Dakar, Senegal. “Mas, no fim das contas, o vazio também pode acarretar o surgimento de líderes novos e mais jovens, que provavelmente se lançarão a operações mais violentas e espetaculares para afirmar sua liderança”.

Uma visita à Base Aérea 201, em março, revelou desafios. Os comandantes enfrentam tempestades de areia, temperaturas escaldantes e demora na entrega de peças para consertar equipamentos. Tudo isso deixou o projeto mais de um ano atrasado e 22 milhões de dólares acima do orçamento. Os americanos tentaram acalmar os receios dos moradores de que a base, perto da cidade de Agadez, poderia ser alvo de ataques terroristas.

Bill Roggio, editor de um site que acompanha ataques militares contra grupos militantes, disse que as operações de drones em Agadez têm duas vantagens principais. Em primeiro lugar, a base terá uma localização central para conduzir operações em todo o Sahel, uma vasta área do Saara que foi tomada por uma onda de terrorismo. Em segundo lugar, Agadez está isolada, o que mantém as operações longe de olhares indiscretos.

O plano é, no futuro, passar a Base Aérea 201 para os militares do Níger. Forças de segurança americanas e nigerinas agora patrulham conjuntamente uma área de 890 hectares. Uma equipe de assuntos civis trabalhou em estreita colaboração com líderes civis, religiosos e educacionais em Agadez para ajudar contornar os problemas do alto índice de desemprego e das escolas mal equipadas - deficiências que os extremistas podem explorar.

Depois do recente exercício militar, o Major-General J. Marcus Hicks, chefe das forças de Operações Especiais americanas na África, definiu a situação da seguinte maneira: “Esta é uma apólice de seguro muito barata, e acho que precisamos continuar pagando por ela”.

Helene Cooper e Thomas Gibbons-Neff contribuíram com a reportagem.

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