Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Cálculo de mortos em guerra na Síria é um desafio para observadores

Após sete anos de uma guerra cada vez mais complexa, a contagem parece ter sido interrompida

Megan Specia, The New York Times

18 Abril 2018 | 15h15

Em sete anos, o número de mortos foi aumentando, do primeiro punhado de manifestantes executados pelas forças do governo às centenas de milhares de civis. Mas à medida que a guerra se arrastava, alastrando-se e tornando-se mais complexa, muitas organizações de observadores internacionais pararam na maior parte de contá-los.

A própria ONU, que nos primeiros anos da guerra fornecia regularmente a contagem das mortes, apresentou sua última estimativa em 2016 - baseada em parte nos dados de 2014 - afirmando que era praticamente impossível verificar quantos haviam morrido. Na época, segundo avaliação de um funcionário das Nações Unidas, haviam morrido 400 mil civis.

Mas desde então, a guerra teve graves e profundas reviravoltas. Nos dois últimos anos, o governo do presidente Bashar al-Assad, com a ajuda da Rússia, cercou as áreas residenciais de Aleppo, outrora a segunda maior cidade do país, e várias outras, arrasando bairros inteiros. No início deste mês, dezenas de pessoas morreram em consequência de um suposto ataque com armas químicas em um subúrbio de Damasco, levando Estados Unidos, Grã-Bretanha e França a lançar mísseis em retaliação contra alvos sírios, no dia 14 de abril.

Forças americanas bombardearam o Estado Islâmico em grandes partes do leste da Síria, em ações que, ao que se supõe, deixaram milhares de mortos. E dezenas de grupos armados, inclusive combatentes apoiados pelo Irã, prosseguiram com os confrontos, criando uma catástrofe que o mundo tem dificuldade para calcular.

Do ponto de vista histórico, estes números são fundamentais, afirmam os especialistas, porque podem ter um impacto direto na política, na confiabilidade e no sentimento global de urgência. O legado do Holocausto tornou-se indissociavelmente ligado ao total de 6 milhões de judeus mortos na Europa. O número espantoso do genocídio ruandês - 1 milhão de tutsis foram mortos em 100 dias - marcou a fogo o processo de reconciliação.

Os defensores dos direitos humanos temem que, sem um levantamento claro das mortes, o conflito simplesmente continuará se arrastando.

“Considerando os conflitos que se travam no mundo todo, sabemos que não poderemos esperar uma paz duradoura se não soubermos a quem responsabilizar por estas cifras”, afirmou Anna Nolan, diretora do grupo de defesa dos direitos humanos The Syria Campaign. “O problema mais crucial para entender esta situação é quem está sendo morto e quem causa estas mortes, e sem esta informação, não poderemos esperar que as pessoas envolvidas resolvam o conflito tomando as decisões certas”.

Até lá, os grupos locais procurarão trabalhar com as mais precisas estimativas possíveis. Fadel Abdul Ghany, fundador da Rede Síria dos Direitos Humanos, contou que tem havido “dezenas de incidentes diários” que elevam o número de mortos, e que o monitoramento é imprescindível para que se possa responsabilizar seus autores.

Ele considera valioso o levantamento feito pelo grupo. “Estamos fazendo isso principalmente para o nosso povo para a nossa comunidade, para a história”, afirmou Ghany. “Estamos registrando estes relatos a fim de poder dizer, neste dia de 2018, o número de pessoas mortas, as causas e em quais áreas".

O último total aceito internacionalmente - 470 mil mortos - foi fornecido pelo Centro Sírio de Pesquisa Política em 2016. O grupo era considerado há tempos uma das fontes mais confiáveis porque não está ligado ao governo ou a qualquer outra facção adversária. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos informou, no mês passado, que pelo menos 511 mil pessoas morreram na guerra. Muitas organizações confiam nesta contagem com a melhor avaliação corrente.

Embora os números variem, todos os grupos concordam que o governo sírio é responsável pela maioria das mortes de civis.“Falamos frequentemente desta cifra, 400 mil, ou 500 mil, mas também é preciso levar em conta o estresse que está por trás de cada um destes números”, afirmou Panos Moumtzis, assistente do secretário-geral da ONU. “Na realidade, não passa de um número frio, mas por trás dele há vidas”.

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