Annabel Clark para The New York Times
Annabel Clark para The New York Times

Casamento debaixo do viaduto

Casal de desabrigados se apaixona e voluntários fazem a festa

Candice Pires, The New York Times

04 Maio 2018 | 15h45

Três dias antes da cerimônia de casamento, o vestido de Michelle Vestal e o terno de Bob J. Kitcheon foram roubados. A maioria dos casais teria entrado em pânico, mas eles levaram na boa. “As coisas estão sempre sumindo por aqui”, disse Kitcheon, dando de ombros. Ele e Vestal moram em uma barraca ao lado de um estacionamento na zona sul de Seattle, a poucos minutos de carro do centro da cidade.

Mark Lloyd, morador local, voluntário e, agora, também amigo do casal, tomou providências. Deu uma camisa a Kitcheon e levou os dois à loja da Goodwill. Ali, o noivo e a noiva ajudaram um ao outro a escolher roupas novas, como de costume no relacionamento.

Vestal, 50 anos, e Kitcheon, 61, se conheceram há seis anos, sob o relógio da estação King Street, em Seattle. Em fevereiro passado, sob a mesma torre de relógio, Kitcheon a pediu em casamento. No dia em que se conheceram, ele estava chegando de Phoenix, onde morava na época, para o Hempfest, festival anual pela descriminalização da maconha. Vestal disse a Kitcheon que tinha maconha para vender e ele lhe deu 10 dólares. Ela disse que na época era viciada em crack. E que roubou o dinheiro dele.

Mas Kitcheon não ficou chateado. Um pouco depois, eles passaram algumas horas juntos em uma lavanderia. “A coisa de que mais me lembro é do cheiro dele naquele dia”, disse Vestal. “Ainda me deixa meio tonta”.

Vestal, nascida em Barrow, no Alasca, foi adotada logo depois do nascimento. Seu pai biológico “não era muito legal” com ela e sua mãe “estava sempre chapada”. Em 1985, ela se mudou para Seattle, onde vive desde então, quase sempre desabrigada. Já foi casada cinco vezes e tem oito filhos.

Kitcheon, nativo de Los Angeles, só se casou uma vez. Sua primeira esposa morreu há 25 anos. Ele tem 10 filhos.

Os desafios práticos de morar na rua aproximaram o casal. “Ele faz tudo por mim”, disse ela. “Garante que eu tenha comida para comer e roupa para vestir. E pinta minhas unhas dos pés”.

Quando lhe perguntaram por que a pedira em casamento em fevereiro passado, ele disse: “Porque posso confiar nela”.

A cinco minutos a pé do lugar onde mora o casal, um grupo de cerca de 20 moradores locais realiza um almoço de domingo para pessoas desabrigadas. “Quando eles nos disseram que queriam se casar, todo o grupo ficou doido para fazer tudo aqui”, disse Lloyd.

No domingo, 18 de março, depois do almoço, os dois se casaram em cerimônia realizada por Vicki Butler, voluntária local e decana associada da Universidade da Cidade de Seattle. (Foi durante a reunião em sua casa para planejar o casamento que as roupas do casal foram roubadas.)

Voluntários e convidados montaram uma tenda com fios de luzes e guirlandas de papel azul e branco. Lloyd comprou toalhas de mesa brancas. Outros voluntários forneceram velas, flores de lapela e arranjos de flores para as mesas, além de sidra espumante para os brindes.

A daminha de honra, Adelaide, 2 anos, sempre aparece nos almoços semanais. Ela, a irmã mais nova e seus pais, Leslie e Austin Dekle, também moram em uma barraca. A família, original da Geórgia, está na rua desde julho de 2015.

Pouco antes da cerimônia, o noivo perguntou à noiva se ela tinha pés frios – e logo emendou: “Tenho uns aquecedores de mão que você pode enfiar nas suas botas, se você quiser”.

Os votos foram uma declaração simples, feita com os olhos cheios d’água: “Eu sempre amarei você para sempre”. Carros passaram buzinando quando a vela da união do casal se acendeu e Butler os declarou marido e mulher. Os convidados sopraram bolhas de sabão enquanto “Always and Forever”, de Heatwave, tocava em alto-falantes portáteis e os dois se abraçavam forte e dançavam.

Depois da cerimônia, o casal caminhou pela rua movimentada de volta para sua barraca, levando sobras de comida, flores e aparelho de som portátil, presente dos Butler. “Para mim, é difícil ser feliz”, disse Vestal, “mas, com esse homem, eu sou feliz”.

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