Mitch Smith/The New York Times
Mitch Smith/The New York Times

Das fazendas aos gramados, voluntários chegam para ajudar

Doações de tempo, dinheiro e feno para os necessitados

Alan Mattingly, The New York Times

06 Maio 2018 | 10h00

Dizem que boas cercas produzem bons vizinhos. Mas o que acontece depois que um incêndio destrói todas as cercas, além de tudo mais que encontra pelo caminho?

Para os agricultores das planícies americanas, a boa notícia é que não há mais nada impedindo a aproximação dos vizinhos. O que é ótimo, pois eles trazem doações de feno muito necessárias. A prática já se tornou um ritual, observado novamente no mês passado depois que incêndios varreram o oeste de Oklahoma. Entre os maiores estragos causados pelo fogo estão os pastos dos quais o gado depende para se alimentar. A reconstrução dos celeiros (e das cercas) pode esperar, mas as vacas precisam comer.

E assim vêm chegando os caminhões, alguns deles percorrendo centenas de quilômetros. Eles chegam sem serem convocados, sem cobrar nada, pilotados por pessoas como Levi Smith e o irmão, Blake, que conhecem os dois lados dessa moeda. A terra deles pegou fogo no ano passado, mas seu gado sobreviveu graças às doações de feno feitas por desconhecidos. Assim, quando ocorreu o mais recente desastre, eles carregaram duas caminhonetes grandes com feno e percorreram 160 quilômetros até a cidade de Vici.

“Quando chegam os carregamentos de feno, as esperanças se reforçam”, disse Levi ao Times.

A viagem até Oklahoma foi um pouco mais longa para Matt Schaller, que trouxe feno de Michigan, a 1,8 mil quilômetros de distância. Ele fez entregas semelhantes no ano passado depois que incêndios atingiram o Kansas. “É o que temos de fazer", disse ele.

Leo Hale, que ajudava a distribuir o feno a partir da praça de rodeios de Vici, disse que essas iniciativas de voluntários são mais eficazes do que a alternativa. “Se esperássemos pelo governo, essa ajuda não chegaria", disse ele.

Esse tipo de mentalidade ganha força no Alasca, onde a vastidão do território pode limitar a capacidade de resposta do governo. Alguns moradores da capital, Anchorage, cidade de aproximadamente 300 mil habitantes, estão lidando sozinhos com a alta na criminalidade. Os casos de roubo de carros aumentaram muito, e Floyd H. Hall, 53 anos, que trabalha nos serviços de remoção da neve, transformou o problema numa oportunidade para o voluntariado.

Ele disse que passa de quatro a seis horas por dia trabalhando com outros para rastrear veículos roubados e, somente este ano, já localizou 75 deles. Um ladrão chegou a atirar contra ele, e a polícia diz que ele e os demais deveriam evitar tais situações de perigo. Mas, para muitos na comunidade, Hall é um herói, ainda que o próprio não enxergue as coisas dessa maneira. “Qualquer um pode fazer isso, não sou ninguém especial", disse Hall ao Times.

Às vezes os problemas comunitários não são graves como o crime e os desastres naturais. Há momentos em que o que está em jogo é o espírito de uma comunidade. Foi o caso de Kongens Lyngby, na Dinamarca, quando o time de futebol da cidade, Lyngby B.K., fundado há mais de cem anos, quase fechou as portas em fevereiro.

A equipe estava sem dinheiro. Alguns jogadores tinham abandonado o time; outros resistiam enquanto era possível. O fim estava próximo.

O diretor esportivo do clube, Birger Jorgenson, fez um telefonema noturno para Mads Byder, cuja empresa de relações públicas chegou a patrocinar as camisas azuis do time. “Soube que você tem um imenso coração azul", disse-lhe Jorgensen.

Byder queria fazer algo pelo time em troca de tantas memórias marcantes. “Eu estava preparado para arcar com a conta", disse ele ao Times. Mas era impossível fazê-lo sozinho. Numa sequência de mensagens de texto, ele criou a associação de Amigos do Lyngby, um grupo de pequenos investidores dispostos a correr um risco sem olhar para os números.

Não surpreende que, ao falar da equipe, os jogadores se refiram a todos como uma família. “Não se pode pedir a um dinamarquês que explique a palavra 'hygge'", disse um deles, Thomas Sorensen. “É difícil expressar em palavras, mas é como uma sensação de pertencimento.” 

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