Matthew Abbott para The New York Times
Matthew Abbott para The New York Times

Empresa cria leite personalizado para mamíferos exóticos da Austrália

Leite de vaca pode prejudicar coalas e cangurus criados em cativeiro

Serena Solomon, The New York Times

20 Março 2018 | 10h00

ADELAIDE, Austrália - Um grande ornamento de coala no jardim da frente dá uma ideia do que os visitantes encontrarão quando passarem pela garagem da casa de Anne e Don Bigham em Glengowrie, na Austrália.

No quintal, há dois cercados com aproximadamente 20 coalas. Anne Bigham, cuidadora de animais selvagens, muitas vezes pode ser vista no local segurando um filhote de coala órfão que suga furiosamente o leite de uma mamadeira.

Há 30 anos, aquele leite teria vindo exclusivamente de uma vaca, provocando diarreia e outros problemas intestinais nos "joey" como são chamados os filhotes de coala. Mas hoje, o que eles bebem é uma fórmula láctea em pó que respeita a composição de gordura, proteína e açúcar do leite da coala-mãe.

A Wombaroo, empresa familiar local que produz o leite, tem uma crescente difusão internacional em seu nicho: as fórmulas lácteas em pó para filhotes de animais exóticos. Sua lista de produtos varia de leite para leões a leite para cangurus e leite para pandas.

A companhia é uma das poucas organizações ao redor do mundo que se dedicam a pesquisas nesta área, em uma corrida contra o tempo para dar aos filhotes de espécies ameaçadas, criados individualmente, a maior chance de sobreviver.

“Existem 4 mil espécies de mamíferos”, disse Gordon Rich, 42, um dos proprietários da Wombaroo. “E para cada uma delas, o leite é diferente. O que constitui um enorme espectro”.

O pai de Rich, Brian Rich, um bioquímico, começou a Wombaroo em 1984, depois de seguir toda uma carreira de farmacêutico. O que impulsionou a necessidade de fórmulas específicas para determinada espécie foi o fato de que os cangurus não conseguiam digerir a lactose do leite de vaca.

“O empreendimento começou como um interesse pessoal e depois veio a demanda”, disse Rich, 78. “No início fazíamos, literalmente, as fórmulas sobre a mesa da cozinha”.

Depois dos cangurus, vieram as fórmulas para as echidnas, os petauros, os vombates (marsupial) e outros animais nativos da Austrália. Algumas espécies, como os coalas, têm poucas fórmulas disponíveis, o que reflete a mudança do leite da mãe à medida que os filhotes se desenvolvem. A base de cada fórmula da Wombaroo deriva do leite de vaca. 

Entretanto, a ele é acrescentada uma mistura específica de diferentes nutrientes, gorduras, proteínas e açúcares, como óleo vegetal e proteína do soro.

Bastam alguns dias aos pesquisadores da Wombaroo para criar e manufaturar uma nova fórmula. Em primeiro lugar, eles estudam se foi feita uma pesquisa e uma análise do leite para aquela espécie particular. Se não existe pesquisa, eles procuram os animais que poderiam ter um leite semelhante. As combinações podem surpreender, como usar a composição de leite de égua como base para criar alguma coisa para um filhote de rinoceronte. Os dois animais têm sistemas digestivos e estilos de vida que se parecem.

Como a atividade humana continua pressionando os habitats animais em todo o mundo, é provável que outras espécies precisem ser criadas por cuidadores nos zoológicos.

No ano passado, Francis Cabana, nutricionista de animais na Wildlife Reserves Singapore, trabalhou na Wombaroo com a tarefa de produzir um leite em pó para dois peixes bois.

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