Malin Fezehai/New York Times
Malin Fezehai/New York Times

Encenando arte arcaica ‘para os deuses’

Uma trupe operística formada por chineses e tailandeses preserva uma das mais antigas formas de arte dramática

Malin Fezehai, The New York Times

13 Maio 2018 | 10h45

BANGCOC - “Onde quer que eles se apresentem em Bangcoc, estarei na plateia", disse Warin Nithihiranyakul, 73 , fã da trupe de ópera chinesa Sai Yong Hong há mais de dez anos. Enquanto aguarda a chegada dos amigos, ele ajuda distribuindo as cadeiras de plástico vermelho que o público vai ocupar ao assistir à apresentação, ao sul do bairro chinês de Bangcoc.

Depois de 11 anos acompanhando a trupe, Wandee Tengyodwanich, 62 anos, desembrulha pratos com bolo chinês, distribuindo-os antes da apresentação. Ela diz que a trupe Sai Yong Hong é o melhor grupo de ópera chinesa da Tailândia, pois investe num figurino elaborado.

Eles fazem parte de uma comunidade cada vez menor que se formou em torno da ópera chinesa na Tailândia. Preservam uma peça fundamental da cultura e do patrimônio que remonta à dinastia Tang, do século 7º, o que faz dela uma das formas de arte dramática mais antigas do mundo.

As apresentações são o produto de uma grande diáspora chinesa. A trupe Sai Yong Hong é um dos cerca de 20 grupos de ópera chinesa na Tailândia. O público é formado principalmente por adultos sino-tailandeses mais velhos, e alguns deles levam os netos para apresentar a eles uma memória cultural.

A imigração chinesa para a Tailândia remonta ao século 13. Hoje, cerca de 14% da população do país é de etnia chinesa, o que faz da Tailândia o lar de uma das maiores comunidades chinesas do mundo fora da China.

Numa tarde recente, os atores passaram duas horas aplicando maquiagem no camarim, transformando-se em deuses e deusas, heróis e vilões do folclore e da mitologia chinesa. Perto das 19h30, os atores e atrizes subiram no palco e a apresentação começou.

A peça misturava artes marciais, canto e dança, acompanhados por música tocada em instrumentos chineses tradicionais como o hammered dulcimer and the four-stringed pipa. O enredo é adaptado de histórias do folclore chinês, mas algumas são adaptações de filmes indianos. Os diálogos são encenados no dialeto Teochew, nascido no sul da China.

A trupe Sai Yong Hong é uma das mais conhecidas da Tailândia. É formada por 34 atores, dos quais cinco são chineses e os demais, tailandeses. O empresário, Tatchai Obthong, 52, disse que na época de sua juventude, as trupes chegavam a ter cem atores.

“Não gostei: era tudo muito estridente e assustador", disse ele a respeito da primeira vez que viu um espetáculo de ópera chinesa na infância. De ascendência chinesa e tailandesa, Tatchai está envolvido com a indústria desde os sete anos. 

A mãe abandonou o pai e era viciada em jogatina. Num momento de dificuldade na vida, ela levou para ver uma apresentação. Ao fim da noite, a mãe lhe disse que ele ficaria com a trupe. “Minha mãe me vendeu por 6 mil baht", ou cerca de US$ 190, contou Tatchai. Ele logo percebeu que, para sobreviver, teria de aprender os truques e a linguagem dessa forma de arte. 

As apresentações são gratuitas: são encomendadas por santuários de Bangcoc e, às vezes, de outras regiões do país. 

“Nossas apresentações não são para o público, e sim para os deuses", disse Tatchai. A trupe inteira recebe 20 mil baht (cerca de US$ 640) por noite.

Para muitos atores, o palco é como o lar. “Agora estamos na alta temporada e, por isso, viajamos juntos o tempo todo", comentou.

Um dos atores, Somsak Saetae, 62 , está na indústria desde os oito anos e acompanhou sua evolução.

“No passado, as mulheres não podiam colorar os pés no palco da ópera chinesa, e todo o elenco era composto por homens", disse.

Hoje em dia, até alguns dos papéis masculinos são interpretados por mulheres, como Malee Saewong, 53, que faz parte da trupe há apenas quatro anos, mas atuou em outras trupes desde os 14 anos de idade.

“Agora estou velha e posso interpretar personagens masculinos, mas é mais fácil, pois não é necessário se preocupar com o penteado", disse Malee.

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