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Estudo indica que povo Bajau tem órgãos adaptados para mergulho em profundidade 

Pesquisadora descobre órgãos adaptados para a vida na água

Carl Zimmer, The New York Times

01 Maio 2018 | 10h15

Conforme os cientistas analisam cada vez mais profundamente nossos genes, eles descobrem situações em que a humanidade teria evoluído nos milhares de anos mais recentes. Os povos do Tibete e das terras altas da Etiópia se adaptaram à vida em meio à altitude. Os pastores de gado na África Oriental e no Norte da Europa desenvolveram uma mutação que lhes permite digerir o leite quando adultos.

E, na revista científica Cell, uma equipe de pesquisadores relatou que um grupo de habitantes da costa evoluiu de modo que seus membros se tornaram mergulhadores melhores. Os Bajau, como são conhecidos, são um povo de centenas de milhares espalhados pela Indonésia, Malásia e Filipinas. 

Costumavam viver em barcos, mas recentemente, passaram a construir também casas sobre palafitas no litoral. 

“Simplesmente sentem-se estranhos em terra firme", disse Rodney C. Jubilado, antropólogo da Universidade do Havaí que não participou do novo estudo. Ele conheceu os Bajau durante a infância nas Filipinas. Eles ganhavam a vida como mergulhadores, pescadores de peixes e de mariscos.

“Era fascinante ver como eles conseguiam permanecer debaixo da água por muito mais tempo do que nós, ilhéus", disse o Dr. Jubilado. Os mergulhadores Bajau já foram vistos mergulhando a profundidades de mais de 60 metros, usando apenas óculos de madeira.

Em 2015, Melissa Ilardo, que então era estudante de pós-graduação em genética na Universidade de Copenhague, imaginou se séculos de mergulho teriam levado à evolução de características que tornariam essa atividade mais fácil para eles. Ela viajou até Sulawesi, na Indonésia, e foi em seguida a uma ilha de recifes de coral, onde chegou a um vilarejo Bajau. Ela apresentou sua proposta de estudo, e os moradores concordaram. 

Ao submergirem, as pessoas respondem com o chamado reflexo do mergulho: o batimento cardíaco desacelera e os vasos sanguíneos se contraem para reduzir a circulação para os órgãos vitais. O baço também se contrai, jogando na circulação um suprimento de glóbulos vermelhos ricos em oxigênio. 

Todos os mamíferos têm o reflexo do mergulho, mas, nos mamíferos marinhos, essa reação é particularmente forte. Parece que as focas com baços maiores conseguem mergulhar mais fundo.

A Dra. Ilardo realizou exames de ultrassom do abdômen dos Bajau e então viajou para o interior da ilha, habitado por agricultores conhecidos como Saluan. O baço dos Bajau era cerca de 50% maior que o dos Saluan. Tal diferença pode não ser o resultado da evolução. A própria atividade do mergulho pode levar ao aumento do baço. Mas apenas alguns dos Bajau são mergulhadores. Outros, como professores e lojistas, nunca mergulharam. E eles também apresentaram baços maiores, descobriu a Dra. Ilardo. É provável que esta seja uma característica de nascença dos Bajau.

A Dra. Ilardo também analisou o DNA. Ela descobriu que uma série de variações genéticas se tornaram particularmente comuns entre os Bajau. Uma variação de um gene conhecido como PDE10A influencia o tamanho de seus baços. Aqueles com uma cópia do gene mutante tinham baços maiores do que aqueles sem cópias do gene. O baço daqueles com duas cópias do gene era ainda maior.

A Dra. Ilardo suspeita que a seleção natural tenha favorecido a variante do PDE10A nos Bajau, porque o mergulho até tais profundidade é muito arriscado. “Eu diria que, por mais que isso soe mórbido, se eles não tivessem essa característica, o mergulho os mataria", disse ela.

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