Museu de Belas Artes de Boston, via The New York Times
Museu de Belas Artes de Boston, via The New York Times

FBI resolve enigma envolvendo múmia egípcia

Uma cientista forense do FBI encontrou a solução para o mistério sobre a posse da cabeça de uma múmia com mais de 4 mil anos

Nicholas St. Fleur, The New York Times

15 Abril 2018 | 10h30

Em 1915, uma equipe de arqueólogos americanos que escavava a ancestral necrópole egípcia de Deir el-Bersha se deparou com uma tumba secreta. Dentro da apertada câmara mortuária, eles foram saudados pela cabeça decepada de uma múmia pousada sobre um caixão de cedro.

O salão era o lugar do descanso final de um governador chamado Djehutynakht e sua mulher. Em algum momento dos 4 mil anos de repouso do casal, ladrões de tumbas pilharam o ouro e as joias de sua câmara. Os saqueadores jogaram um torso mumificado num canto antes de incendiar o recinto.

Os arqueólogos recolheram caixões com pinturas e estatuetas de madeira. Mandaram o material para o Museu de Belas Artes de Boston, em 1921. A maior parte da coleção ficou guardada até 2009, quando o museu a exibiu. Apesar de o torso ter ficado no Egito, a cabeça virou a estrela do espetáculo. Com sobrancelhas pintadas, expressão sóbria e cabelos ondulados revelados pelas bandagens esfarrapadas, a cabeça confrontou os frequentadores do museu com um mistério.

“A cabeça foi encontrada sobre o caixão do governador, mas nunca tivemos certeza se pertencia a ele ou a ela”, afirmou Rita Freed, uma das curadoras do museu. A equipe do museu concluiu que somente um teste de DNA poderia determinar se a cabeça posta em exibição pertencia ao Sr. ou à Sra. Djehutynakht.“O problema era que naquele momento, em 2009, nunca tinha havido uma extração bem-sucedida de DNA de uma múmia de 4 mil anos”, contou Rita.

Múmias egípcias representam um desafio singular, porque o tórrido clima do deserto degrada seu DNA rapidamente. Tentativas anteriores de obter esse DNA ancestral falharam ou produziram resultados contaminados por DNA moderno. Para solucionar o caso, o museu pediu ajuda ao FBI, que nunca tinha trabalhado com amostras tão antigas.

“Honestamente, eu não esperava que isso funcionasse, porque, naquela época, havia essa certeza de que não era possível obter DNA de restos mortais do Egito Antigo”, afirmou Odile Loreille, cientista forense do FBI. Mas, na edição de março da revista Genes, Odile e suas colegas relataram que tinham obtido o DNA ancestral da cabeça.

Acredita-se que o governador Djehutynakht e sua mulher, a Sra. Djehutynakht, viveram em torno do ano 2000 a.C., administrando uma província do Alto Egito.

“O caixão dele é uma clássica obra-prima de arte do Império Médio”, afirmou Marleen De Meyer, diretora-assistente de arqueologia do Instituto Holandês-Flamengo no Cairo, que entrou novamente na tumba em 2009. “Há elementos de um tipo raro de realismo”.

A câmara mortuária de Djehutynakht foi descoberta mais de um século atrás por arqueólogos que estavam explorando os rochedos de Deir el-Bersha, cerca de 290 quilômetros ao sul do Cairo, e se depararam com um túmulo escavado na pedra. Em seus relatos, eles afirmaram que as partes desmembradas de um corpo pertenciam a uma mulher, presumivelmente a Sra. Djehutynakht. Marleen suspeitou que a cabeça era do governador.

Enquanto preparava a exposição, em 2005, Rita entrou em contato com o Hospital Geral de Massachusetts. O sensor de tomografia computadorizada do centro hospitalar revelou que faltavam ossos da face e parte da articulação da mandíbula - elementos que poderiam determinar o sexo da múmia. Os médicos e a equipe do museu chegaram à conclusão de que a melhor maneira de obter o DNA da múmia seria por meio da extração de um molar.

Eles inseriram uma sonda com uma câmera a partir do fundo de sua boca. O primeiro dente que eles alcançaram não se mexia, então, o biólogo molecular Fabio Nunes, do Hospital Geral de Massachusetts, passou a tentar um outro molar. Ele agarrou o dente com um alicate odontológico, deu umas mexidas, virou de um lado para outro e “pop" - o molar descolou.

“Minha maior preocupação era: ‘Não deixe cair, não deixe cair, não deixe cair”, afirmou. Depois de Nunes manobrar o dente com sucesso pelo pescoço, para tirá-lo da múmia, todos na sala respiraram aliviados, com olhar fixo em seu tesouro.

Por vário anos, outras equipes de cientistas tentaram sem êxito obter DNA do molar. Então, a coroa do dente foi enviada a Odile, no laboratório do FBI em Quantico, Virgínia, em 2016. Ela perfurou o centro do dente e coletou um pouco do pó. Depois, ela dissolveu a poeira dental para fabricar uma biblioteca de DNA que a permitisse amplificar a quantidade de material genético com a qual estava trabalhando e levá-lo a níveis detectáveis. O DNA mostrava sinais de danos severos, o que confirmava que pertencia à múmia.     

Odile inseriu seus dados em um programa de computador que analisou a quantidade de cromossomos na amostra. “Quando o DNA é feminino, há mais registros de cromossomos X. Quando é masculino, há de X e Y”, afirmou. O programa respondeu: “masculino”. A cabeça mumificada e decepada tinha mesmo pertencido ao governador Djehutynakht.

“É quase como durante a gravidez, quando você descobre o sexo do bebê”, afirmou Nunes. “É um menino!”

Rita concordou. “Agora sabemos que temos aqui o próprio governador”, disse. “Já exibimos a cabeça no museu, mas agora teremos que mudar a etiqueta de identificação!”.

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