Alejandro Cartagena para The New York Times
Alejandro Cartagena para The New York Times

Jovem cientista trava brigas online com ativistas antivacinação

Marco Zozaya, 14, teceu críticas a pessoas que ligam vacinas ao autismo

Adrianne Jeffries, The New York Times

13 Abril 2018 | 15h15

Marco Zozaya ama ciência. Sua parede do quarto está coberta de fotos de cientistas. Quando ele crescer, quer ser um divulgador científico como Neil de Grasse Tyson. E por um momento, aos 12 anos, quando ele gravou um vídeo sobre vacinas em um iPad em seu quintal no nordeste do México, parecia que ele tinha tido um bom começo.

"Cada pedaço de evidência existente no universo observável de que as vacinas causam o autismo está dentro desta pasta", dizia ele no vídeo gravado há quase dois anos. Então, fingindo-se chocado, ele começava a mostrar as folhas de papel em branco. "Não há nada".

O vídeo teve 8 milhões de visualizações no Facebook e foi apresentado por HuffPost, CNN, Cosmopolitan e Latina.com. E foi aí que Zozaya descobriu que talvez não fosse explicar fatos científicos que a internet adorasse, mas o drama.

"Eu olho para trás e vejo que eu era realmente muito rude", disse Zozaya, agora com 14 anos. "Mas todo mundo ficou louco por isso".

Graças à internet, a ciência está mais acessível do que nunca, e uma nova geração de embaixadores da ciência encontrou um grande público. Mas eles enfrentam um enigma: as plataformas que ajudam a divulgar suas mensagens às vezes favorecem um estilo que inflama tanto quanto informa.

Os entusiastas da ciência criaram enormes audiências online não apenas porque apelam para a curiosidade humana, mas também porque têm um talento para o entretenimento. Muito do material científico que se torna viral é de “informação superficial com um encerramento impactante”, disse Yvette d'Entremont, que dirige o SciBabe, uma popular página do Facebook. 

Algumas dessas tendências podem resultar de algoritmos que promovem determinados tipos de conteúdo em detrimento de outros, geralmente para maximizar o tempo que os usuários passam em um site.

"O algoritmo está tentando fazer as pessoas reagirem, tentando fazer as pessoas se engajarem", disse Guillaume Chaslot, um ex-engenheiro do YouTube que agora defende uma maior responsabilidade pelas plataformas de tecnologia. “Quando você tem esses vídeos muito combativos, é muito eficiente para atrair as pessoas e elas assistirem”.

Depois que Zozaya postou seu vídeo, ativistas antivacinação deixaram comentários odiosos, acusaram-no de ser um cúmplice da indústria farmacêutica e até postaram informações pessoais sobre sua família. No início, ele entrou no debate alegremente, aplaudido por 65 mil novos fãs no Facebook.

Não foi apenas pelos pontos de vista, embora ele admita que esse aspecto foi gratificante. Como devoto do empirismo, Zozaya sentiu-se compelido a reagir contra o desacreditado vínculo entre vacinas contra o autismo. Ele também foi solidário com a comunidade do autismo.

"Pense nisso a partir da perspectiva deles", disse ele. "Há pessoas que dizem coisas como 'prefiro que meu filho morra de X doença mortal e seja contagioso e coloque todos os outros em perigo do que meu filho tenha essa condição com a qual você nasceu'".

Acontece que ele descobriu mais tarde que está no espectro do autismo.

E Zozaya então percebeu que não estava convencendo ninguém ao escolher essa abordagem mais agressiva. Mas quando ele mudou para vídeos mais informativos, sua audiência despencou.

"Fiquei muito desapontado", disse ele. “Eu achava que tinha um público formado principalmente por pessoas que amavam a ciência, porque era isso que eu originalmente queria construir. Eu sinceramente gostaria que as pessoas estivessem tão ligadas à ciência quanto a se confrontar umas com as outras”.

Mas, em janeiro, ele postou um vídeo rastreando a origem do mítico “ el chupacabra”, um monstro que diziam sugar o sangue do gado, e a vantagem evolucionária do medo. Teve cerca de 6.400 visualizações - não foi um viral, mas também não foi nada mal.

"Eu definitivamente vou continuar fazendo vídeos", disse ele.

Mais conteúdo sobre:
ciência vacinação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.