Pixabay
Pixabay

Japão revisita cultura dos anos 1980

Roupas com obreiras e música da chamada 'Década Perdida' estão em alta no país

Mari Saito, The New York Times

20 Abril 2018 | 15h00

TÓQUIO - Kaori Masukodera lembra de quando ia à praia com a mãe no conversível da família, cabelos ao vento e lábios vermelho vivos. Era o último estertor dos anos 1980, uma época de champagne, cores berrantes e músicas eletrizantes de discoteca na pista de dança, e a última vez que muitas pessoas no Japão se sentiriam felizes e desfrutando do sucesso na vida.

A chamada Década Perdida, e muitos anos de estagnação econômica depois, o conversível da família e as férias na praia ficaram muito para trás - mas Kaori agora ajuda a trazer de volta o que resta da era da bolha no Japão. Ela se apresenta com sua parceira em um duo de música popular chamado Bed In que usa profusamente teclados, bateria elétrica e cabos de alimentação dos anos 1980. Elas também se vestem segundo a moda daquele período: enchimentos enormes nos ombros, saias mínimas e tonalidades brilhantes ou apenas brilhantes.

“Até poucos anos atrás, a maioria das pessoas via a época da bolha como um legado negativo, uma era considerada brega”, disse Kaori, 32. “Isso mudou completamente nos últimos tempos. Agora as pessoas a reconhecem como uma espécie de período cool”.

O Japão se encontra atualmente no seu momento mais próspero das últimas décadas, a economia está se fortalecendo e as companhias procuram trabalhadores cada vez mais escassos. No entanto, para muitos no Japão, isso só mostra até que ponto o país caiu do pico que havia atingido nos anos 1980 - os salários  praticamente não sobem, as pessoas vivem muito mais, a população está encolhendo, e muitos estão convencidos de que os melhores dias do Japão acabaram.

Estes sentimentos contribuem para alimentar a nostalgia da época em que o Japão, pela última vez, esteve inquestionavelmente  no topo do mundo, e hoje participa da tendência global a revalorizar os anos 1980 em geral.

A moda das Bed In agora é uma presença fixa nas revistas locais. Trajes semelhantes aos dos anos 1980 predominam nas revistas de moda, como a versão japonesa da “Vogue”. Uma comediante muito conhecida, Nora Hirano, se tornou rapidamente famosa zombando daquela época, com seus ternos estereotipados de ombros grandes e corte quadrado, e celulares do tamanho de um tijolo. Sua roupa foi uma fantasia muito apreciada em Halloween, no ano passado.

E há também a Maharaja, uma cadeia de discotecas que deu origem a um boom de clubes do gênero há mais de 30 anos. Os clubes Maharaja reabriram em todo o Japão nos últimos cinco anos e atraem os nostálgicos da geração dos baby boomers, os curiosos da geração do milênio e turistas desavisados.

Por outro lado, jovens japoneses gostam de reeditar essa era com suas corridas loucas de limusine pelas ruas de Tóquio. As chamadas festas de princesa de uma companhia que organiza eventos proporcionam a jovens em geral de hábitos frugais a chance de se vestirem com elegância e percorrer de limusine as ruas da cidade como suas mães talvez fizeram em outros tempos.

“Eu quis fazer isso uma última vez antes de começar a trabalhar em tempo integral”, disse Mirei Sugita, 20, que fez cachos nos seus longos cabelos e colocou uma tiara na cabeça antes de sair para a noite. “Nós nunca fazemos uma coisa tão glamourosa”.

O consumo exagerado dos anos 1980, e a relativa falta dele hoje, destaca as diferenças cruciais entre as duas épocas.

“Parece que era um tempo mais clemente”, disse Mai Chusonji, 30, a outra integrante da Bed In, contando que sua mãe dizia que mal se lembrava da época porque estava sempre fora de casa “divertindo-se sem parar”.

Essa época chegou ao fim abruptamente quando a Bolsa do Japão entrou em colapso em 1990, e os preços dos imóveis despencaram.

As famílias japonesas agora gastam proporcionalmente uma parte menor de sua renda disponível do que nos anos 1980, inclusive porque os salários estão estagnados e as pessoas temem por seu futuro.

“Gostaria de viver naquela época, as pessoas não tinham medo de chamar a atenção”, disse Nanako Meguro, 18, que se formou recentemente no curso secundário em Osaka. “Elas queriam se sentir o máximo. Acho que em comparação às pessoas de hoje, todo mundo devia se sentir muito mais confiante”.

Mas para tentar emular o glamour  da era passada, os jovens dispõem de muito menos dinheiro. Uma noite, recentemente, seis estudantes universitárias saíram à procura de vestidos de cores vistosas em Nishi-Azabu, um bairro chique de Tóquio. Por cerca de US$ 60 cada uma, elas podem alugar vestidos de marca e andar de limusine por uma hora em uma festa de princesa.

A Anipla, companhia que dá as festas, disse que os aluguéis de limusines se tornaram o serviço mais procurado nos últimos anos.

Na saída, antes de entrar na limusine, Ayame Michigu, 20, disse que esta seria “a primeira e última vez” que gastariam para ter uma experiência como esta. “Eu ainda não pensei sobre o meu futuro, mas sei que vou ter de começar a pensar logo logo”, afirmou. “Meus pais querem que eu tenha um emprego estável. Não param de falar do quanto isto é importante”.

À pergunta se elas planejavam ir para alguma boate e beber mais tarde, elas abanaram a cabeça. “Eu estou com fome”, uma delas disse. “Talvez a gente vá comer alguma coisa, ou talvez simplesmente vá para casa”.

Mais conteúdo sobre:
Japão [Ásia] moda cultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.