AFP PHOTO / Pedro PARDO
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México pode cortar laços com gigantes do petróleo dos EUA

Andrés Manuel López Obrador, favorito na corrida presidencial, prometeu acabar com exportações

Clifford Krauss, The New York Times

08 Maio 2018 | 10h00

HOUSTON, Texas - Enquanto o presidente Donald J. Trump se prepara para reformular as relações comerciais com o México, as petrolíferas americanas estão preocupadas com a possibilidade de o futuro vencedor das eleições presidenciais mexicanas dar sua própria cartada nacionalista.

Andrés Manuel López Obrador, candidato que lidera as pesquisas, quer reverter as políticas que nos últimos anos amarraram um nó entre o México e os Estados Unidos na produção e no consumo de energia. E prometeu que o petróleo “nunca mais vai cair nas mãos de estrangeiros”.

Suas propostas podem desacelerar a produção de petróleo no Texas e impedir a perfuração em águas profundas no Golfo do México por parte de gigantes do petróleo, como a Exxon Mobil e a Chevron. E também colocariam em risco o superávit comercial de energia dos Estados Unidos com o México, que chegou a cerca de 15 bilhões de dólares no ano passado.

López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México com tendências esquerdistas, tem uma vantagem confortável nas pesquisas para a votação de 1º de julho. Ele moderou seu discurso desde que perdeu a corrida presidencial há seis anos, mas propõe uma reorientação da política energética do país, com ênfase na independência.

Ele prometeu acabar com as exportações de petróleo, quase todas para os Estados Unidos, até 2022 e gastar 6 bilhões de dólares na construção de duas refinarias que processariam petróleo bruto para consumo doméstico. Isso reduziria drasticamente as exportações americanas de gasolina para o México.

López Obrador e sua principal conselheira para o setor energético, a ex-parlamentar Rocío Nahle, pediram o congelamento de futuros leilões de perfuração em águas profundas e a revisão de contratos com companhias petrolíferas internacionais.

“Não podemos entregar irresponsavelmente nossas reservas de petróleo às empresas transnacionais”, escreveu Nahle, formada em engenharia química, em sua conta no Twitter.

Nahle disse que quer que o governo baixe o preço da eletricidade e da gasolina e que reduza a dependência do México em relação às importações de gás natural dos Estados Unidos, investindo mais em energia hidrelétrica. Qualquer redução nas vendas para seu principal cliente estrangeiro aumentaria o excedente que derrubou os preços de gás nos Estados Unidos nos últimos quatro anos.

Essas posições remontam aos anos 1930, quando o México nacionalizou sua indústria petrolífera. Sob o atual governo, uma mudança constitucional promulgada em 2014 permitiu que empresas estrangeiras investissem em exploração, perfuração, oleodutos e postos de gasolina e que se unissem em projetos com a petroleira estatal, a Petróleos Mexicanos, ou Pemex. Isso possibilitou que empresas como a Exxon Mobil investissem bilhões de dólares em vastos campos marítimos.

Nos últimos anos, o México substituiu o carvão e o diesel por gás natural americano, para produzir cerca de 30% da eletricidade do país. A revolução da perfuração de xisto ao norte do Rio Grande gerou uma abundância de gás natural barato para os consumidores americanos e mexicanos, e em 2015 o México anunciou um plano de cinco anos para aumentar as importações.

Cerca de 20 oleodutos transportam 127,5 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia para o México, e mais oleodutos estão sendo construídos ou planejados.

Nahle disse que as refinarias do México podem ser reformuladas para lidar com a substituição da gasolina e do diesel americanos.

À espera de uma desaceleração em suas políticas, as autoridades mexicanas da indústria do petróleo estão realizando leilões no exterior para atrair investimentos antes que o presidente Enrique Peña Nieto, impedido por lei de concorrer a um segundo mandato, deixe o cargo em dezembro. Mais de 100 contratos de desenvolvimento já foram adjudicados. A produção de petróleo do país continua em declínio, mas as autoridades esperam que possam reverter a tendência, à medida que as empresas internacionais começarem a produzir grandes quantidades de petróleo no Golfo do México nos próximos dois anos.

Analistas independentes viam os movimentos do México como um modelo de desenvolvimento econômico, e alguns deles estão preocupados com uma possível reversão. “Uma reviravolta nas atuais reformas seria prejudicial para a economia mexicana”, disse Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia.

As empresas internacionais poderiam se concentrar menos no México e mais em outros países da América Latina, como o Brasil, que também tem um enorme potencial em perfuração marítima, ou a Colômbia, que tem um potencial significativo na perfuração de xisto. Ambos os países também têm eleições este ano, e seus principais candidatos se manifestaram contrários a dar às empresas estrangeiras controle sobre recursos naturais ou se disseram preocupados com as consequências ambientais de todo e qualquer desenvolvimento de combustíveis fósseis.

“Isso cria muitas incertezas para a política energética”, disse Lisa Viscidi, especialista em energia do Inter-American Dialogue, um centro de estudos de Washington. “Em toda a América Latina, os principais candidatos querem fazer grandes mudanças no setor de petróleo e reverter reformas anteriores. López Obrador, particularmente, representa uma série de ameaças diretas”.

 

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