T. Charles Erickson para The New York Times
T. Charles Erickson para The New York Times

Musical fracassado encontra seus fãs

Mania online chega atrasada, mas revive espetáculo a respeito de um palerma

Elisabeth Vincentelli, The New York Times

06 Maio 2018 | 10h45

Antes de “Be More Chill” começar suas primeiras pré-estreias no Pershing Square Signature Center, em Nova York, a partir de 26 de julho, o espetáculo já será um dos espetáculos mais populares dos Estados Unidos, acompanhado por um grupo de fãs apaixonados que são muito mais numerosos do que o público que de fato assistiu à apresentação.

Tudo isso depois de quase um mês em cartaz em Nova Jersey três anos atrás. E um álbum com a trilha sonora que encontrou um grande público.

Em abril, quando o compositor do espetáculo, Joe Iconis, e um de seus astros, George Salazar, realizaram uma apresentação em dupla num cabaré, “Two Player Game”, no Feinstein’s/54 Below, houve quem viesse de avião de Paris, Berlim e Londres para assistir. Uma dupla de amigos veio de carro da Flórida. Annalise Heffron, 13 anos, e sua mãe, Amy Cobb, ficaram 17 horas viajando de ônibus desde seu lar em Cincinnati.

Adaptado a partir de um romance de 2004 escrito por Ned Vizzini, este musical no estilo pop-rock, com programa preparado por Joe Tracz, conta a história de um aluno do ensino médio, Jeremy Heere, que ingere um supercomputador do tamanho de uma pílula capaz de torná-lo mais bacana.

A única produção profissional data de junho de 2015, em Nova Jersey, no Two River Theater, que encomendou o espetáculo. Apesar da espirituosa trilha sonora de Iconis e seu crescente currículo contribuiu com o clássico cult “Broadway, Here I Come!” para a trilha do programa de TV “Smash”), nenhum produtor comercial demonstrou interesse. A carreira do espetáculo parecia encerrada.

Mas, passados menos de três anos, o álbum com a trilha sonora já ultrapassou a marca dos 100 milhões de ouvintes via streaming nos Estados Unidos. Assim, não surpreende tanto que uma temporada comercial fora da Broadway tenha sido preparada, a segunda produção do espetáculo até o momento.

“Saber que tantas pessoas estavam demonstrando interesse pela obra nos fez perceber que era uma oportunidade perfeita”, disse o produtor, Gerald Goehring, que já participou obras como “A Christmas Story: The Musical".

É difícil dizer o que deu início à mania. Novatos descobriam vídeos do musical na coluna de vídeos “recomendados" do YouTube, geralmente depois de terem clicado em vídeos de outros musicais, como “Hamilton” ou “Dear Evan Hansen”, e a internet ajudou fãs do mundo inteiro a entrarem em contato entre si.

“Eu era marcado em artes feitas pelos fãs, e então comecei a perceber que alguns aficcionados estavam escrevendo ficção a respeito do meu personagem e de Jeremy", disse Salazar. “Fiquei pasmo com tudo aquilo.”

O álbum entrou na parada de sucessos da Billboard na categoria trilha sonora impressionantes 97 semanas após o seu lançamento, pela Ghostlight.

Storyboards animados conhecidos como animatics apareceram no YouTube; o número que recebe mais versões animadas é uma canção na qual o personagem de Salazar sofre um ataque de ansiedade.

“Logo depois de descobrir ‘Michael in the Bathroom’, decidi tentar desenhar uma animação para a sequência, embora ainda não conhecesse nem mesmo o tema do musical", disse por e-mail Claudia Cacace, 22 anos, que vive perto de Nápoles, Itália. “Me identifiquei tanto com o personagem que senti a necessidade de desenhar a cena.”

Por sua vez, Dove Calderwood, 27 anos, descobriu a arte de Claudia e encomendou a ela animações para o musical inteiro.

Outra abordagem popular para “Michael in the Bathroom” é uma apresentação de cosplay (pessoas vestidas como os personagens dublam as canções) criada por um jovem de 20 anos que se apresenta como “Jack ou Aless, dependendo da situação”, vindo de Toronto.

Não se pode negar a dedicação dos fãs. Eles vieram em grande número para assistir a uma produção amadora de “Be More Chill” encenada em novembro no teatro Exit 82, em Nova Jersey.

“Foi o máximo de atenção já recebido por um espetáculo meu", disse Iconis, ainda parecendo um pouco surpreso. “Precisamos contratar seguranças para um encontro com o público num teatro comunitário. Seguranças, acredita?”

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