Paulo Nunes dos Santos para The New York Times
Paulo Nunes dos Santos para The New York Times

Na Irlanda, um corredor verde é caminho para a prosperidade

Agricultores céticos aprenderam a gostar de uma trilha que permitiu criar empregos

Ed O’Loughlin, The New York Times

01 Maio 2018 | 10h00

WESTPORT, IRLANDA – Em um caminho aberto no oeste da Irlanda, nos arredores da cidade de Westport, no Condado de Mayo, amantes das caminhadas e ciclistas costumam passar em frente a uma estranha escultura à beira da estrada.

Duas malas amassadas, em bronze, foram colocadas em baixo de uma sebe, à margem de um caminho de cascalho fino que se estende por cerca de 40 quilômetros, desde o porto protegido de Westport até os rochedos da Ilha de Achill fustigados pelos ventos, na costa selvagem do Atlântico.

Esta é a Great Western Greenway, uma trilha para caminhadas e ciclismo construída sobre o leito de uma ferrovia que foi abandonada há muito tempo. Trata-se de uma pista, como tantas outras que estão surgindo na paisagem campestre do país, com a finalidade de melhorar as oportunidades de lazer, boa saúde e emprego, explorando o amor dos irlandeses pela vida ao ar livre, qualquer que seja a estação do ano.                 

                                      

As malas estranhas, ali colocadas para assinalar a conclusão da Greenway em 2011, são um aceno a um costume do início do século 20. As pequenas locomotivas a vapor que viajavam nesta linha avançavam tão lentamente, em meio a baforadas de fumaça, que os passageiros podiam jogar sua bagagem do trem enquanto este passava em frente às suas casas.

Depois que a ferrovia foi desativada, em 1937, o seu trajeto foi vendido aos proprietários de terras do entorno, principalmente pequenos produtores rurais criadores de ovelhas e de algumas cabeças de gado que pastavam nas colinas. Para recuperar o percurso como trilha destinada ao lazer, a câmara dos vereadores local teve de convencer 161 proprietários de terras a permitir que estranhos caminhassem pelas suas propriedades – sem pagar nada pelo privilégio.

Pat Kelly, um dos donos de ovelhas, disse que no começo ficou cético quando a Câmara o sondou a este respeito. “Na melhor das hipóteses, é difícil fazer com que proprietários de terra irlandeses concordem com alguma coisa, particularmente quando se trata da sua propriedade”, contou. “Eles ficam muito nervosos se precisam permitir o ingresso de gente de fora em suas terras”.

Os proprietários quiseram ter a garantia de que não seriam processados se alguém se machucasse pelo caminho, e que continuariam totalmente donos da terra e poderiam retirar a permissão no momento em que quisessem. Em alguns lugares, foi preciso abrir desvios quando a velha linha passava muito perto de casas recentemente construídas, ou onde os proprietários da terra não se deixaram convencer.

Em todo caso, a reação à abertura da trilha em geral tem sido extremamente positiva.

A Câmara local admite que ela já gerou um turismo suficiente para compensar a maior parte dos 7,5 milhões de euros, ou US$ 9,3 milhões, do seu custo, somente no primeiro ano depois de sua inauguração, em 2010. Foram abertos pelo menos 200 novos empregos em pubs, hotéis, lojas de aluguel de bicicletas e outros empreendimentos ligados ao turismo, informou a Câmara. E mais de 250 mil pessoas agora percorrem anualmente o trajeto.

Grupos de caminhadas e de turistas, como o Mountaineering Ireland, utilizam o mesmo princípio do “acesso permissivo” para abrir novas trilhas para caminhadas e melhorar as que já existem na Irlanda.

Kelly gosta a tal ponto do conceito da Greenway que permite que um trecho dela siga parte da estrada que leva até a sua casa. Lá, ele construiu um abrigo de madeira para os caminhantes cansados, com bica de água para as pessoas e para os cães.

“Conheci gente do mundo inteiro bem na porta da minha casa”, contou.

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