Toya Sarno Jordan para The New York Times
Toya Sarno Jordan para The New York Times

Programa de música para estudantes permite a jovens e crianças sonharem alto

Alunos do OrchKids ganharam bolsas de estudos, tocaram com músicos famosos e foram elogiados na Casa Branca

Michael Cooper, The New York Times

16 Maio 2018 | 10h00

BALTIMORE, Maryland - Do lado de fora, a Escola Elementar Lockerman-Bundy parece ameaçadora, um monólito marrom amarelado construído na década de 1970. Algumas das casas do outro lado da rua estão fechadas com tapumes - um lembrete dos ciclos de pobreza e abandono com que a cidade vem lutando há anos.

Mas, em uma tarde do mês passado, a história foi diferente. A música ecoou por seus corredores coloridos e cheios de murais. As aulas tinham acabado, mas a escola não se esvaziou: jovens violinistas ensaiavam Beethoven em uma sala de aula, flautistas tocavam em outra e a turma dos metais preparava fanfarras em uma terceira. Também havia aulas de reforço, lanche e jantar.

“Quatro medidas de nada”. Foi assim que Wade Davis, professor de violoncelo, chamou seu grupo de jovens violoncelistas, lançando-os à “Ode à Alegria” de Beethoven. Do lado de fora da sala, Carol Moore enxugava as lágrimas ao espiar pela porta o filho, Jayden, 11 anos, que estava tocando viola.

“Tenho tanto orgulho deles”, ela disse.

Era apenas mais uma tarde no OrchKids [em inglês, um jogo com as palavras “orquestra” e “crianças”], o programa gratuito de contraturno escolar que a Orquestra Sinfônica de Baltimore e sua diretora musical, Marin Alsop, iniciaram há uma década, com apenas 30 crianças em uma única escola. O programa chega agora a 1,3 mil alunos em seis escolas; seus participantes ganham bolsas de estudo para prestigiados cursos de música de verão; tocam com músicos famosos, como o violoncelista Yo-Yo Ma e o trompetista Wynton Marsalis; e ganham aplausos na Casa Branca.

O programa foi idealizado por Alsop, que começou a pensar em maneiras de forjar laços mais estreitos com a cidade logo depois de se tornar diretora musical da Baltimore - a primeira mulher a comandar uma importante orquestra sinfônica americana - em 2007.

“Fico profundamente angustiada, porque nossas salas de concerto, nossos palcos, não refletem a diversidade de nossas comunidades”, disse ela.

“Como vamos mudar essa paisagem?”

Ela conseguiu tirar o programa do papel ao prometer 100 mil dólares de seu próprio bolso - parte de um prêmio “genial” da MacArthur que ela ganhou em 2005. Era uma boa maneira de encorajar outros doadores. Houve solavancos ao longo do caminho. A primeira escola a abrigar o OrchKids foi fechada depois de um ano, forçando o programa a se mudar para a Lockerman-Bundy.

O primeiro aluno a se inscrever no programa foi Keith Fleming, que então cursava a primeira série. 

“No começo, eu não gostava muito de música”, lembrou ele recentemente. “Só pensei: vou fazer isso porque realmente não tenho outra coisa para fazer. Mas aí chegou o primeiro dia e eu comecei a aprender música - e comecei a gostar”.

Agora ele tem 15 anos, e suas habilidades na tuba o levaram até Londres e a Áustria. E também o ajudaram a passar em uma seleção da Escola de Artes de Baltimore, onde ele cursa hoje o segundo ano.

Asia Palmer, no décimo ano de flauta, disse que para ela o auge da experiência foi conhecer Michelle Obama na Casa Branca, em 2013. “O programa me deu voz”, disse ela. “Sinto que posso ser o que quiser, fazer o que quiser - me superar”.

O OrchKids oferece um alívio para os problemas que muitas vezes chegam perturbadoramente perto: em 2015, cinco pessoas foram baleadas a apenas um quarteirão da escola, logo depois da hora da saída. É também um ponto de luz em uma cidade que teve a maior taxa de homicídios per capita em 2017, segundo o jornal USA Today.

O programa foi inspirado no El Sistema, um programa de educação musical venezuelano, que Nick Skinner, diretor de operações do OrchKids, visitou para ter umas ideias. Atualmente, o futuro do El Sistema está em dúvida na Venezuela, que enfrenta uma grave crise econômica. Mas seus ideais criaram raízes em outros lugares.

“Desde o início”, disse Skinner, “era muito importante que estivéssemos imersos na escola e na comunidade”.

Em um recente concerto para celebrar o décimo aniversário do programa, Alsop disse ao público: “Quando as pessoas falam: ‘Ah, você é de Baltimore’, elas fazem uma cara estranha”.

“Então digo a elas que Baltimore tem tudo a ver com comunidade”, continuou. “Baltimore tem tudo a ver com possibilidade. Baltimore tem tudo a ver com o futuro”.

E depois ela regeu a jovem orquestra em uma mistura de “Ode à Alegria” e “Conqueror”, de Estelle. Os ensaios na Lockerman-Bundy valeram a pena. As crianças arrasaram.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.