Kassie Bracken/The New York Times
Kassie Bracken/The New York Times

Uganda colhe resquícios de velha batalha

As lembranças de duas décadas de guerra ressurgem em uniformes e munição descartados há mais de dez anos

Megan Specia e Kassie Bracken, The New York Times

12 Maio 2018 | 10h15

PAICHO, UGANDA - Pouco depois do nascer do sol, Patrick Ogik colocou um arreio de madeira sobre o pescoço de seus dois bois e prendeu a eles um arado de metal. O agricultor de 44 anos conduziu os bois até onde preparava o plantio dos pés de amendoim num pequeno terreno pertencente a ele nos arredores de Paicho, vilarejo no norte de Uganda.

Enquanto o arado revolvia a terra, o metal encontrou algo duro. Ogik tirou do chão os restos de um morteiro. Ele explicou que a carga explosiva já tinha detonado, embora já tenha encontrado munição de verdade antes. Jogou a peça para o lado e continuou o trabalho.

Uma brutal guerra já foi travada naquele lugar, alterando a vida de Ogik. As marcas da violência estão por toda parte, até mesmo sob o chão. O norte de Uganda foi o campo de batalha de um conflito que durou décadas envolvendo o grupo rebelde Exército de Resistência do Senhor (LRA na sigla original) e o governo ugandense. A vila de Paicho ficava no centro dos combates. Os campos de Ogik eram ocupados por alojamentos militares do exército nacional. O chão ainda está repleto de uniformes descartados pelos soldados dez anos atrás.

O LRA promoveu uma campanha de terror no norte de Uganda durante quase duas décadas, a partir do final dos anos 1980. Acredita-se que o grupo seja responsável por pelo menos 100 mil mortes, além de milhares de sequestros. Seus combatentes mutilavam civis, raptavam mulheres para fazê-las de “noivas" e sequestravam crianças para fazer delas combatentes.

A família de Ogik dependia do auxílio humanitário para se alimentar. Entre 1997 e 2007, ele viveu num campo para desabrigados. O exército ugandense deslocava os aldeões para os campos na tentativa de expulsar do território o LRA, comandado pelo autoproclamado santo Joseph Kony, que continua foragido.

As lembranças de Ogik dessa época voltam conforme ele trabalha para fornecer alimentos ao grande fluxo de refugiados que chegam ao norte de Uganda vindos do Sudão do Sul, fugindo da guerra no seu país natal. “Já estivemos nos campos, e sabemos como é essa vida", disse.

Ogik e uma associação de agricultores locais venderam sua colheita de milho para o Programa Mundial de Alimentos. O cereal será usado para alimentar alguns dos 1,1 milhão de refugiados sul-sudaneses nos campos próximos.

A região se manteve relativamente pacífica desde 2009, quando o exército expulsou o LRA de Uganda, mas tem sido difícil cicatrizar as feridas. Paicho está entre os lugares mais afetados pelo conflito, disse Okwir Isaac Odiya, líder do projeto Justiça e Reconstrução, organização não governamental que busca a justiça para as vítimas de crimes de guerra. “Há tensões entre famílias e comunidades, com pessoas que responsabilizam umas às outras pelas mortes de seus entes queridos", disse Odiya.

Uma agência do governo está preparando uma lei nacional de justiça transicional para Uganda. Várias versões foram apresentadas, mas o texto final ainda não foi aprovado.

“Já são quase 10 anos de preparo da lei”, disse Odiya. “Até quando teremos de esperar por uma transição justa em Uganda?”.

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