Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Uma forma simples de melhorar a vida de um bilhão de pessoas: óculos

Problemas de visão sem tratamento custam à economia global 200 bilhões de dólares anualmente em produtividade perdida

Andrew Jacobs, The New York Times

15 Maio 2018 | 10h15

PANIPAT, Índia - No início, os problemas de visão de Shivam Kumar pareciam possíveis de se conviver. Para enxergar melhor a lousa, o jovem de 12 anos foi para a primeira fila da sala de aula, mas, com o tempo, as dificuldades se acumularam.

A visão cada vez mais borrada o obrigou a abandonar o hábito de empinar pipas e, mais tarde, o críquete. Os olhos constantemente apertados lhe davam dores de cabeça. Com as notas cada vez piores na escola, caiu por terra seu sonho de se tornar piloto. “É impossível pilotar um avião sem enxergar direito", comentou ele, desanimado.

A solução para o problema de visão cada vez mais grave de Shivam era muito simples. Ele precisava de óculos.

Mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo precisam de óculos, dizem os pesquisadores, problema que há muito deveria ser considerado uma prioridade de saúde. Algumas estimativas falam que esse número seria de até 2,5 bilhões de pessoas. Entre elas estão milhares de caminhoneiros nigerianos que mal conseguem ver os pedestres atravessando as estradas, e agricultores de meia idade na Bolívia cuja incapacidade de enxergar de perto dificulta o trabalho de encontrar os grãos maduros para a colheita.

Há também dezenas de milhões de crianças como Shivam, cujas famílias não podem pagar por um exame oftalmológico ou os óculos que as ajudariam a melhorar o desempenho na escola.

“Muitas dessas crianças são tidas como maus alunos ou pouco inteligentes e, com isso, não avançam na escola", disse Kovin Naidoo, diretor global da organização Our Children’s Vision, que oferece óculos gratuitos ou baratos em toda a África. “Isso só acrescenta mais obstáculos para países que lutam para romper o ciclo da pobreza.”

Numa era em que milhões de pessoas ainda morrem de doenças que podem ser prevenidas ou tratadas, muitos doadores concentram sua generosidade no combate a males mortais como Aids, malária e tuberculose. Em 2015, apenas 37 milhões de dólares foram gastos entregando óculos a pessoas dos países em desenvolvimento, menos de 1% dos recursos dedicados a questões mundiais de saúde, de acordo com a organização sem fins lucrativos EYElliance.

Até o momento, as atividades de captação de recursos desse grupo arrecadaram apenas alguns milhões de dólares, de acordo com os organizadores. Foram recrutados Ellen Johnson Sirleaf, ex-presidente da Libéria, Elaine L. Chao, secretária dos transportes dos Estados Unidos, e Paul Polman, diretor executivo da Unilever, numa tentativa de catapultar a questão para as listas de objetivos do desenvolvimento global. A Organização Mundial da Saúde estima que o problema custe à economia global mais de 200 bilhões de dólares ao ano em produtividade perdida.

Fábricas na Tailândia, China e Filipinas podem fabricar os chamados óculos de leitura por menos de 0,50 dólares cada par, e óculos de acordo com as especificações dos oculistas por 1,50 dólares.

Mas, sozinho, o dinheiro não pode resolver facilmente os desafios enfrentados por países como Uganda, que tem apenas 45 oftalmologistas para uma população de 41 milhões de habitantes. Na zona rural da Índia, os óculos são vistos como sinal de fragilidade, e atrapalham as mulheres que desejam se casar. Até o ano passado, não havia uma única clínica oftalmológica na Libéria.

“Os habitantes das zonas rurais nunca sequer viram uma criança usando óculos", disse Ellen.

Numa tarde recente, centenas de crianças de uniforme azul formavam fila no empoeirado pátio da escola de Shivam, em Panipat, duas horas ao norte de Nova Délhi. Os estudantes estavam recebendo exames odontológicos oferecidos pela VisionSpring, uma organização sem fins lucrativos fundada por Jordan Kassalow, optometrista de Nova York que ajudou a criar a EYElliance, que trabalha com governos locais para distribuir óculos subsidiados na Ásia e na África.

Cerca de 12% dos participantes foram identificados com problemas de visão e receberam mais testes.

Ratan Singh, 45 anos, agricultor cooperativista que recentemente ganhou seus primeiros óculos de leitura, disse que a incapacidade de ver pequenas pragas nos caules da colheita tinha levado a uma queda na produtividade. Envergonhado, ele contou da ocasião em que aplicou o inseticida errado porque não conseguiu ler a etiqueta. “Eu sempre pedia aos outros para lerem para mim, e estava me tornando um incômodo", disse ele.

A maioria dos adultos com mais de 50 anos precisa de óculos de leitura: mais de um bilhão de pessoas nos países em desenvolvimento, de acordo com a Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira.

O enfraquecimento da visão de D. Periyanayakam, 56 anos, funcionário de uma empresa de eletricidade, dificultava atividades como dirigir e responder a mensagens de texto ligadas ao trabalho. “Achei que era apenas uma questão de tempo até me suspenderem", disse ele durante uma visita a uma clínica oftalmológica móvel administrada pelo Hospital Oftalmológico Aravind, uma instituição sem fins lucrativos. Periyanayakam recebeu um par de óculos de 2 dólares.

O Aravind distribui 600 mil pares de óculos todos os anos na Índia, e expandiu suas atividades para o Nepal, Bangladesh e países da África por meio de parceiros locais.

O hospital treina seus próprios examinadores; um outro curso treina os professores do primário na aplicação de testes de visão para os estudantes usando quadros graduados.

A visita do Aravind à escola de Shivam trouxe nova esperança ao garoto que queria ser piloto. Ele saiu de lá com óculos.

Shivam exclamou, “Tudo ficou tão claro!”  

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