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Artigo: O jogo perigoso de Israel

Thomas L. Friedman - The New York Times

15 Março 2010 | 12h 14

Sou um grande fã de Joe Biden. O vice-presidente é um infatigável defensor dos interesses americanos no exterior. Por isso me custa dizer que, em sua recente visita a Israel, quando o governo do premiê Binyamin "Bibi" Netanyahu esfregou-lhe no nariz alguns projetos habitacionais novos na contestada Jerusalém Oriental, Biden perdeu uma chance de enviar um poderoso sinal público.

Ele devia ter fechado bruscamente seu bloco de notas, voado para casa e deixado a seguinte nota rabiscada para trás: "Mensagem da América ao governo israelense: Amigos não deixam amigos bêbados dirigir. E bem agora, vocês estão guiando embriagados. Vocês acham que podem embaraçar seu único verdadeiro aliado no mundo, para satisfazer alguma necessidade política doméstica, sem consequências? Vocês perderam totalmente o contato com a realidade. Chamem-nos quando ficarem sérios. Precisamos nos concentrar na construção de seu país."

Acho que isso teria enviado uma mensagem muito útil por duas razões. A primeira, que os israelenses tocaram numa pergunta que muita gente está fazendo sobre a equipe do presidente Barack Obama: até onde vai a firmeza desses caras? A última coisa de que o presidente precisa, num momento em que tenta se impor a Irã e China - para não mencionar o Congresso -, é parecer que o aliado mais dependente dos Estados Unidos consegue intimidá-lo.

E a segunda, Israel precisa de um safanão para acordar. Continuar construindo assentamentos na Cisjordânia, e mesmo casas na disputada Jerusalém Oriental, é insanidade pura.

Yasser Arafat aceitou que subúrbios judeus na Cisjordânia ficariam sob soberania israelense em qualquer acordo de paz e também faria das partes árabes de Jerusalém Oriental a capital do Estado palestino.

A planejada expansão habitacional de Israel suscita questões sobre se Israel algum dia estará disposto a admitir uma capital palestina em bairros árabes de Jerusalém Oriental - um grande problema.

Israel já abocanhou boa parte da Cisjordânia. Se quiser continuar sendo uma democracia judaica, sua única prioridade agora deveria ser um acordo com os palestinos que lhe permitisse trocar esses conjuntos habitacionais na Cisjordânia ocupada por uma quantidade igual de terra de Israel para os palestinos e, então, colher os benefícios - econômicos e de segurança - do encerramento do conflito.

Infelizmente, não foi o que ocorreu na semana passada. Nos últimos nove meses, o enviado especial dos EUA, George Mitchell, vinha tentando encontrar um modo de iniciar algum tipo de conversação de paz entre israelenses e palestinos. Os palestinos não confiam em Bibi e o premiê tem dúvidas sobre se a dividida liderança palestina conseguirá negociar.

Mas Mitchell foi capaz de persuadir os dois lados a acertarem "conversações de aproximação". Os assessores de Mitchell e de Netanyahu firmaram um acordo informal: se os EUA mantiverem as conversações, não haveria nenhum anúncio de construções em Jerusalém Oriental.

Então, o que houve? Biden chegou um dia após o início das conversações de aproximação e o Ministério do Interior de Israel anunciou a aprovação de um plano para construir 1.600 casas em Jerusalém Oriental.

Netanyahu disse que foi tomado de surpresa. Provavelmente é verdade num sentido estrito. A medida parece ter sido parte de uma competição entre dois ministros sefaraditas de direita do partido religioso Shas sobre quem pode ser o maior promotor de construção de casas para judeus ortodoxos sefaraditas em Jerusalém Oriental.

É uma medida de quanto Israel considera garantido nosso apoio e quanto a direita religiosa israelense está por fora das necessidades estratégicas dos EUA.

Biden - um verdadeiro amigo de Israel - foi citado dizendo a seus interlocutores israelenses: "O que vocês estão fazendo aqui enfraquece a segurança de nossas tropas que estão combatendo no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão. Isso nos coloca em perigo e ameaça a paz regional."

Todo esse alvoroço também nos desvia do potencial deste momento: somente um primeiro-ministro de direita, como Netanyahu, pode fazer um acordo sobre a Cisjordânia; as políticas reais de Netanyahu no terreno ajudaram os palestinos a desenvolver sua economia e criar sua própria força de segurança reconstruída que está trabalhando com o Exército israelense para impedir o terrorismo; os líderes palestinos Mahmoud Abbas e Salam Fayad são tão genuínos e sérios sobre trabalhar para uma solução quanto qualquer um que Israel espere encontrar; o Hamas interrompeu seus ataques da Faixa de Gaza contra Israel; com os árabes sunitas obcecados com a ameaça do Irã, sua disposição de trabalhar com Israel nunca foi tão alta, e a melhor maneira de isolar o Irã é tirar a carta do conflito palestino da mão de Teerã.

Em suma, pode haver uma real oportunidade aqui - se Netanyahu quiser agarrá-la. O primeiro-ministro israelense precisa decidir se quer fazer história ou ser mais uma vez uma nota de rodapé dela.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK